É já de 3 a 13 de Setembro 2026 que vai decorrer a tão aguardada 20ª Edição do MOTELX – Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Continuando a antevisão da Tribuna do Cinema, David Bernardino reuniu-se com um dos directores do festival, João Monteiro, para, como já é hábito, uma conversa sobre os dias de terror que estão para vir. Começando pela sensação de fazer 20 anos, passando por Roger Corman e pelo cinema de terror europeu que está por descobrir, a conversa terminou com o orgulho de constatar que o MOTELX tem vindo a criar uma forte comunidade cinéfila no nosso país. Segue a entrevista completa:
Olá João Monteiro! Finalmente chegou o tal ano que todos têm vindo a antecipar, o ano dos 20 anos de MOTELX. Quão orgulhoso é que isso te deixa?
Olá! Não sei se orgulho é algo que exprima bem aquilo que se sente ao fim de 20 anos… Sinto mais uma espécie de realização no sentido em que o festival foi sempre aquilo que nós quisemos. Foi evoluindo naturalmente e de certa forma muita da sorte que nós tivemos ao longo destes anos foi de certa maneira merecida porque sempre fizemos isto por amor à camisola, sempre com a convicção que acreditamos nisto e acreditamos no que estamos a fazer, não só no cinema de terror mas no cinema em geral, num país que infelizmente não trata muito bem as suas artes. Já nem digo a cultura, mas as suas artes principalmente, e fazer 20 anos com um festival que toda a gente considera de nicho é um feito e ficamos muito felizes.
Quão diferente foi preparar esta 20ª edição? Sentiram uma pressão diferente devido à antecipação?
Não… Nós trabalhamos sempre com um orçamento reduzido que é sempre reduzido, portanto a pressão dos 20 anos… Nós resolvemos isso cedo quando decidimos que iam ser mais dias e logo isso aí já marcava uma diferença, continuamos a trabalhar para ter os melhores filmes, para ter convidados, e assim evitamos essa pressão de cair naquela ânsia de querer celebrar desesperadamente por ser a vigésima edição. A verdade é que é apenas mais uma edição, que queremos obviamente marcar, mas não é necessariamente mais importante do que foi a 19ª ou do que vai ser a 21ª, é simplesmente um aniversário.

O Prémio MOTELX – Melhor Curta de Terror Portuguesa está também de regresso, com o prémio de 5000€ para o vencedor. Sentem que este prémio tem tido um papel importante no desenvolvimento do cinema de género do país? Como têm visto a evolução dos candidatos?
Sim, este nosso prémio sempre existiu. É um prémio que tem tido alguma importância no sentido em que as pessoas que o têm vencido e se têm destacado nesta competição estão a fazer longas metragens de género como é o caso do Gonçalo Almeida, do Fernando Alle, do Guilherme Daniel, do Francisco Lacerda, e portanto daqui a uns anos julgo e espero que estes autores, e autoras também, consigam por de pé os seus filmes de terror e que possamos falar também do movimento ou momento que tenha marcado definitivamente a cinematografia fantástica portuguesa.

Existe uma nova secção: Lost in Europe: O Terror por Detrás da Cortina de Ferro, onde serão exibidos, em parceria com a Cinemateca Portuguesa, 6 filmes antigos de países que estavam sob influência soviética. Como surgiu esta ideia? Terá seguimento nos anos seguintes?
Surgiu um bocado como seguimento da secção Quarto Perdido do MOTELX em que andamos a procura de filmes portugueses que tivessem exactamente esse mistério de poder olhar para filmes do ponto de vista do terror e sempre tivemos a ideia de puxar isto um bocado para a Europa. Não para a Europa toda, porque obviamente não podemos competir com países como Inglaterra ou França ou Itália ou Espanha, mas queríamos ir procurar nos países cuja produção de filmes de terror é muito semelhante à nossa como é que eles fazem, ou como é que se safaram. A nossa ideia é sempre criar contextos, pequenos programas que façam sentido e liguem os filmes e assim chegamos a todos estes países que estiveram sob o controlo da União Soviética e reparamos que todos eles de facto fizeram um filme que era de terror e que de certa forma reflectia um bocado daquilo que estava a acontecer naquele momento na história de cada país. A ideia da Cortina de Ferro… Acho que esta seleção de países partiu do Possession, não me lembro exactamente, porque o Possession tem o muro de Berlim a atravessar, que é talvez o maior símbolo da Cortina de Ferro. Acho que partiu um bocadinho daí e deu para descobrir filmes de que não fazíamos ideia, como por exemplo o Libahunt (Werewolf) da Estónia, o único filme [desta seleção] realizado por uma mulher, que é um filme belíssimo; o The Strangler vs. The Strangler e o Rat Savior da ex-Jugoslávia, um da Croácia outro da Sérvia, que são absolutamente incríveis. Portanto, sim, vamos continuar a programar o Lost in Europe e procurar outros países, outras alturas, outros momentos que queremos partilhar, e poder, de certa maneira, convidar o público a fazer uma espécie de comparação. O público e, obviamente, dentro desse público, os criadores de terror em Portugal.

Este ano o MOTELX vai também destacar Roger Corman, por via do seu centenário. Qual a vossa relação e do festival com este realizador de horror de culto?
Roger Corman veio ao MOTELX há uns anos e foi incrível porque é alguém de quem nós gostamos muito. Crescemos a ver os filmes dele, principalmente os do Vincent Price. A verdade é que nos custa um bocado a ideia de que este realizador esteja esquecido, porque ele não foi simplesmente um realizador ou um produtor; ele é uma figura tão importante que faz com que o MOTELX exista, basicamente por causa do trabalho dele, assim como todos os outros festivais. Resolvemos unir-nos um bocadinho aqui à Federação Méliès, da qual fazemos parte, e fazemos todos os festivais uma pequena homenagem a este centenário da obra de um tão importante produtor. E vamos receber a visita da companheira, que nos vai fazer uma masterclass muito interessante acerca da visão dela enquanto companheira e colega de trabalho, dos métodos incríveis do Roger Corman. É alguém que obviamente queremos que a memória nunca se apague, porque o Tubarão (Jaws, 1975), que transformou completamente Hollywood, era um filme à Roger Corman. E todos os realizadores a quem ele deu a primeira oportunidade foram aqueles que transformaram de facto a maneira de fazer filmes e de ver filmes na América e no mundo.

O Prémio Noémia Delgado para Mulheres Notáveis no Terror este ano homenageará Solveig Nordlund, icónico nome do cinema de género em Portugal. Penso não ser a primeira vez que o MOTELX exibe filmes da realizadora. Têm uma especial relação com a sua obra e acham que está na hora de ser realmente conhecida pelo grande público?
Não é a primeira vez, o Quarto Perdido já foi dedicado à Solveig. A Solveig é provavelmente a única autora portuguesa que tem uma obra que nos permite atribuir-lhe um prémio deste género, porque ela sempre fez trabalho dentro do cinema de género, e por vezes mesmo explicitamente no cinema de género de terror. E isso tem um bocado a ver também com o facto de ela não ser portuguesa, não ter nascido cá, e trazer com ela um certo número de autores não muito populares em Portugal, nomeadamente de terror, como Lovecraft, e obviamente o Ballard, que é a grande referência da Solveig, e traduzi-los para a realidade portuguesa. A primeira curta-metragem, Nem Pássaro Nem Peixe, é incrível porque é Lovecraft no pós-25 de Abril, e portanto temos o Ballard em Troia… E ela tem uma maneira muito simples e descomplexada, digamos assim, de lidar com o cinema em todos os seus géneros. É alguém de facto que nós adoramos e achamos que o Aparelho Voador a Baixa Altitude é uma obra-prima do cinema fantástico português. Gostávamos de poder passar muitos mais filmes, mas deixamos aqui o desafio para que o público possa também ir descobrindo um bocadinho o trabalho desta realizadora absolutamente ímpar, e que existe um bocadinho à parte, assim como o Sá Caetano, do cinema português.
Como tem sido ano após ano o processo de selecionar obras esquecidas do cinema português para a secção Quarto Perdido? Como chegaram a Sá Caetano? Sentem que ainda existe muito por descobrir para os próximos 20 anos?
Como estávamos a falar há bocado, o Sá Caetano surgiu-nos porque esta secção partiu de uma lista que nos foi facultada há 18 anos pelo António de Macedo e pelo José de Matos-Cruz. Era uma lista de cinema fantástico português e nós temos vindo, fomos ver os filmes todos dessa lista juntamente, obviamente, com a parceria da Cinemateca. Havíamos todos e fomos acrescentando, fomos descobrindo outros. Nesse sentido, o Sá Caetano apareceu aí. Apesar de ser alguém difícil de programar, porque não há nada parecido com ele no cinema português, e mesmo no cinema mundial é difícil arranjar assim uma espécie de parentesco. Reparamos agora, obviamente que os filmes na altura não estavam… demoraram muito tempo até serem recuperados, mas agora que estão recuperados e digitalizados, reparamos que estes três filmes que mostravam um lado meio misterioso, quase espectral, no fundo relacionavam-se de uma maneira em que não tínhamos reparado antes. Ou seja, os filmes entram uns nos outros, as personagens entram e saem dos mesmos filmes, os filmes comunicam entre eles. Parece uma espécie de quase multiverso, que é aquela expressão que agora se usa para os filmes da Marvel. E, portanto, acho que talvez seja uma das últimas obras desconhecidas do cinema português. Se existe muito para descobrir nos próximos 20 anos? Eu acho que os próximos 20 anos é que nos vão mostrar isso. Acho que já não há muita coisa. Obviamente que ainda há a esperança de um dia encontrar uma cópia do Três Dias Sem Deus da Bárbara Virgínia e que isso possa um dia ser exibido no MOTELX. Creio que provavelmente iremos começar a exibir obras mais recentes e a tentar emparelhá-las de forma temática, que é a nossa obsessão, digamos assim.

Este ano o MOTELX, como sempre, exibirá em primeira mão filmes muito esperados como “Hope” (Coreia do Sul), de Na Hong-jin (realizador de The Wailing), “Drag” (EUA), de Raviv Ullman e Greg Yagolnitzer, ou “Colony” (Coreia do Sul), de Yeon Sang-ho (“Train to Busan“). Pessoalmente quais são os vossos filmes mais esperados?
Os filmes mais esperados? Pessoalmente, os filmes que me interessa destacar, e que é o que gostei mais, para além dos que já foram referidos nesta pergunta, é um filme britânico chamado Game. É um survival thriller sobre a cultura rave dos anos 90, uma espécie de filme geracional. Tem ligado a ele músicos, uns importantes, como o Geoff Barrow, fundador dos Portishead (que já não gravam há algum tempo), e como protagonista o Jason Williamson, dos Sleaford Mods. Vão estar os dois no MOTELX e é a primeira vez que vamos ter uma representação musical assim tão forte para apresentar um filme de terror. E vai ser muito interessante.
Fora isso, eu também destaco o filme de encerramento, o Fall 2, porque é um filme que é brutalmente eficaz. Ou seja, não é uma obra-prima, mas é um filme que entrega aquilo que promete. E, portanto, a mim pessoalmente fez-me sofrer imenso ao ponto de querer desistir de ver o filme e eu já não aguentava mais. Para quem passa grande parte do ano a ver filmes de terror em catadupa, já é difícil encontrar um que me provoque isto. Portanto, pela sua simplicidade, eu também gostava de destacar o Fall 2, que é a sessão de encerramento.

De que forma têm visto a evolução do cinema de terror, e de género, nos últimos anos? Sentem alguma alteração na qualidade dos filmes? Talvez nos temas que abordam?
Em termos gerais, não consigo olhar para ele e dizer que houve uma evolução deste género porque ele sempre se manteve e vai-se sempre manter. O terror vende, o terror atrai, o terror corresponde a uma necessidade inconsciente do público o ver. Portanto, acho que a evolução que eu posso ter presenciado, de certa maneira, tem a ver com o cinema português, nomeadamente no Prémio das Curtas: a qualidade aumentou substancialmente. Cada vez se torna mais difícil escolher estes filmes. Obviamente que as temáticas mudam e, de repente, já temos filmes que não são simplesmente genéricos ou exercícios genéricos a tentar copiar o que se faz lá fora, mas que começam a ter algumas situações próprias da nossa sociedade, da nossa política, da nossa vida quotidiana que começam a transparecer nestes filmes, nomeadamente a questão da habitação, a questão da gentrificação, a questão do turismo, aparece, sente-se. Ou seja, estes filmes já começam a ir à realidade para se inspirarem e depois traduzir isto através de uma estética de terror. E portanto sim, aí sim, sinto uma grande evolução, sem dúvida.

O MOTELX já é há muitos anos um marco no calendário anual de muita gente, onde amigos se reencontram e cinéfilos trocam ideias e paixões. Como é saberem que alcançaram esse tipo de pegada na cultura portuguesa? Motivados para mais 20 anos?
Sim, é muito bom saber isto, porque é um bocado o espírito do início. O MOTELX começou como um cineclube dedicado a filmes de terror que só exibiam à meia-noite. E portanto, logo aí começou a juntar-se uma comunidade. Se, de facto, como dizes, isso aumentou e exponenciou durante o festival, então eu diria que o objetivo é exatamente esse: é dar espaço, é permitir o intercâmbio, é permitir um bocado aquela lógica comunitária. E principalmente, nos tempos que correm, em que as pessoas estão cada vez mais isoladas e a comunicar por meio de instrumentos eletrónicos, é muito interessante que ainda haja um sítio para que a troca possa ser presencial. E acho que de certa forma estes festivais de cinema ou música, servem um bocado para esse grande problema que é a solidão, que vai aumentando e hoje em dia é difícil fazer amigos, é difícil encontrar grupos e comunidades. E, portanto, se o MOTELX consegue fazer isso, então é mais um motivo de orgulho, sem dúvida. Obrigado.



