A nova edição do Doclisboa já vai quase a meio, e a Tribuna do Cinema tem vindo a seguir pontualmente o festival. Salomé Lamas é talvez a grande desilusão até agora. Em sentido contrário Lucía Seles corresponde às melhores expectativas depois do aclamado Fire Supply ter feito as delícias dos espectadores na edição transacta do festival. Hugo Dinis e Bruno Victorino escrevem sobre alguns dos filmes em destaque nos primeiros dias do certame.

With Hasan in Gaza (مع حسن في غزّة) de Kamal Aljafari – Sessão de Abertura
Que a morte te esqueça. A declamação palestina é de tal forma comum que é utilizada no quotidiano para as pessoas se despedirem umas das outras, para se cumprimentarem no início do dia, para se desencontrarem no seu final. Em “With Hasan in Gaza” é usado por um dos dois operadores de câmara, o titular Hasan e o realizador Kamal Aljafari, para cumprimentar alguém no trânsito. Utilizando um registo de cinéma vérité, Aljafari leva a sua camcorder pela mão, percorrendo as ruas, as praias, os mercados, as casas de Gaza ao virar do milénio. Sendo impossível descolar do seu contexto, “With Hasan in Gaza” acaba por ser um filme que vive em simultâneo em dois tempos distintos. Ao olhar de Aljafari numa busca por um companheiro de prisão há quase 25 anos é sempre contraposto o do espectador na actualidade. Onde estarão agora todas aquelas pessoas? O que é feito das crianças cujos olhares permanentemente buscam a lente de Aljafari? Ainda permanecem aqueles lugares que Hasan e Kamal visitam, perante o olhar e a ameaça permanente do invasor? Esta duplicidade é convidada pelo realizador mas é completamente acrescentada por quem vê o filme, estando condicionada sempre ao contexto em que o vemos. Sem esse contexto, a dupla vai registando cenas de um quotidiano de cativeiro: famílias que convidam as filmagens de destroços de ataques israelitas, crianças que se desdobram em convites para que Hasan e Kamal as filme, checkpoints e muralhas erguidas pela força de ocupação.
Mas Aljafari faz questão de que este seja o mote para a sua dupla temporalidade. O dia-a-dia de Gaza será por estes tempos radicalmente diferente em muitos aspectos, não tanto noutros, mas ainda que a condição do habitante de Gaza não se tenha alterado, o seu destino está resumido na pequena saudação: que a morte te esqueça. Aljafari reúne imagens desgarradas que dificilmente se formam de maneira coerente num documentário narrativo, pelo que “With Hasan in Gaza” tem sempre de fazer segurar pelo seu encadeamento de pequenas situações, fugazes encontros com pessoas, lugares que se sucedem. Em larga medida, esse esforço de coerência raramente se confirma na duração do filme, mas Aljafari pouco poderá fazer com as imagens que tem, sabendo que a mensagem que lhes aporta no seu final está sempre à margem do que elas possuem. O amigo que Aljafari procurava e que lançaria um cariz pessoal a este registo está marginalizado e acaba por servir apenas de mote. O que resta então para mostrar que não tenhamos já visto de Gaza nos últimos tempos? Espectros de pessoas e lugares. Ainda lá estarão? De lá saíram? Lá conheceram o seu fim? Que a morte lhes esqueça.
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Hugo Dinis

Ouro e Cinza de Salomé Lamas – Competição Portuguesa
Protagonizado por Luísa Cruz (Carmo) e Margarida Vila-Nova (Irma), o mais recente filme de Salomé Lamas, em estreia mundial no doclisboa 2025, integrando a Competição Portuguesa, assume deliberadamente um cariz mais ficcional se comparado com a sua restante filmografia. Carmo e Irma partilham o quadro em dois distintos cenários que se vão intercalando. Um corresponde fundamentalmente ao apartamento de Carmo e o outro a uma realidade paralela, de fundo negro e arquitetura abstrata. No primeiro, assistimos ao drama entre as duas mulheres, com avanços e recuos mas onde permanece uma distância e frieza no cerne do relacionamento. No segundo, são declamados por ambas, excertos de conceptualizações referentes à existência, do átomo ao universo. O que sobra é um cinema rarefeito e estéril, sem cor, sem luz, sem sorriso, sem lágrima e sem chama. A cena inicial de Ouro e Cinza é premonitória. Vemos Luísa Cruz dentro de uma banheira cheia de água. O plano é asséptico, a banheira branca e a crueza do corpo nu da atriz. Facilmente encaixava em diversos dramas deprimentes ditos realistas que pululam pelos festivais de cinema contemporâneos e, infelizmente, não é difícil prever para onde nos encaminhamos. É inegável a relevância de obras como Eldorado XXI e Terra de Ninguém, e mesmo considerando que nos encontramos num registo distinto, saímos da sessão com o peso amargo da desilusão.
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Bruno Victorino

Vacances de Victoria Hely-Hutchinson – Competição Internacional
Dez verões na construção de uma personagem em tempo real. Se este Vacances de Victoria Hely-Hutchinson dá ares de Boyhood, não será com certeza inocente. A sua câmara entra numa vivenda de férias de família, firmemente plantada à beira da piscina. Há desde logo uma qualidade de intriga por detrás deste bucolismo à beira água. Os membros da família de Hely-Hutchinson competem entre si em torno da presença magnética e impositiva da bisavó, uma antiga contessa austríaca sobejamente desbocada e que percorre a linha entre o matriarcado reconfortante e o sufoco emocional. Na sua órbita gira uma filha que é incapaz de colocar em palavras o que a sua perda um dia representaria para si mas que não hesita em considerá-la um bully profissional. Os membros mais jovens da família também sofrem com os comentários sobre ganhos de peso ou as intervenções de uma “especialista em inteligência emocional”. É fácil chegar à conclusão de que esta figura da avó contessa representa uma decadência do dinheiro antigo enterrado nas paredes de uma vivenda populada por osgas e insectos. Mas a sua personalidade é também satírica quase só por si. A primeira imagem que temos dela é, desde logo, absurda: a comer uma tosta com presunto deitada ao sol, à beira da piscina, e a gabar-se da sua própria capacidade para comer tudo sem constrangimentos. Mas, apesar de toda esta bagagem, a contessa é incontornável para todos que a visitam. Os seus netos podem não procurar os seus conselhos mas irão tê-los de qualquer forma. A sua filha poderá desaprovar da forma como lida com o seu neto, mas isso não servirá de contrapeso.
Há um elemento voyeurístico associado à filmagem de Hely-Hutchinson que se coloca à frente da sua própria visão enquanto membro da família. É isso mesmo que a sua mãe acaba por questionar na sua intervenção final. O que quererá Victoria Hely-Hutchinson atingir sob o manto de registo dos sucessivos ambientes veraneantes naquela piscina? É certo que obtemos uma imagem de uma mulher cuja personalidade estravasa a dos que a rodeiam. Mas serão os outros vítimas? Não é fácil de responder a essa questão. À sua volta vão-se multiplicando representações de juventude ao longo dos anos. Netos, bisnetos, crianças e bebés. A piscina como um fórum familiar monopolizado por uma mulher do passado, é certo, mas inegavelmente referencial para quem a rodeia. Mais do que representações de vários verões em casa da avó, este Vacances procura perguntar o que será desta família sem a sua enorme presença. Temos uma ideia, mas nunca estamos muito próximos de descobrir a resposta a essa e outras perguntas.
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Hugo Dinis

Avenida Saenz 1073 de Lucía Seles – Riscos
O novo filme de Lucía Seles faz parte da Secção Riscos do Doclisboa 2025. Nos momentos iniciais do “vídeo” (como a realizadora o designa) apercebemo-nos que não será tarefa fácil acompanhar o ritmo frenético imposto pela cineasta argentina. No ecrã surgem quatro linhas de texto diferentes, por vezes em simultâneo, duas que traduzem o castelhano falado no filme para inglês e português, e mais duas que revelam alguns pensamentos e apontamentos do cineasta, em castelhano e respetiva tradução em inglês. Se a tudo isto juntarmos o som do fluxo de tráfego constante da avenida e a montagem abrupta de Seles, temos as condições reunidas para uma experiência desconcertante. Mas rapidamente vamo-nos acostumando ao caos e aprendendo a direcionar a atenção. Percebemos também que todo este aparato mais não é do que um vislumbre da idiossincrática personalidade de Lucía, manifestando graciosamente a sua grafomania. Dedicado ao falecido pai da realizadora, o filme desenrola-se fundamentalmente no ginásio que outrora fora casa da família de Seles. Do retrato da Avenida e do ginásio vão surgindo as personalidades da própria realizadora e de todos aqueles com quem partilha as imagens, do dono do ginásio Omar “Eastwood” Patiño, a Martita, amiga da sua mãe. Correndo o risco de soar hiperbólico, é difícil recordar um filme na primeira pessoa tão impactante desde As I Was Moving Ahead, Occasionally I Saw Brief Glimpses of Beauty, de Jonas Mekas. Não é a mesma forma, nem sequer a mesma linguagem, mas a sinceridade e empatia pelo próximo não deixam margem para dúvidas.
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Bruno Victorino

It’s Never Over, Jeff Buckley de Amy Berg – Heart Beat
É frequentemente dito que os anos 60 terminaram realmente na pista de Altamont, no momento em que Meredith Hunter foi esfaqueado por Alan Passaro. Nesse instante, o mundo estava de facto apenas a 25 dias de 1970, mas já teria parecido outro a partir dali. Num paralelismo porventura bacoco, a morte de Jeff Buckley no verão de 1997 serviu como o fim de uma era. Se essa era foram os anos 90, a partir daí nunca mais foram os mesmos. Buckley representava uma marca de liberdade artística pura que o público reconhece a muito poucos. Certamente, o próprio Buckley sabia reconhecê-la em outros, em particular nos seus ídolos: Nina Simone, Nusrat Fateh Ali Khan, Robert Plant, Judy Garland, Morrissey. Sobretudo por essa singularidade, reconhecemos em Buckley uma voz de dissenso face à imposição granítica da máquina mediática em torno da indústria musical, mas sobretudo um homem dono de si próprio. É por isso que este It’s Never Over, Jeff Buckley e a realizadora Amy J. Berg em particular se apresentam com a pesada responsabilidade de prestar serviço a esse legado e de saber honrar a memória de alguém que marcou uma geração.
A figura de Buckley sempre esteve envolta numa neblina de mistério e perigo. A sua relação recortada com o pai, também ele um vocalista e compositor de excelência, e as idiossincrasias da ligação a uma mãe marcada pelo abandono são o mote para alguém que define a própria juventude como “it was… a childhood“. Os traumas de Jeff são imersos numa maré de talento bruto para a música, ironicamente apresentado pela primeira vez num concerto em memória do pai, falecido prematuramente por overdose. À medida que o artista vem crescendo, o homem vai-se escondendo. A sua aversão à fama não é particularmente surpreendente para um músico naquela altura (Cobain havia-se suicidado quatro meses antes de Grace ser editado), mas a forma como é apoderada pela indústria para adensar o nevoeiro em torno da sua persona pública tem um condão visceral ao vermos o material aqui documentado. As entrevistas de Berg com Rebecca Moore e Joan Wasser pintam o retrato de um jovem apaixonado, curioso e frenético, enquanto que a mãe Mary Guibert oferece um testemunho sentido, honestamente marcado pela imperfeição.
“It takes balls to raise a child“, diz Buckley na sua derradeira mensagem à mãe. A sua morte, por muito cruel e desnecessária que seja (e não são todas?), sobretudo em virtude das suas circunstâncias, surgiu num momento de realização pessoal para Buckley. Aquilo a que Wasser se refere como pesos que vão desaparecendo da vida à medida que se envelhece. Não há outra forma de fazer sentido do desaparecimento de Jeff senão como um acaso da vida. “Youth is wasted on the young“, resume o seu amigo de longa data Michael Tighe. Berg captura esta efemeridade da forma mais convencional possível, não fosse este um documentário com toda a estrutura do biopic musical tradicional, mas é a história e a persona de Buckley que ainda fazem arrastar o povo de forma magnética na sua direcção. É ainda dele o poder de cativar atenções e Berg tem o mérito de nos recordar disso.
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Hugo Dinis



