Encontros de Cinema do Fundão 2026 – Festivais há muitos

Bruno VictorinoMaio 29, 2026

Aproxima-se mais uma edição dos Encontros de Cinema do Fundão, que decorrerá na Moagem, entre os dias 3 e 7 de junho. Promovido pelo Cineclube Gardunha e pelo Município do Fundão, o evento é um exemplo daquilo que os festivais de cinema poderiam ser, funcionando quase por oposição e resistência contra tais certames. Longe dos grandes centros urbanos, a celebração da sétima arte faz-se, aqui, sem competições, sem compromissos com o mercado e sem os filmes contemporâneos da moda que passam nos festivais internacionais. Não existem partys, happy hours ou Q&A’s. No seu lugar, é possível encontrar um dos últimos redutos sérios de projeção, reflexão e crítica cinematográfica nacionais, num ambiente de forte espírito de comunhão e envolvimento na comunidade beirã.

Os eventos ocorrem, fundamentalmente, no cinema da Moagem, mas todo o quotidiano é partilhado entre público, cineastas, diretores e críticos. As barreiras esbatem-se e, por mais renomados que sejam, não há pedestais nem tratamentos diferenciados ou desproporcionais, convidando espontaneamente ao despretensioso convívio entre pares. E nada poderia casar melhor com o sentimento de partilha do que a experiência em sala de cinema.

 

Repo Man (1984) de Alex Cox

 

É notório o fio condutor que liga a programação entre as várias edições dos Encontros e que corresponde a uma identidade muito própria, indelevelmente associada à sensibilidade dos diretores Marta Ramos, José Oliveira e Mário Fernandes. Ao contrário dos festivais convencionais, o foco principal dos Encontros é a retrospectiva, recaindo a escolha, invariavelmente, em realizadores malditos, pouco vistos ou subvalorizados. Depois de, por exemplo, Sam Peckinpah (2022) e Enzo G. Castellari (2025), a retrospectiva de 2026 será dedicada ao cineasta britânico Alex Cox, contando com a exibição de Repo Man (1984), Sid and Nancy (1986), Walker (1987), e da estreia nacional do mais recente Dead Souls (2025). Permitam-nos destacar, particularmente, Walker, um western punk e anti-imperialista, um filme tão demente quanto o seu protagonista, um extraordinário Ed Harris.

Para além da retrospectiva, destaca-se também a rubrica Cine Gardunha Acolhe, que materializa a histórica dedicação dos Encontros em programar obras ligadas às paisagens, aos autores e às gentes beirãs. Serão exibidas duas curtas-metragens: Lumen, o mais recente projeto do fundanense Nelson “Zina” Fernandes, cuja entusiasmante obra de animação cruza técnicas de stopmotion, recortes e desenho a lápis de carvão; e Sincero, Apaixonado, de Raul Domingues e Margaux Dauby, um documentário experimental parcialmente rodado no Fundão. Depois do vibrante Terra que Marca (2022), um dos grandes momentos do cinema português da presente década, é com entusiasmo que antecipamos mais uma obra de Domingues, no caso em colaboração com a artista audiovisual belga.

Depois de um olhar sobre a obra do cineasta Pablo García Canga na edição transacta, os Encontros voltam a debruçar-se sobre nuestros hermanos (Pulo Ibérico), agora com a apresentação da edição portuguesa do livro Simetrias: A arte de John Ford, do cineasta, professor, crítico e ensaísta Paulino Viota. Apropriadamente, após a apresentação, seguir-se-á a exibição do filme My Darling Clementine, de John Ford, e posterior conversa entre Paulino Viota, Enrique Bolado, Pablo García Canga e Cristina Fernandes. Este momento é paradigmático da preocupação da organização dos Encontros, não só com o que passa na tela, mas também com quem possa efetivamente acrescentar reflexão pertinente em torno das obras.

 

Longe Daqui (1994) de João Guerra

 

Outro exercício que é reiterado em cada edição dos Encontros é a redescoberta de filmes nacionais que, de uma forma ou outra, foram negligenciados, pouco vistos ou renegados. É impossível falar desta rubrica, sem referir o papel fundamental dos Encontros e dos seus diretores na recuperação do filme O Movimento das Coisas (1985), de Manuela Serra, um gesto profundamente cinéfilo que permitiu repor alguma justiça ao extraordinário trabalho da realizadora portuguesa. O (Re)descobertas do Cinema Português de 2026 traz-nos o filme esquecido Longe Daqui (1994), única obra realizada por João Guerra, contando com a presença do próprio cineasta juntamente do habitué Manuel Mozos.

Serão cinco dias repletos de projecções de filmes, debates com a presença dos autores, apresentações de livros, concertos e exposições, em ambiente descontraído e em plena comunhão entre os visitantes e a comunidade beirã que fraternalmente os acolhe. O Fundão é um verdadeiro oásis criativo de produção cultural e artística. E os Encontros relembram-nos, ano após ano, que é possível fazer diferente, e que persiste um desejo coletivo de reunião na sala escura e de reflexão sobre cinema. Que continuem a resistir e prosperar.

 

Bruno Victorino