Dossier Hayao Miyazaki Vol. X – Ponyo

 “Ponyo” pode ser visto como uma livre adaptação da “Pequena Sereia”, sem nunca abandonar ou questionar o imaginário de crianças entre os quatro e seis anos. Entre o supernatural de feiticeiros e polimorfos, reside a repetição de palavras após escutadas, a não resistência à sesta, ou o fascínio por objectos e alimentos.

Ponyo (ou Brunhilde) e Sōsuke são duas crianças que se encontram, por acaso, na costa, local que divide os seus mundos. Se a abertura do filme nos mostra o turbilhão de luzes, formas e cores que compõem a origem mágica submarina da rapariga, a morada do rapaz tem a singularidade de ser no topo de uma colina, permitindo-lhe a troca de mensagens de luz noturnas com o pai marinheiro. O mar será então o espelhar entre o funcional e o fantástico, simultânea barreira familiar das duas crianças e palco de maravilhas.

A estrutura do filme suscita mais comparações com obras musicais que literárias. A primeira tentação é em relação à fuga de Ponyo da “prisão” à qual o pai a vetou face o contacto com humanos, as minúsculas irmãs reúnem-se em concertações geométricas para ensaiar uma libertação wagneriana em jeito de valquírias. Contudo, convém recuar ao princípio e ver no filme uma sinfonia, como a sexta de Mahler: início forte e tema lançado (duas personagens de mundos diferentes), segundo andamento ainda mais rápido centrado na libertação referida e reencontro, terceiro movimento lento para o qual contribuem as sestas, e final em allegro enérgico com a aguardada conciliação entre os dois mundos. Valerá o paralelo com Mahler também pelo jogo rítmico extremamente irregular e certas escolhas tímbricas que pautam a música do austríaco, que procurava recriar brincadeiras de crianças em certa passagem.

Não deixa de ser curioso a proximidade de Sōsuke com as velhotas do lar onde a sua mãe trabalha. Miyazaki vê a idade como outro espelho adequado às vicissitudes da sua história. Os mais velhos e os mais novos (recuperar a pequena cena com o bebé no barquinho, beijado por Ponyo) ficam igualmente cativados e renitentes aos feitiços que testemunham. Aliás, frise-se que o filme também ganha tempo com os apartes e arrebatares de coisas tão simples como arrefecer uma bebida ou acender de uma luz, a magia está no olhar do estranho. Sōsuke e Ponyo, as irmãs desta e as velhotas, as mães e os pais, todos têm direito a uma fonte de encanto própria, se o que a uns parece trivial a outros suscita interesse.

Havia ainda os barcos que eram luzes e os peixes que são do Paleozoico: nomeiem-nos. “Ponyo” é um filme com brilho sem tempo. Avança e recua da mesma forma que as ondas, como o martelo na sinfonia de Mahler, como um pincel na mão do artista a aprimorar a cor. “Ponyo!” disse Sōsuke e Brunhilde tornou-se Ponyo e todos viram Ponyo … “Porque a fortuna da gente /Está às vezes somente/Numa palavra que diz. /Por uma palavra, engraça/Uma fada com quem passa/E torna-o logo feliz.” Já dizia o poeta.

Eduardo Magalhaes