Dossier Michael Mann, Vol. VII – Ali

São vários os livros, estudos, publicações e artigos que se têm debruçado sobre a filmografia de Michael Mann. Para além das suas virtudes enquanto cineasta é a forma como a estética das suas imagens informa a narrativa que mais tem sido sublinhada. É sobre essa estética que nos pretendemos deter neste artigo, deixando que as próprias imagens ilustrem aquilo que as palavras teriam maior dificuldade em expressar. Ali especificamente marca o início da era digital no cinema de Mann, que para este filme conjugou HDCAM (digital) com Super 35 (película), e mostrou desde logo a sensibilidade para a utilização deste novo formato. Potenciando tudo o que a filmagem em digital tem para oferecer e alcançado uma textura nas imagens que é raro encontrar, Mann foi capaz de sobrepor os dois formatos, experimentando as capacidades da sua utilização em separado e simultaneamente.

 

Sequência inicial

Começando pelo sequência de abertura do filme, que vai acompanhando os créditos iniciais, importa exaltar a genialidade com que Michael Mann economicamente nos coloca no centro da vida de Cassius Clay (mais tarde Muhammad Ali), através de uma montagem paralela. O espectador vai sendo submetido a imagens de um concerto de Sam Cooke, de treinos do protagonista em diversas circunstâncias, da presença de Cassius Clay em palestras ministradas por Malcolm X, até chegarmos ao evento que inicia o filme, o combate com Sonny Liston. Apresenta-nos até um pequeno flashback do jovem Cassius a tomar consciência da segregação racial e das suas implicações. As imagens vão sendo intercaladas enquanto a música de Sam Cooke vai permanecendo, até à entrada triunfante do protagonista na pesagem que antecede o combate e onde encara pela primeira vez o seu rival, campeão do mundo de pesos-pesados.

 

All of the Lights

Seja nas imagens anteriores ao digital seja nas posteriores existem algumas recorrências visuais nos filmes de Michael Mann que permitem estabelecer paralelismos e encontrar variações formais. Uma delas é sem dúvida as luzes das cidades, redondas e desfocadas em diferentes tonalidades. Não tanto como nos conjuntos de imagens seguintes mas já é possível discernir a opção de Mann de dotar as suas imagens de características plásticas abstratas, algo que é acompanhado, e a esse nível talvez superado ocasionalmente, por alguns colegas de profissão como Tony Scott.

Ali (2001), Michael Mann
Thief (1981), Michael Mann
Heat (1995), Michael Mann
Collateral (2004), Michael Mann
Public Enemies (2009), Michael Mann
Blackhat (2015), Michael Mann
Domino (2005), Tony Scott

 

Flashing Lights

Outra recorrência assinalável nas imagens de Michael Mann é a captação de faíscas provenientes de diferentes fontes. Aqui o nível de abstração da imagem e a aproximação ao cinema experimental é ainda mais evidente. É de tal forma inequívoco que não nos parece totalmente descabido associarmos os filmes do realizador a cinemas tão distintos narrativamente como o de James Benning. Mais uma vez não resistimos também a estabelecer o paralelismo com Tony Scott e na equivalência que é possível estabelecer em termos da plasticidade conferida às imagem.

Ali (2001), Michael Mann
Thief (1981), Miachael Mann
Heat (1995), Michael Mann
Public Enemies (2009), Michael Mann
Unstoppable (2010), Tony Scott
Pig Iron (2010), James Benning

 

Digital

Nas recorrências até agora assinaladas, que têm em Ali o filme charneira entre a película e o digital, é possível discernir algumas subtis diferenças entre os dois processos cinematográficos. No entanto, é agora que poderemos verificar a utilização brilhante que Mann faz das potencialidades do digital, não só na aproximação ao cinema experimental mas também na proximidade física aos elementos filmados (primeira imagem, captada no meio dos dois combatentes), alcançável pelas características específicas das câmaras portáteis. A este nível de utilização ímpar do formato digital, importa sempre mencionar outra referência, que também acaba por estar nos antípodas do seu cinema. Pedro Costa, que no ano anterior a Ali nos trouxe No Quarto da Vanda, muitas vezes intitulado como o primeiro filme do século XXI, pela modernidade temática e formal evidenciadas e indissociáveis da filmagem com câmara digital (Mini DV).

Ali (2001), Michael Mann
Ali (2001), Michael Mann
Collateral (2004), Michael Mann
Miami Vice (2006), Michael Mann
Blackhat (2015), Michael Mann
Domino (2005), Tony Scott
No Quarto da Vanda (2000), Pedro Costa

Dissemos inicialmente que a estética das imagens de Michael Mann informa a narrativa. Não é algo apenas verificável no caso  específico do realizador norte-americano. Naturalmente que o cinema, enquanto arte eminentemente visual, não poderá viver apenas da história que a narrativa vai contando, onde o roteiro desempenha o papel fundamental. Desde o cinema mudo, ao expressionismo alemão, passando pelo advento do cinema moderno, que a 7ª arte tem procurado, através dos seus códigos, ilustrar através das imagens algo mais do que aquilo que é dito nos diálogos dos seus personagens. E volta a ser o caso de Michael Mann. As características plásticas das imagens que procurámos sublinhar não são um fim em si mesmo. Para além da sua beleza ou qualidade estética procuram expressar os sentimentos dos seus personagens e, fundamentalmente, garantir ao espectador um envolvimento mais profundo no universo criado pelo realizador em cada filme, contribuindo inegavelmente para o enriquecimento da sua experiência. Ali não é a biografia comum que anualmente desponta em Hollywood e procura glorificar os heróis da história dos Estados Unidos da América. Michael Mann procura desmistificar e desconstruir a mitologia de uma figura incontornável do desporto e da luta racial, alcançando tal feito pela forma e estética do experimentalismo das suas imagens. A história de Muhammad Ali é amplamente conhecida e de fácil consulta em qualquer lugar. Ali procura e consegue ir mais longe, pelo génio do seu autor na utilização da linguagem cinematográfica.

Bruno Victorino