Muito antes de o Marvel Cinematic Universe ter juntado o seu panteão bilionário, bem antes de multiversos e cenas pós créditos se tornarem prática obrigatória, havia Roger Corman. O rei da série B, o santo padroeiro do pulp, e o improvável padrinho da Primeira Família da Marvel no cinema. Em 1994, Corman produziu aquele que devia ser o primeiro filme do Quarteto Fantástico. Nunca chegou a ser lançado. Custou, diz-se, cerca de 1 milhão de dólares e nasceu não de vontade de entusiasmar fãs ou fazer bilheteira, mas da necessidade do estúdio de manter os direitos das personagens. O elenco não fazia ideia. Ensaiou, vestiu fatinhos de lycra e filmou sem saber que tudo ia para uma prateleira. O filme, uma esquisitice chunga e fascinante, circulou em cassetes pirata por convenções e lojas de banda desenhada até ganhar estatuto de lenda urbana.
Agora que Fantastic Four: First Steps chega às luzes da ribalta do MCU, vale a pena lembrar essa versão que não era suposto existir, até porque o filme de Matt Shakman lhe faz uma pequena homenagem.
Contando então com essa versão que Corman produziu, Fantastic Four: First Steps é já o quinto filme dedicado ao Quarteto Fantástico, mas é curioso constatar que é o primeiro a entender o que faz esta propriedade funcionar e porque mantém uma base fiel de fãs desde 1961, apesar de as incursões no cinema terem sempre deixado muito a desejar. Sem a obrigação de repetir mais uma origin story, Shakman faz-nos aterrar de caras na Terra-828, uns anos depois de quatro astronautas serem atingidos por uma tempestade de raios cósmicos, ganharem poderes e se tornarem figuras públicas com fãs, merchandising e tudo o resto. Na Terra-828, não há outros super-heróis. Culpa dos multiversos, que têm os outros mascarados espalhados por realidades alternativas. Aqui, Reed Richards, Sue Storm, Johnny Storm e Ben Grimm são os protetores de serviço.
No início do filme, há um piscar de olho delicioso ao espírito pulp sci-fi que sempre regeu as aventuras da primeira família da Marvel, com referências a vários vilões de pacotilha saídos dos seus primeiros comics. O Homem-Toupeira. O Fantasma Vermelho. O Pensador Louco. Vilões kitsch e absurdos, que mostram como o Quarteto, apesar de poderoso, poucas ou nenhumas vezes enfrenta ameaças do calibre que aí vem.
A rotina dos vilões foleiros acaba de repente quando a Terra recebe a visita de Silver Surfer. Julia Garner veste-lhe uma nova pele: feminina, elegante, melancólica. É o arauto de Galactus, o devorador de mundos.
Sem rodeios, anuncia que Galactus pretende consumir o planeta em breve. Não é por mal. É só o que Galactus faz. Um ser cósmico, tão antigo quanto as estrelas, condenado a uma fome eterna que só sacia devorando mundos. Chegou a nossa vez. Tempo de nos abraçarmos uns aos outros e aproveitarmos os nossos últimos dias. Mas isso não é fácil de aceitar, claro. A humanidade deposita todas as esperanças nos quatro heróis. Numa missão desesperada, eles viajam pelo espaço ao encontro da entidade ancestral para tentar negociar uma solução que salve o mundo desta ameaça.
A primeira vez que Galactus surge no ecrã é pura satisfação geek, sobretudo depois de termos sido asquerosamente enganados em 2007 (Fantastic Four: Rise of the Silver Surfer, Tim Story) com um Galactus low cost que não passava de uma farripa de condensação. Desta vez, impõe-se o colosso kirbyesco, um corpo monumental recortado contra o vazio e o negrume do espaço. Shakman realiza a cena com a gravitas necessária: silêncio quase total, um plano lento que revela a imensidão da figura e depois a voz retumbante de Ralph Ineson a rasgar o espaço. Este é um inimigo que existe fora da escala humana. Um deus faminto, um cataclismo consciente.
Veem-se aqui os maiores ecos de Jack Kirby. Mais que um ilustrador, Jack Kirby foi o arquiteto visual de todo um universo, sempre com um vendaval de energia cósmica, proporções a rebentar com as páginas e cores que pareciam banhadas a LSD. Kirby concebeu não só Reed, Sue, Johnny e Ben, mas também a grandiosidade de Galactus, a elegância do Surfista Prateado e uma vastidão de mundos que desafiam a lógica. Fantastic Four: First Steps não faz inteira justiça a esta herança, mas pega nos elementos certos e traduz para o cinema aquela sensação de abrir uma página e sentir que o próximo painel vai ser maior e mais ousado.
É nesta odisseia especial que o dilema central acaba por se instalar. Galactus até aceita negociar, mas o preço que pede para poupar a Terra é impensável. Os heróis regressam sem solução e o planeta mergulha no desalento. Nesse momento, a questão impõe-se: será legítimo oferecer uma vida para salvar todas as outras? Quando o preço é um filho, ainda é possível pensar no bem maior?
Temos assim uma espécie de Dilema do Eléctrico à escala cósmica. A narrativa constrói-se sobre essa tensão, explorando-a ética e emocionalmente, sem nunca tirar os olhos da importância da dinâmica familiar. O que distingue o Quarteto, é que, antes de serem super-heróis, são uma família. Discutem, picam-se, enervam-se, mas fecham fileiras quando importa. Nos comics, entre invasões alienígenas e viagens interdimensionais, cabem também os jantares interrompidos, Johnny a atazanar Ben, Reed a perder-se no trabalho, e Sue a ser a cola da família. Esta adaptação não só entende a importância dessa dinâmica como pendura todos os outros pontos da história em torno dela.
Ao contrário do que aconteceu nos filmes francamente tontos de 2005 e 2007, aqui o Quarteto parece saltar intacto das páginas para o ecrã. Pedro Pascal dá-nos um Reed brilhante mas vulnerável, assombrado pela própria inteligência. Vanessa Kirby transforma Sue no núcleo moral da história e mostra de forma inequívoca porque é que a Mulher Invisível é uma das figuras mais poderosas da Marvel. Joseph Quinn encontra equilíbrio entre o charme fanfarrão e a astúcia de Johnny. Ebon Moss-Bachrach constrói um Ben com fragilidade e pathos, longe das “horas de porrada” e do comic relief.
E, já que se fala nos atores que dão vida aos quatro fantásticos, Shakman não esqueceu o filme de Corman. Num easter egg fofo, First Steps tem cameos dos quatro atores desse filme: Alex Hyde-White, Rebecca Staab, Jay Underwood e Michael Bailey Smith, surgindo agora como cidadãos comuns que agradecem à equipa superpoderosa. É uma referência que só os fãs mais acérrimos vão apanhar e que sabe a homenagem sincera a um capítulo bizarro da história da Marvel.
Os visuais de First Steps também acertam em cheio. A decisão de ancorar o filme numa versão alternativa dos anos 60 abre a porta a uma estética retrofuturista de sonho. É uma Terra-828 vista pelo prisma das antigas revistas Popular Mechanics e cartazes de feiras mundiais. Tecnologia de ponta a coexistir com giz e quadros de lousa. Arranha-céus com linhas curvas, gadgets com botões grandes, indicadores analógicos, cozinhas que parecem saídas de uma publicidade da General Electric, figurinos dignos de Mad Men. É um mundo em que ninguém fuma, mas em que parece que alguém devia estar a fumar.
O design de produção simboliza o equilíbrio que define o Quarteto: um pé no passado, na simplicidade das dinâmicas familiares, e outro no futuro, nas aventuras cósmicas mais trippy sonhadas por Kirby. É tudo tão vivo que custa saber que, no futuro, este quarteto vai ser arrastado da Terra-828 para a insípida Terra-616.
Ainda assim, mesmo com tudo o que faz bem, Fantastic Four: First Steps não é perfeito. Apesar de um padrão de qualidade alto, há um ou outro efeito visual menos inspirado (Galactus, não obstante todo o seu esplendor, podia facilmente ter as cores mais vivas em vez de ser abafado por um CGI meio cinzentão) e o ritmo abranda um pouco a meio, com alguns conceitos e ideias a serem bastante repetidos. Mas o saldo é muitíssimo positivo. É um filme que, como o recente Superman de James Gunn, prova que estas histórias não precisam de ser cínicas, sombrias ou atulhadas de lore para funcionar. Podem ser luminosas, coloridas, estranhas e com um sentido de maravilha, sem sentir embaraço por isso.
E talvez o melhor de tudo seja isto: não é preciso “fazer os trabalhos de casa”. Não há que ver 37 filmes e 7 ou 8 séries para perceber o que se passa. É um capítulo auto-contido, que se basta a si próprio. É de aproveitar, porque a próxima vez que virmos esta equipa, já insinuada nas cenas pós-créditos de Thunderbolts e encaminhada para Avengers: Doomsday, a coisa vai inevitavelmente ficar mais enredada na engrenagem industrial do MCU.
![]()










