Ella McCay, de James L. Brooks – Conto Moral Americano

Miguel AllenFevereiro 11, 2026

James L. Brooks… terá passado assim tanto tempo? A verdade é que passou mesmo muito. Tanto que um novo filme de James L. Brooks, inevitavelmente dissonante de tudo o que hoje se faz em cinema, se evidencia de imediato como uma obra essencial no nosso panorama contemporâneo. O trabalho de um autor de uma outra era e, como sempre foi o caso com Brooks, algo como um eco “de Capra” – antiquado, em desuso – no cinema de hoje. Mas se o seu trabalho sempre nos surgiu como fundamentalmente apoiado na sua cinematografia (de índole cinéfila), é igualmente evidente a leitura moral, e profundamente americana, potenciada pelos seus filmes (Broadcast News e I’ll Do Anything sendo disso os exemplos mais claros). Mais do que qualquer outro capítulo da sua obra, Ella McCay será o filme em que a demarcação política de Brooks nos é exposta de forma mais aberta e frontal – e essa sua clareza, de fundo humanista, confere-lhe uma força muito particular no nosso contexto de guerra.

Trata-se aqui de dezasseis anos – ou, mais precisamente, de duas vezes dezasseis anos. Dezasseis anos entre aquele evento traumático (como explica o dicionário) na vida de uma jovem Ella (de apenas… dezasseis anos) e a sua ascensão ao cargo de governadora de Estado, em 2008; e, mais ou menos, dezasseis anos entre o breve episódio de esperança que o filme nos conta e o nosso Presente estilhaçado. Ora, quinze anos atrás (e não dezasseis…), em 2010, How Do You Know teria sido um derradeiro filme perfeito para Brooks: a encapsulação quase ideal dos valores centrais à sua obra e, sim, num Leo McCarey refeito rom-com, a recriação lúdica de um cinema clássico através de uma forma contemporânea, necessariamente mais pobre. Como todos os filmes de Brooks, um filme muito concentrado nas suas personagens (sempre muito mais do que simples figuras) e um exercício que tacteia essa ideia sua de que o amor se revela através dos momentos mais improváveis, e mais improvavelmente difíceis, do nosso percurso. Um filme de grandes planos, cujo sentimento parece quase sempre fugir a uma qualquer construção lógica, um pouco como o próprio découpage característico de Brooks.

Ella McCay será esse mesmo exercício e, em simultâneo, um gesto fundamentalmente diferente. Consegue-se aqui um equilíbrio difícil entre urgência e nostalgia. A fábula classicista (narrada por Julie Kavner) de um “velho mundo” que é, afinal, um comentário directo sobre a América contemporânea. “Help her or go to hell“, um filme teimosamente pessoal, sobre moral e amor, e como permanecer fiel a ambos quando tudo à nossa volta nos empurra em sentido contrário. Ella McCay acompanha três dias na vida de uma mulher. Ella (Emma Mackey), jovem lieutenant governor, aceita o cargo de governadora de Estado quando o afável Governor Bill (um saudoso Albert Brooks) é nomeado senador. De uma inteligência positiva e de um espírito empreendedor inesgotável, Ella não será a escolha mais popular entre os seus pares. Pouco dada aos aspectos “comerciais” (ou panfletários) da política e excessivamente comprometida com uma conduta ética que sirva verdadeira e directamente os seus eleitores, a sua quase ingenuidade – não o serão todas as protagonistas de Brooks? – torna-a num alvo fácil para predadores. E se os seus métodos pouco convencionais lhe darão, à partida, alguma projecção junto da opinião pública, os mesmos acabarão por impedir que a sua voz seja, finalmente, ouvida.

 

Albert Brooks & Emma Mackey

 

Os três dias do filme serão um percurso complicado de altos e baixos, de verdade e mentiras, entre estratégia e acção, do pessoal ao público e do público ao privado. De um pulsar acelerado (e tagarela), o filme formaliza comparações inevitáveis com o Hawks dos anos 30, parecendo algo mais longo do que a sua duração real – nunca por se “arrastar”, mas pela quantidade de trama que consegue tratar, pela forma como carrega uma narrativa profusa sem nunca nos parecer apressado ou redundante. A precisão solta de Brooks permanece, afinal, infalível, e o realizador recorre até a uma linha narrativa secundária – o romance de Casey (Spike Fearn), irmão de Ella, com Susan (Ayo Edebiri), ou uma quase demonstração prática (e profundamente enternecedora) da famosa “aposta de Pascal” – para, ao centro do filme, afinar com justeza o tom do que aqui se procura.

Daquilo que cada um projecta na figura do outro – da insegurança e do anseio como fonte de romance -, mas sobretudo sobre a forma como cada um se projecta relativamente à própria figura do outro. Se as suas personagens serão, ainda aqui, o veículo perfeito para o jogo moral que o filme enquadra, esta será, afinal, uma peça menos optimista quanto ao mundo que retrata. Brooks concede ainda perdão a alguns dos seus ofensores, mas Ella McCay assume um tom distinto dentro da sua filmografia, sendo o filme que mais claramente identifica e castiga os seus vilões. No nosso 2026, esses vilões parecem estar por todo o lado e encontrar voz em qualquer tipo de média que se imponha no nosso espaço social. Ao procurar responder-lhes com este seu último filme, Brooks mostra-se suficientemente corajoso para se armar de um sentimento tão antigo e tão desafectado que nos parece hoje fatalmente fadado ao desuso: a esperança.

Contra os decisores que bloqueiam o nosso rumo comum, como o fora I’ll Do Anything; um filme construído em torno do rosto luminoso de uma actriz, como o fora How Do You Know; sobre posições morais num quadro romântico, como o fora Broadcast News; e, afinal, sobre o percurso de batalha travado individualmente por uma mulher, como o fora Terms of Endearment. Ella McCay promove um outro, um novo entendimento a partir de uma aproximação aberta a quem nos oferece a sua palavra. Os valores que o filme evoca podem chocar-nos pela sua relativa ingenuidade, talvez, mas a sua voz revela-se, por isso mesmo, tão necessária no contexto contemporâneo. O facto de o filme ter acabado arrumado numa plataforma de streaming associada a uma popular marca infantil é um lembrete brutal do estado das coisas. Mas a sua simples existência é o testemunho dessa possibilidade de “regressarmos” a um mundo mais centrado, afinal, na sua própria humanidade. A sua existência é, sim, feita de esperança. De outros tempos.

 

 

 

Miguel Allen