Concluiu-se ontem a segunda semana da Festa do Cinema Francês de 2025, com a exibição do filme de encerramento, o quase-musical Partir Un Jour, de Amélie Bonnin, que fora o “filme de abertura” do último festival de Cannes. Hugo Dinis, Pedro Barriga e Miguel Allen assinam as críticas dos destaques desta última semana, em que evitámos (caridosamente) falar, mais uma vez, de Le Deuxième Acte de Quentin Dupieux.
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La Petite Dernière de Hafsia Herzi
A história de uma jovem, muçulmana e homossexual, e o enorme conflito entre esses dois lados da sua identidade. La petite dernière é um filme simples, modesto, sem grandes pretensões. Mas, acima de tudo, é uma obra sincera, genuína e empática. Antes de chegar a Portugal, o filme teve a sua estreia mundial este ano na Competição Principal do Festival de Cannes. A atriz principal, Nadia Melliti, faz um bom papel, ainda que a sua interpretação seja talvez demasiado discreta. Melliti foi galardoada com o Prémio de Melhor Atriz, uma honra algo discutível. Jennifer Lawrence em Die My Love teria sido uma escolha mais merecida. Ótimo sim foi voltar a ver Park Ji-min no grande ecrã, após a sua estreia em 2022 em Return to Seoul. No geral, La petite dernière é uma adição bem-vinda ao género LGBT e ao universo de filmes sobre a passagem para a idade adulta. E uma coisa é certa: estamos perante um melhor filme sobre descoberta sexual do que La vie d’Adèle. A realizadora Hafsia Herzi, entre outras valências, retrata a sexualidade de uma forma bonita e íntima.
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Pedro Barriga

Alpha de Julia Ducournau
Trapalhão, confiançudo e deselegante. Tudo o que se disse da palma de ouro de Titane em 2021, em plena pandemia, podia e devia ser dito deste Alpha. Uma história transparente e mal cozinhada por uma filha dos anos 90, Alpha é um exercício em revivalismo derivativo do cinema pandémico inspirado pelo vírus da SIDA nessa altura. É certo que Julia Ducournau nunca deixou de exibir o seu pendor melodramático à vista de todos, mas enquanto Titane o envolveu numa proposta de conteúdo desenfreado e ambicioso, Alpha esforça-se por ser o mais pueril possível na procura do drama simplório. A sua inspiração é, de resto, evidente na opacidade da sua banda sonora. O abuso dos needle drops ao estilo de videoclipe barato vai desde Portishead a Tame Impala, passando por uma montagem onírica ao som de Nick Cave. Tudo nesta ideia de Ducournau sinaliza uma qualquer versão da conversa de brunch de domingo com amigos sobre as agruras da vida. Na doença ou na dependência, Ducournau é passageira e turista, e a sua curiosidade nunca vai para além do simples escarafuncho meloso.
Mas que ninguém lhe retire a confiança. Alpha é supremamente evidente nos seus propósitos e declarado nas suas execuções. Em súmula, evoca a noção de viralidade para estabelecer um drama familiar em torno de uma mãe médica marcada pela perda na doença (Golshifteh Farahani), uma filha adolescente a tomar escolhas questionáveis e a descobrir a história familiar (Mélissa Boros), e um tio toxicodependente que padece de uma doença contagiosa e fatal que transforma o corpo num amontoado de pedra e pó (Tahar Rahim). Ao colocar o ênfase na condição familiar, Ducournau sublinha o cariz pessoal da pandemia e desvia-se de uma abordagem mais holística que pudesse agregar a examinação ao pânico social e à resposta comunitária ao vírus. Ainda que compreensível, essa escolha não favorece a escrita de Ducournau e coloca a nu o seu entendimento facilitista daquilo que são as nuances do drama social inerente a esta situação.
A exploração da personagem de Farahani divide-a entre um conjunto de deixas desgarradas sobre a impotência com a condição do irmão e o temor com a da filha. Os saltos temporais na narrativa, espelhados pela imagem granular evocativa dos anos 80 e a frieza metálica dos 90s, tornam o potencialmente implícito no completamente explícito. Uma telenovela a fazer lembrar os especiais de Dawson’s Creek ou de Riscos nas tardes da RTP da geração agora apelidada de milenial. Na verdade, este filme já foi feito antes e por gente bem mais capaz que Ducournau. Era bom que Alpha tivesse melhor resumo que esse. Não tem.
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Hugo Dinis

La Venue de l’avenir de Cédric Klapisch
À semelhança de L’Auberge espagnole, La Venue de l’avenir é uma peça de timing dentro de um elenco alargado de personagens. A proposta de Cédric Klapisch é, na verdade, mais simples do que à primeira vista assim parece: uma jovem do campo (Suzanne Lindon) em finais do século XIX decide partir rumo a Paris para encontrar a mãe ausente (Sara Giraudeau) e vê-se numa cidade em plena construção do mito da sua urbe, ao passo que no presente os seus herdeiros decidem o que fazer com a herança abandonada. A dupla moldura temporal permite a Klapisch enveredar por um comentário relativamente superficial sobre a ideia de legado, de identidade familiar, e de memória. No passado, Lindon trava conhecimento com um par de interesses amorosos, um fotógrafo e um pintor, ambos marcados pela captura ou representação de momentos e de passados, e a sua escolha acaba por responder ao próprio drama familiar em que se vê absorta. Para Klapisch, a narrativa actual apenas acaba por servir de escape humorístico para os descobrimentos do amadurecimento de Lindon. A mudança de tom não é, contudo, mal conseguida, e La Venue de l’avenir acaba por espelhar o olhar para o passado de Lindon e dos seus herdeiros como um exercício quase ritual, no verdadeiro sentido da palavra.
Por outro lado, a visão declaradamente sacarina da Paris romântica de Klapisch evolui amiúde para um pendor nostálgico que facilmente incorre em devaneios culturais de identificação para o espectador. Ao vermos Victor Hugo e Monet na tela, não nos deixa de relembrar o pastiche levezinho de Forrest Gump ou de Midnight in Paris, curiosamente. O que Klapisch tem para dizer sobre memória não se mostra suficiente para arrastar dois filmes em parelelo pela meta, e a sua visão acaba condensada nas falas das personagens do presente. É aí que Seb (Abraham Wapler), um fotógrafo de profissão, desabafa que tem estado tão focado no futuro que lhe fez bem olhar para o passado. Este olhar é sempre mágico e bem intencionado. Na verdade, a viagem de Lindon é pontuada sempre mais pela aventura e pelo encanto do desafio do que pelo desgosto (o primeiro contacto com a mãe, por exemplo), por muito fugaz que seja. Por outro lado, a proliferação de personagens serve para Klapisch conferir um ritmo narrativo ágil e propenso a um dinamismo contemporâneo, mas estas raramente interagem de forma significativa para tornar as suas ligações marcantes. Há em La Venue de l’avenir uma cena de comboio que melhor o resume. Nela, Guy (Vincent Macaigne), um apicultor anticapitalista, procura meter conversa com os três outros familiares que fazem a jornada até à antiga propriedade de Lindon. As respostas vagas e desinteressadas de cada um acabam com os olhares a regressarem aos telemóveis, quase que por magnetismo.
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Hugo Dinis

Partir un Jour de Amélie Bonnin
Regresso ao futuro chez les ploucs. Um filme um tanto geo-localizado nas suas referências populares contemporâneas, Bonnin denuncia um olhar sobre o musical não muito diferente daquele que Cécile (Juliette Armanet) lança sobre as gentes da sua juventude – sem saber conter alguma ironia ou tratar a difícil distância na abordagem a algo, assim… pitoresco. E, no entanto, apesar de todas as suas tendências gentrificadas (as tais que identifica na sua personagem principal), Partir un Jour é francamente comovente ao se deixar mergulhar, enfim, na dita “falha temporal”. Se abre com um Alors on danse tão genérico, aquece pouco a pouco até nos levar o coração ao Cécile de Gérard Béghin (François Rollin) ou ao Paroles – em italiano, claro – de Fanfan (Dominique Blanc). Naturalmente, falta-lhe abraçar com menos preconceito ou timidez a vertigem romântica de algo como Pour que tu m’aimes encore, mas não deixa de nos ferir com a sua sinceridade nos tempos finais. Como se percorrendo um álbum de família de dias passados, um reaprender a amar as nossas escolhas e os nossos erros, construindo uma história por partidas e regressos. Amar, mesmo quando “les fleurs ont fanée” e “le temps d’avant c’était le temps d’avant.”
Pourquoi on divorcerait ? On s’adore.
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Miguel Allen

Toris Amies de Emmanuel Mouret
O fantasma apaixonado, uma delicada teia de amores e desamores por Lyon. Uma história que se passa um pouco “aqui… e ali“, mas sobretudo entre aquelas três amigas, com um olhar que se demora, melancólico e sensível, sobre o rosto triste de Joan (India Hair), foco sentimental daquela cidade. Amoroso e trapalhão, Victor (Vincent Macaigne) tentará, após a violenta “psicanálise em tempo relâmpago” que fora o seu acidente, levar o seu amor a um lugar seguro, a um outro novo amor que possa enfim concluir a relação que construíram durante anos. Mas Joan, mais “inquieta” do que gostariam todos de imaginar, será tentada, novamente pela mais doce gourmandise da vida, essa que pode mesmo abalar o conforto da sua casa. Se se trata de um filme com o qual é difícil não nos identificarmos pessoalmente, isso será também porque, como o filme explica, todos os nossos encontros não serão mais do que pequenas repetições, pequenas variações de outros episódios passados.
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Miguel Allen



