Feminismo e Exploitation no Virar dos Anos 60/70: A Disrupção de Faster, Pussycat! Kill! Kill! e Switchblade Sisters

David BernardinoJulho 25, 2025

Depois de décadas do chamado cinema clássico da Velha Hollywood, a viragem dos anos 60 para os anos 70 trouxe novos paradigmas. Falar da Nova Hollywood é falar de Scorsese e Coppola dando os seus primeiros passos de forma desafiante e independente, que viriam a refinar-se com Mean Streets e The Godfather. Ao mesmo tempo, outro cinema estava a ser desenvolvido à margem dos holofotes. O cinema exploitation, de baixo orçamento, transgressivo e desafiador de convenções sociais e regras tidas como boas, ou garantidas, pelo cânone da época. Filmes como Last House on the Left, Texas Chainsaw Massacre, Coffy, Switchblade Sisters ou Faster, Pussycat! Kill! Kill! abriram caminho para o cinema série B como o conhecemos hoje, mas serviram também para inspirar as incursões contemporâneas de Tarantino ou Robert Rodriguez, criando ainda arquétipos para David Lynch (Wild at Heart) ou Ridley Scott (Thelma and Louise), entre tantos outros nomes sonantes do cinema americano.

Laura Dern e Nicolas Cage em Wild At Heart (1990) de David Lynch

O exploitation foi uma lufada de ar fresco para a liberdade criativa e estética no cinema independente da época, mas não sem a sua controvérsia justificada. Os temas marginais – motins juvenis, drogas, sexo, racismo – a transgressão, o erotismo, a violência gratuita, serviam como pano de fundo para procurar o interesse do público nestas produções de baixo orçamento empoladas por cartazes sugestivos e títulos sensacionalistas que disfarçavam a crueza de tratamento de imagem e o som precário (universalmente presentes no género). Foi também uma fase de experimentação pós código Hays, que desde 1930 censurava e manietava a liberdade criativa no cinema norte-americano. Foi nesse contexto que surgiram, talvez inadvertidamente, dois filmes separados por uma década que, dentro do exploitation, fizeram campo para uma certa visão feminista no cinema de género até então preso a heróis masculinos: Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) e Switchblade Sisters (1975).

Coffy (1973) de Jack Hill

Visto com os olhos de hoje seria fácil descartar como puro trash Faster, Pussycat! Kill! Kill!, mas a sua influência e genuinidade são dados incontornáveis na história do cinema série B americano, e não só. Talvez sem se aperceber, Russ Meyer foi um pioneiro que quebrou barreiras ao apresentar em 1965 um filme centrado num grupo de 3 mulheres violentas, confiantes amorais, subvertendo os estereótipos num género dominado pela masculinidade. Não só Meyer não filma estas mulheres como donzelas em apuros, mas antes as apresenta como as protagonistas simultaneamente vilãs, implacáveis, capazes de matar, raptar e usar a sedução como arma para atingir os seus fins niilistas.

Faster, Pussycat! Kill! Kill! (1965) de Russ Meyer

É verdade que Faster, Pussycat! está repleto de olhar masculino (o tal male gaze), mas em 1965, numa era pré emancipação feminina, o seu público alvo era, de forma inescapável, ainda o masculino. Planos picados e centrados reflectindo as ancas de Lori Williams, os olhos de Haji e principalmente o generoso decote da icónica Tura Satana, mas também os bícepes de Dennis Busch, confrontam o espectador com uma imagética inédita, questionável, mas audaz. Satana, líder das 3 mulheres, carismática, repleta de one liners icónicos, e também porta voz de uma selvagem gritaria militarizada, é o símbolo dessa subversão de género: mãos femininas ao volante de carros a acelerar pelo deserto americano a preto e branco, calças de cabedal e uma boca capaz de fazer corar o pior dos hillbillies. Os antagonistas, precisamente rednecks afirmativamente anti-democratas, aqui as “vítimas” às mãos das 3 mulheres, uma micro sociedade masculina (patriarca e seus dois filhos, estereotipados ao limite neste precursor do grindhouse puro e duro), lidam impávidos com esta “invasão” à sua pacatez rural, ela própria pouco inocente. Além de desafiar corolários, Faster, Pussycat! representa a fonte desse cinema alternativo made in USA. O realizador, Russ Meyer, continuaria depois a desenvolver o exploitation feminista através de filmes como Good Morning… and goodbye! e, principalmente, Beyond the Valley of the Dolls, de 1975, ano de estreia de Switchblade Sisters.

Tura Satana em Faster, Pussycat! Kill! Kill!

Entre 1965 e 1975 o exploitation continuou a esticar a corda e um dos seus subgéneros mais subversivos foi o teensploitation sobre gangs juvenis e delinquentes em revolta. Jack Hill (realizador de Coffy e Foxy Brown, exemplares superiores do blaxploitation, protagonizados por Pam Grier) trouxe a corrente empoderadora a este subgénero com o icónico filme de culto Switchblade Sisters. Carregado de energia, mas difícil de assistir na sua primeira metade, não se dá ao pudor de descrever dois gangs onde a misoginia impera: os The Silver Daggers, gang masculino liderado por Dominic, que por sua vez namora com Lace, líder do gang 100% feminino The Dagger Debs, as parceiras dos Silver Daggers. Arruaceiras e sem escrúpulos, Lace e o seu gang de mulheres decidem criar o caos de faca em punho num diner local, cruzando-se com Maggie, uma colega do liceu dura de roer que não se deixa intimidar atiçando a curiosidade de Lace, integrando assim o grupo e alterando por dentro as suas dinâmicas.

Switchblade Sisters (1975) de Jack Hill

A banalização da violência, e sobretudo das violações, tortura, assassinato e violência intrauterina são temas que carregam Switchblade Sisters com uma carga de revolta de difícil digestão, para não falar da traição e desconfiança entre mulheres motivadas por relacionamentos baseados em possessividade e dominância. É aí que entra Maggie, rosto coberto de sangue, protagonista improvável que lidera a emancipação do gang feminino expurgando a sua contraparte masculina, modificando o seu nome, orgulhosamente gritando na cara do polícia: “Let me give you some piece of advice cop! You can beat us, chain us, lock us up, but we’re gonna be back! We’re the Jezebels cop. Remember that name…”. Com a sua aura semi-amadora, interpretações e diálogos sensacionalistas (e personagens fortemente estereotipadas), o na altura já experiente Jack Hill veio a criar, com Switchblade Sisters, aquele que viria a tornar-se um filme de culto nos nichos do cinema de género, que se junta a Faster, Pussycat! Kill! Kill! como provavelmente o maior exemplo da história do exploitation feminista.

Switchblade Sisters

A ironia do feminismo no cinema exploitation nos anos 60/70 está no seu público quase totalmente masculino. Enquanto em Faster, Pussycat! Varla (Tura Satana) e Billie (Lori Williams) manipulam e seduzem os homens para atingir os seus confusos fins, em Switchblade Sisters essa noção de emancipação larga o voyeurismo a favor de uma real cisão com o masculino encabeçada por Maggie (Joanne Nail) e o seu anarquista grito de revolta final. É também disto que se faz a história das ideias no cinema: passando pelos esgotos da sétima arte, pelo que poucos viram na época, que se vem a redescobrir, com o passar das décadas, o tecido mais espesso de uma contra-cultura que parece ausente das salas desde Eyes Wide Shut (1999) de Kubrick. E já lá vão 26 anos.

David Bernardino