Ari Aster é um caso curioso no panorama atual do cinema norte-americano. Parte de uma fornada que ao longo da última década foi sendo ungida como espécie de “última linha de defesa” contra as folias da indústria moderna, nesse lugar inóspito chamado Hollywood onde o “verdadeiro cinema” já não cresce, o seu nome cimentou-se face aos seus contemporâneos como espécie de “príncipe herdeiro” de um ideal-tipo do cineasta-autor, aquele que numa versão simplista da década de 70 era rei e senhor, no breve intervalo de tempo em que a arte, e não o comércio, supostamente reinou sobre a indústria norte-americana.
Propalado pela máquina promocional da distribuidora A24 e apadrinhado ao mais alto nível pelo “sumo pontífice” da cinefilia contemporânea, Martin Scorsese, o estatuto aplicado a Aster é curioso porque manifestamente desajustado face a uma filmografia que não parece justificar o grau de veneração. “Hereditário“, a longa-metragem de estreia em 2018, capitalizou o cume da onda do “elevated horror” (outro slogan cunhado pela A24), mas enquanto objetocinematográfico era manifestamente desequilibrado; seguiu-se “Midsommar – O Ritual“ (2019), terror folclórico abertamente devedor de “O Sacrifício” (The Wicker Man, de Robin Hardy), clássico do género de 1973 e porventura o filme mais bem conseguido de Aster, mas não era exatamente inovador, antes uma fórmula bem executada; por último houve “Beau Tem Medo” (2023) picaresco surrealista encarado como o seu filme de “cheque em branco”, e por isso quase que condenado na origem a ser um fracasso – apreciado como filme cult por uma pequena minoria, mas difícil de defender até para os fãs mais acérrimos.
É neste contexto que chegamos então a Eddington, uma espécie de prova de fogo para o realizador, de 39 anos. À pressão comercial depois do flop financeiro de Beau (a essa, de resto já sucumbiu), acresce a da expectativa de um público cada vez mais desconfiado do cinema de Aster e à espera para ver se este é, enfim, capaz de dar o salto que há muito se espera de si. A receita aqui é a do “filme de ideias”, um épico satírico sobre a América na era-Covid, de uma sociedade à beira do colapso e há muito em autodestruição. Cabe aqui tudo e um par de botas: o isolamento e paranoia da era pós-verdade potenciado pelas redes sociais, o extremismo conspiracionista alimentado pelo algoritmo, o ativismo performativo, cada vez mais desfile de sinalização de virtudes do que verdadeira justiça social, a crise da masculinidade moderna, o pecado original da América na sua relação com os povos originários, a cultura das armas e da violência, endémicas àquele país…

Podíamos continuar nisto por mais umas boas linhas, mas poupe-se o esforço que é, francamente, inútil. Eddington é, em suma, o pior filme de Ari Aster, uma mixórdia de temáticas e ideias que não redunda em mais do que uma provocação juvenil, um filme vácuo e deslumbrado com as suas próprias pretensões de importância. Não é um filme importante, quanto muito é um filme sobre a ideia do cinema de importância, assim como toda a carreira de Aster até ao momento se parece resumir a uma ideia de prestígio à qual, nem no papel, nem na tela, este parece capaz de estar à altura.
O falhanço é total e em toda a linha: enquanto sátira não resulta porque o alvo não é claro, dispara em todas as direções sem qualquer foco ou intencionalidade; enquanto filme político falha porque as suas ideias são francamente adolescentes, simplistas e exploradas com a superficialidade de uma poça de água num dia de Verão; e enquanto “Filme Sobre a América™”, na tradição de Welles, Coppola ou P.T. Anderson, falha pelo seu aparente, o seu gritante desinteresse em examinar as causas do problema para lá da constatação mais óbvia (telemóveis e redes sociais = mau). Limita-se, nos primeiros dois terços, a gozar com o mundo e as personagens, arquétipos que Aster cria apenas para, de forma quase misantrópica, poder destruir antes de, no terceiro e último ato, sucumbir a um burlesco parolo e desconexo, um ritual de violência que nada significa e nada provoca no espectador, e um epílogo que aparece como um cobarde e niilista “lavar de mãos” das duas horas e meia anteriores.
Defensores da obra dirão que a sua natureza dispersa e hiperativa é propositada, espelho dos tempos de som e fúria em que coletivamente nos encontramos. Tal não pode senão soar a spin e controlo de danos em nome de um realizador que parece regredir quanto mais as suas ambições formais e de orçamento aumentam. Com efeito, além de “Beau Tem Medo“, a obra de Aster que Eddington mais faz lembrar é a sua primeira curta-metragem – The Strange Thing About the Johnsons (2011) filme-tese do realizador quando ainda estudante de cinema que, aquando do seu lançamento na plataforma online Short of the Week provocou sensação, à boleia da exploração quase cómica de um tabu altamente provocatório.
Esse filme não chegava a grande conclusão que se pudesse discernir; enquanto objeto de viralidade online não precisava de o fazer. Aster parece, contudo, ter tirado a lição errada da experiência: a de que a provocação, o mero shock value, é suficiente para se esquivar de dar respostas às questões que coloca. Se essa tendência estava algo neutralizada nos primeiros dois filmes, mais dados à fórmula e à convenção, desde “Beau Tem Medo” que tem vindo a ressurgir, com resultados cada vez mais destrutivos. E se, nessa longa-metragem, podíamos ao menos desculpar a tentativa, enquadrá-la como risco falhado mas ainda assim meritório, aqui, num filme pretensamente sério e sobre assuntos sérios, tal já não pega, exige-se mais.

O que temos, então, é um filme onde tudo é arquétipo, tudo é caricatura, onde as referências e significantes visuais, sobretudo as retiradas da vida real (os protestos pelo assassinato de George Floyd, a ridícula propaganda política local) são despidas de todo o qualquer contexto, reduzidas a punchline e nada mais. As composições visuais são bem encenadas mas a sua textura é estéril e excessivamente artificial (Aster parece nunca ter saído de Midsommar neste aspeto), contribuindo para o efeito distanciador entre o filme e o espectador. Nenhuma das personagens tem qualquer interioridade, nem sequer Joaquin Phoenix – atualmente um daqueles atores-evento nos moldes de um DiCaprio ou Day Lewis, em sério risco de se tornar uma paródia de si mesmo –, cujo protagonista, um xerife conservador e anti-máscara, deambula desajeitado de rocambolesco em rocambolesco, rumo à inevitável conclusão que o reduz a uma anedota básica – até a um nu frontal tem direito –, que na verdade é aquilo que a personagem sempre foi.
A espaços raros, o filme quase toca em algo de concreto – a omnipresença dos telemóveis enquanto elemento de enquadramento das personagens no plano, e uma sequência tardia que, na sua dialética visual, parece dialogar com a linguagem dos videojogos, possível comentário sobre uma sociedade cada vez mais militarizada e obcecada com a violência enquanto entretenimento. Mas Aster é incapaz de moldar as sequências, de as transformar num coletivo coeso. No final, a sensação que fica é a de que, entre o mosaico de personagens de Eddington, aquela na qual o realizador mais se encontra é Brian, um jovem indistinto e sem traços de personalidade própria, que passa de ativista do movimento Black Lives Matter (só se envolve nos protestos para tentar conquistar uma rapariga) a influencer pró-MAGA nos moldes de Kyle Rittenhouse, porque a alt-right americana lhe dá aquilo que quer: atenção e validação. “Não sei o que dizer”, diz o jovem a um amigo a certa altura. Nem ele, nem nós.
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