Especial Porto/Post/Doc 2025: Parte II

EquipaDezembro 3, 2025

Sete longas e onze curtas depois, fechámos o nosso ciclo no Porto/Post/Doc, em 2025. Entre olhares políticos, por vezes nostálgicos, mas sempre atentos, fez-se mais um excelente programa, este ano em torno do tema O Tempo de Uma Viagem. As propostas variadas, provenientes dos quatro cantos do mundo, manifestam a justificada inquietação dos nossos dias para com um mundo em convulsão, num estertor típico de finalidade – se de tempo, se de modo ainda está por revelar -, mas todas tiveram em comum a vontade de continuar, de perscrutar, compreender e atuar. Não foram raras as vezes que saímos das salas de cinema deste festival de alma dolorida, mas também com uma réstia de confiança renovada: há sempre quem não baixe os braços, e aqui podemos dizê-lo tanto de realizadores e suas equipas, de programadores e organizadores, como do público. Saudamos este lugar de resistência da cidade do Porto e reforçamos o desejo de regressar. Daqui saímos sempre um pouco mais livres.

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Pociagi (Comboios), de Maciej Drygas – Secção O Tempo de Uma Viagem / Human Rights in Motion

Há algo de inerentemente cinematográfico no comboio: o movimento contínuo de um objeto razoavelmente estável (não é por acaso que o travelling é feito sobre carris), a paisagem enquadrada por janelas, também em movimento, como os fotogramas em sucessão da película, e a linearidade de uma viagem com princípio e fim. O comboio esteve presente nos primórdios da sétima arte (L’Arrivée d’un train en gare de La Ciotat, 1896) e continua a ser um veículo privilegiado em sequências de ação até hoje. A proposta de Trains parte de um lugar de fascínio e reverência para com este colosso do engenho humano, mas aqui, ao invés de explorar as suas potencialidades cinematográficas para narrar, escolhe narrá-lo. Isto é, torná-lo protagonista da história europeia na primeira metade do século XX: lugar vivo e de vida durante a Belle Époque, portador de morte na Primeira Guerra Mundial e de mortos na Segunda, antes de se tornar o veículo do alívio e do reencontro, depois de 1945. O recurso ao arquivo tem o condão direto de condensar a cronologia mostrando-nos a passagem do tempo através de indumentárias, evolução tecnológica e figuras marcantes de cada época. E sendo certo que não existe grande surpresa na escolha do que será relevado (a Segunda Guerra e o transporte de judeus para os campos de concentração será o expectável clímax), a montagem começa a delinear a tese binária do filme muito antes: à chegada triunfal de Chaplin, levado em ombros de uma estação, por uma multidão em delírio, corta-se para um evento análogo da outra grande rockstar da primeira metade do século, Adolf Hitler. O entusiasmo é semelhante, os sorrisos e os (inaudíveis) gritos da turba, indistinguíveis. O que estes dois homens trazem é sobejamente conhecido e não poderia ser mais distinto… Será neste jogo dialético que as imagens se vão sucedendo e desmontando a noção de um progresso classificável; desmontando, aliás, a própria noção de progresso. O que o comboio dá (conforto, comunhão, encontro), o comboio tira (guerra e destruição). Cá fora, os operários dos primeiros veículos serão os soldados de amanhã, antes de darem lugar aos reconstrutores vindouros. Os sorrisos das primeiras viagens, serão a desolação dos mortos e estropiados, antes de se converterem nos abraços e nos beijos de uma nova paz anunciada. Tudo segue sobre carris sem fim à vista. Entre a esperança e o desespero, seguimos.

Gil Gonçalves

 

Autobiografia lui Nicolae Ceaușescu, de Andrei Ujică – Secção Foco Andrei Ujică

A Autobiografia de Nicolae Ceaușescu constrói-se como a história de um espetáculo — o espetáculo permanente que foi a vida política do líder romeno desde o momento em que ascendeu ao poder. Após um início no “presente ano de 1989”, o filme arranca em analepse, com um grande número público: o funeral de Estado do antecessor de Ceaușescu, Gheorghe Gheorghiu-Dej, em 1965. Um momento entre a celebração pagã e a distopia sci-fi em que Bucareste para e virtualmente toda a população marca presença no velório em procissão. Dado o mote, assistimos a uma encenação laboriosamente orquestrada que para nós dura três horas, mas que na vida real se estendeu por vinte e cinco anos: paradas militares, celebrações populares, viagens oficiais onde o povo surge sempre alinhado, coreografado, luminoso — tudo filmado em milhares de horas de cobertura televisiva destinada a construir um país paralelo, em torno de uma identidade fabricada.

A longa duração do filme coloca-nos dentro dessa realidade cuidadosamente moldada. Quanto mais tempo permanecemos nas imagens oficiais, mais sentimos estalar o verniz que as cobre. Ujică confia na montagem para ir rompendo o feitiço: quer pela condensação dos anos, quer pelo acentuar do ridículo de certas situações — como no momento em que, perto do final, um envelhecido Ceaușescu visita um supermercado com pompas de cerimónia e comenta a dureza da crosta do pão, desencadeando aplausos meticulosamente ensaiados dos funcionários. Nunca é pelas palavras (há, aliás, muitos momentos de silêncio absoluto), mas pelo simples efeito de acumulação que as imagens encomendadas pelo ditador começam a contradizer-se.

No início, a narrativa mostra um líder que parece genuinamente comprometido com o seu povo: Ceaușescu está em toda a parte, rodeado de multidões, sempre a inaugurar, visitar, discursar. A imagem internacional que constrói é igualmente consensual: simultaneamente agrada ao Ocidente (a Roménia foi o primeiro país do bloco de Leste a receber um presidente americano) e ao mundo socialista, projetando-se como uma figura mediática de pacifismo e entendimento. À medida que avançamos, porém, o esplendor do seu aparato vai-se esvaziando. As multidões rareiam, as comitivas afastam-se fisicamente dele, e os seus discursos reduzem-se a chavões repetidos em salas cada vez menos povoadas. As imagens de cerimónias e visitas oficiais alternam-se progressivamente mais com a vida privada — sempre exposta — de caráter sumptuoso. O rosto de Ceaușescu torna-se cada vez mais preponderante nos congressos e desfiles, em proporção inversa ao seu distanciamento das massas.

A montagem confere ao filme a estrutura de uma trajetória de ascensão e queda — menos explícita do que o habitual, mas continuamente sugerida pelo ambiente em torno do protagonista. Vemo-lo imerso em projetos megalómanos, férias luxuosas, cercado por uma realidade que já não corresponde ao país real. O aparato coreografado mantém-se, mas o público vai desaparecendo, e o que resta não tem outro entusiasmo que não o decretado.

A moldura que abre e encerra o filme — o julgamento de fachada, conduzido pelos partidários da nova ordem, que culminaria na execução de Ceaușescu — evoca o tropo cinematográfico da vida que passa diante dos olhos do moribundo. Entre o levantar e baixar de olhos de um homem cabem três horas de imagens originalmente concebidas para glorificar, agora reorganizadas para revelar. Há ironia no título: Ceaușescu não realizou esta autobiografia, mas foi ele quem, indiretamente, a encomendou ao concretizar, durante anos, para as câmaras, performances que o próprio idealizou, resultando em milhares de horas de propaganda. É, portanto, o coautor involuntário de um filme que, sem jamais penetrar a sua intimidade, expõe alguém que viveu essencialmente numa câmara de espelhos. A figura central permanece opaca. Nunca o compreendemos plenamente; apenas intuimos fragmentos — a ausência quase total de emoção (inclusivamente no funeral — televisionado, claro — da mãe), a recusa sistemática a responder a perguntas diretas, e a crescente prisão na ficção que criou. No fim, a encenação ritualizada ainda persiste, mas já não convence ninguém. A autobiografia imaginada torna-se, pela força silenciosa da montagem, o retrato de uma ilusão a desmoronar-se.

Gil Gonçalves

 

Nova 78, de Rodrigo Areias e Aaron Brookner – Secção Sessões Especiais

To the wonder…

A expressão “cápsula do tempo” foi usada pelo realizador e pelo programador na sessão do Porto/Post/Doc para classificar Nova 78. Concebido por Rodrigo Areias e Aaron Brookner, a partir de imagens inéditas de Howard Brookner — até 2021 julgadas perdidas, agora restauradas, digitalizadas e recuperadas —, este dispositivo não se limita, contudo, a recuperar um momento histórico, mas um sentimento: o maravilhamento; a capacidade de admiração intensa, genuína e construtiva que parecia natural nas últimas décadas do século XX e que hoje se tornou uma miragem.

O material original, filmado em 16 mm por Brookner e uma equipa que incluía Tom DiCillo, Jim Lebovitz e Jim Jarmusch, documenta a Nova Convention de 1978, um encontro de três dias em Nova Iorque sob o signo da obra de William S. Burroughs e da sua influência. Foi este o eixo estruturante de todas as leituras de manifestos, performances, música experimental, dança contemporânea e debates filosóficos que compuseram o certame. Burroughs não era apenas convidado de honra: era o polo de onde emanava a energia criativa da convenção, e a sua presença, seguida com devoção pela câmara de Brookner, atravessa o filme como um cometa de fascínio.

Esse entusiasmo transparece também no coletivo de artistas e pensadores que interagem num espaço de partilha plena, onde o erro é aceite e integrado na experiência criativa. A admiração revelada nos testemunhos dos participantes, tanto pela figura de Burroughs como pelas criações dos pares, é profunda e reflexiva: manifesta-se em análises cuidadosas, na busca de sentido para os sentimentos despertados pelas obras e na vontade comum de explorar novas fronteiras em diferentes disciplinas. A presença conjunta de figuras hoje incontornáveis — Patti Smith, Frank Zappa, Laurie Anderson, Allen Ginsberg — tanto confere ao filme a densidade simbólica de um encontro histórico da contracultura, como enfatiza o contraste com a cultura de idolatria simplificada e mercantilizável da mediosfera contemporânea.

A montagem de Areias reforça esta experiência. Cada plano de Burroughs ou de uma performance, cada gesto da equipa de filmagem e cada detalhe dos bastidores é tratado com cuidado e prazer. As arestas do arquivo — os momentos em que a equipa de som ou a câmara aparecem — são preservadas, reforçando a sensação de proximidade e autenticidade. A ausência de voz-off ou de qualquer interferência explicativa coloca o espectador dentro da convenção, dando-lhe acesso privilegiado a todas as latitudes: do palco à plateia, dos ensaios às performances, dos debates aos intervalos silenciosos entre atos. A experiência que o filme nos oferece não é uma idealização; há consciência (dos organizadores, da equipa de filmagem e da equipa que fez este filme) do caos, do improviso, da vontade que se sobrepunha ao engenho e da incerteza que permeava cada decisão. É uma nostalgia crítica a três vozes que deixa no ar a dúvida sobre que parte desta liberdade pode persistir nos dias de hoje.

Nova 78 mostra-nos um tempo e um grupo de pessoas que não precisaram de ser visionários, ou de modo algum superiores, para criar algo fascinante. Que se distinguiram, sim, pelo que procuravam em conjunto, pelo desejo de experimentação e descoberta partilhadas. No fundo, pela sua disponibilidade para o maravilhamento. Numa era saturada de informação e estímulos constantes, em que a potência do novo se perde entre sobrecarga e antecipação, é verdadeiramente bem-vindo um documentário que nos recorda que também nós retemos a capacidade de nos maravilharmos.

Gil Gonçalves

 

I Was There, de Kamila Kuc – Competição Internacional de Médias e Curtas-Metragens

Uma homenagem à resistência feminina, tornada íntima e sensível pelas mãos de um exercício exploratório do laço familiar. Expandindo o entendimento de tempo através da concatenação entre memória no presente e testemunho do passado, é na experimentação no seio do espaço e corpo que este filme surge como pura comunicação sangrante: os objetos, a casa e os lugares antes ocupados pelo corpo e alma evocados são as paisagens onde urgem movimentos e expressões da figura feminina, quase espectral. Oscilando entre o luto, o respeito e a necessidade de preservar – trabalhando sobre ela – a história pessoal, bem como a linhagem que nos habita irrevogavelmente, consegue, de forma inventiva, criar um trabalho de ambiência intensa, sincero e rico em sentimento.

Laura Mendes

 

I´m Glad You´re Dead Now, de Tawfeek Barhom – Competição Internacional de Médias e Curtas-Metragens

O caráter intrigante deste conto é colocado como elemento central, concentrando-se, sobretudo, nas tensões da forma ao invés da profundidade dos acontecimentos. Tanto o caixão que carrega o patriarca como o limão há muito tornado símbolo constituem imagens que remetem para a liminaridade da família, a passagem do tempo e o confronto com o passado – ainda assim, surgem forçadamente encaminhadas, revestidas de uma teatralidade mal posicionada, abordando o espectador de forma leviana e incompleta. Revela-se impactante, apesar de tudo, a oposição entre os dois irmãos, Abu Rushd e Reda: enquanto o primeiro sofre de demência, dispersando-se em ausência, o segundo carrega o fardo do real, física e emocionalmente, estando marcada a diferença entre memórias débeis e ásperas de uma mesma vida, repercutindo-se numa exploração e potencial redefinição da dinâmica familiar.

Laura Mendes

 

A Very Straight Neck, de Neo Sora – Competição Internacional de Médias e Curtas-metragens

Interessante na proposta do sonho como despoletador de receios quotidianos e memórias (tidas como) esquecidas, é, no entanto, na fragilidade da construção do caminho entre essas temáticas que este filme tende a falhar. A relação entre a ânsia psicológica e a azáfama urbana faz-se, inicialmente, através da lembrança de uma amiga de infância que se suicidou, seguindo-se o despertar da protagonista para as tarefas e necessidades do dia-a-dia – um início turbulento e inconstante, onde nos sentimos deslocalizados. Todo o quadro começa a compor-se mais tarde, aquando da fusão (agora mais evidente) entre o íntimo e o coletivo: numa rua de transeuntes impassíveis vendo um corpo no chão, a crítica recai sobre frieza e o ritmo incontrolável da cidade, a dissolução da compaixão perante a imensidão e a crescente brutalidade do humano. E é indo ao encontro desta abordagem que surge a dor de pescoço, somatização de uma angústia perpétua, feita matéria sensível. A mescla da visão surreal com o realismo contemporâneo é, em última instância, tentadora, mesmo que pontualmente incoerente.

Laura Mendes

 

A Prelude, de Wendelien van Oldenborgh – Competição Internacional de Médias e Curtas-Metragens / Human Rights in Motion

Um singular retrato de espaços de resistência no Japão – e dos seus habitantes de diferentes proveniências –, repleto de testemunhos atuais e importantes. Essencialmente constituído por momentos de diálogo, de devaneio e de afeto, é um filme ao qual falta, por vezes, uma posição cinematográfica reivindicadora. As reivindicações de todas as pessoas que vamos conhecendo, porém, são bem marcadas: procuram a liberdade de ser e questionam as estruturas sociais, culturais e políticas que sustentam o desrespeito e o preconceito, nomeadamente aquelas que atentam contra as comunidades queer e feminista, a favor da perpetuidade de um sistema discriminatório. As referências a Kinuyo Tanaka e Fumiko Hayashi são os momentos em que esta se torna uma obra mais densa e convidativa – seja nas viagens literárias ou nas recriações de cenas do filme Onna Bakari no Yoru (Mulheres da Noite) –, frisando a importância da arte na luta pública e coletiva.

Laura Mendes

 

2 Pasolini, de Andrei Andrei Ujică – Secção Foco Andrei Ujică

2 Pasolini é uma manta de retalhos que, confusamente, coloca lado a lado filmagens de dois filmes de Pier Paolo Pasolini: Sopralluoghi in Palestina per il vangelo secondo Matteo e Il vangelo secondo Matteo. Tal como nos contou o próprio Andrei Ujică, esta é a segunda versão da curta – já que a primeira não lhe agradou – pensada para a exposição Desert, na Fondation Cartier pour l’art contemporain, ocorrida no ano 2000. Talvez pela sua simultânea velocidade e brevidade, esta homenagem a um dos grandes autores do cinema passa despercebida como tal, carecendo de um terceiro elemento que, característico, extravase o mero exercício de montagem e justaposição. Ainda que a ideia perpasse o caráter divino ou profético de Pasolini – explorado através da sua filmografia explicitamente transcendental –, a sua exposição não surge como proposta ousada ou transformadora, à exceção da música dos créditos, Hit ´em Up, do músico 2Pac, uma finalização surpreendente e provocadora.

Laura Mendes

 

Unknown Quantity, de Andrei Ujică – Secção Foco Andrei Ujică

Parafraseando Andrei Ujică na conversa com o público aquando da exibição destes seus dois filmes, na presente edição do Porto/Post/Doc, o declarado minimalismo de Unknown Quantity foi pensado para nos concentrarmos – se nessa tarefa houvesse dificuldade – nas palavras trocadas entre Svetlana Alexievich e Paul Virilio. Se estas palavras nos chegam como a essência da obra – que foi inicialmente construída para uma instalação e posteriormente adaptada ao formato cinematográfico –, não será pela redução da matéria do cinema. Aliás, encontra todo o seu vigor na sala escura onde coloca, quase flutuando, os dois interlocutores; também o faz na criação de um espaço onírico (porventura distópico?) a partir de uma biblioteca vazia, por nós observada através das várias câmaras de vigilância. Somos introduzidos a um universo de dissecação do consciente ao qual estamos impedidos de escapar, a ele presos pela envolvência da fluidez e visceralidade do discurso – mesmo que tentados para o deslumbramento desconcentrante da estética computacional. Porque o que está aqui em causa é a humanidade, ou antes, o questionamento da humanidade pós-Chernobyl – e é em seu torno que giram todas as catábases do pensamento que acompanhamos pela mão da filosofia em conversa. Inusitadamente, disse-nos o realizador que a voz robótica que se sobrepõe ao francês de base ao longo de todo o filme, traduzindo para inglês, não passou de um erro de exibição. Esta seria uma versão de 2005, quando a tradução, por necessidade, foi realizada num momento em que se davam os primeiros passos nas tecnologias de geração e tradução artificial de linguagem – um elemento tão profícuo de significado é, na verdade, mera coincidência, adensando indubitavelmente toda a carga simbólica da sessão, dada a centralidade do conceito de acidente no seio da reflexão. Provando a atualidade do inimaginável, prova, acima de tudo, a atualidade e a necessidade do questionamento da nossa condição em constante metamorfose.

Laura Mendes