Foi hoje anunciada a programação completa do Doclisboa 2025, festival de importância basilar no que toca ao documentário em Portugal. A 23.ª edição do DocLisboa vai decorrer de 16 a 26 de Outubro, nas salas que tradicionalmente acolhem o festival — Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa e Cinema Ideal. Este ano, o festival apresenta um total de 211 filmes provenientes de 54 países, incluindo 93 longas-metragens e 118 curtas-metragens. Nesta programação podemos contar com 39 estreias mundiais, das quais 31 obras portuguesas, oferecendo um retrato abrangente da contemporaneidade, do ser humano e das suas múltiplas realidades e desafios. Mais de 300 convidados internacionais estarão presentes em Lisboa ao longo do festival.

O festival abre com o filme With Hasan in Gaza, do realizador palestiniano Kamal Aljafari, uma homenagem urgente à resistência em Gaza. Montado a partir de filmagens feitas em 2001, quando o cineasta e Hasan Elboubou procuravam Abdel Rahim, com quem Kamal esteve preso em Gaza em 1989, quando era adolescente, With Hasan in Gaza é um road movie que nos transporta para um território em resistência, marcado pelas coexistência entre a vida comum dos seus habitantes e a permanente violência da ocupação.
A fechar, o Doclisboa vai mostrar A Árvore do Conhecimento, de Eugène Green. Desde A Religiosa Portuguesa (2009) que o cineasta tem dedicado um interesse muito particular a Portugal, que se prolonga em Como Fernando Pessoa salvou Portugal (2018) e Lisboa Revisitada (2019). Green regressa agora à capital portuguesa com uma fábula sobre um adolescente, um ogre e um pacto obscuro, numa crítica nem sempre velada ao modo como a cidade se rendeu ao turismo. É uma co-produção luso-francesa entre O Som e a Fúria e Le Plein de Super, protagonizada por Diogo Dória, Leonor Silveira, João Arrais, Ana Moreira e Rui Pedro Silva.

A Competição Internacional reúne 12 filmes, entre os quais se destacam sete estreias mundiais. A Competição Portuguesa contará também com 12 títulos, incluindo também sete estreias mundiais, uma estreia europeia e quatro estreias nacionais. Destacamos os aguardados Fuck The Polis, de Rita Azevedo Gomes, e Complô, de João Miller Guerra, exibidos pela primeira vez em Portugal, assim como Ouro e Cinza de Salomé Lamas e Baía dos Tigres de Carlos Conceição, exibidos pela primeira vez mundialmente.

Na secção Da Terra à Lua, programa não-competitivo, está O Riso e a Faca, de Pedro Pinho, em versão integral (330 minutos) e em estreia mundial, depois da premiação em Cannes (Melhor Actriz na secção Un Certain Regard para Cleo Diára). Na mesma secção apresentar-se-à também Remake, de Ross McElwee, que regressa ao cinema depois de uma ausência de 14 anos, num filme que é em simultâneo uma reflexão sobre as suas criações e um tributo emocionado à vida do seu filho Adrian, uma figura recorrente na sua obra, que faleceu em 2016.

Ainda nesta secção, dois pesos pesados do cinema mundial – Lucrecia Martel, com o seu novo filme Landmarks, sobre a luta de nove anos por justiça que se seguiu ao assassinato de Javier Chocobar em 2009, líder da comunidade indígena de Chuschagasta, e Werner Herzog, que regressa ao festival com Ghost Elephants, onde o explorador Steve Boyes parte com três mestres rastreadores da Namíbia numa busca ‘à la Moby Dick’ pelos raros elefantes-fantasma de Angola. Destaque ainda para Cover-up, dirigido pela oscarizada Laura Poitras (Citizenfour, All the Beauty and the Bloodshed) em colaboração com Mark Obenhaus. O filme, acabado de chegar do Festival de Veneza, explora a carreira do jornalista Seymour Hersh, jornalista premiado com o Pulitzer, que revelou os escândalos de tortura do exército dos EUA nas guerras do Vietname e Iraque.
Na secção Heart Beat, Memórias do Teatro da Cornucópia, de Solveig Nordlund, que por questões técnicas não pôde ser exibido no último IndieLisboa. O filme mostra, com recurso a imagens de arquivo de vários espectáculos, desde a sua origem até ao seu fecho, peças emblemáticas da companhia fundada por Luis Miguel Cintra e Jorge Silva Melo, em 1973.

Destacamos também Lynch em dose dupla, primeiro com a estreia nacional de Welcome to Lynchland, de Stéphane Ghez, que mergulha na obra do surrealista-pop e dá voz a Kyle MacLachlan, Laura Dern e Isabella Rossellini, entre outros dos colaboradores mais próximos, depois com o conhecido Duran Duran: Unstaged (2011), experiência lynchiana numa actuação dos britânicos Duran Duran, ícones synth-pop.
Em Boy George & Culture Club, de Alison Ellwood, o cantor e os seus colegas de banda partilham pela primeira vez a sua história, num retrato íntimo e divertido da banda que revolucionou a era dos New Romantics e de Margaret Thatcher.
Becoming Madonna, de Michael Ogden, parte de imagens e registos inéditos, num filme que acompanha a transformação da jovem outsider do Michigan na estrela pop mais poderosa e controversa do mundo.
One to One: John & Yoko, de Kevin Macdonald e Sam Rice-Edwards, filme que mergulha no universo musical, artístico e político de John Lennon e Yoko Ono, tendo como pano de fundo uma (outra) época turbulenta da história americana. No centro está o concerto solidário One to One para crianças com necessidades especiais — o único concerto completo de Lennon após os Beatles. O filme apresenta arquivos raros e inéditos, de chamadas telefónicas pessoais a filmes caseiros, bem como imagens remasterizadas do concerto.
E mais uma estreia nacional – It’s Never Over, Jeff Buckley, de Amy Berg. O filme retrata Buckley, cuja voz única e carreira promissora terminaram tragicamente com a sua morte em 1997. Com imagens e testemunhos privados, a cineasta Amy Berg revela o legado e o mistério de uma das figuras mais marcantes da década.
Ainda nesta extraordinária secção, a Tribuna do Cinema destaca Andy Kaufman Is Me, de Clay Tweel; Megadoc, de Mike Figgis, sobre o épico Megalopolis de Francis Ford Coppola; Strange Journey: The Story of Rocky Horror, de Linus O’Brien – e uma homenagem a Robert Wilson, desaparecido este ano, com três filmes: dois seus, Stations e Video 50, e outro sobre uma produção teatral sua, Robert Wilson & the CIVIL warS, de Howard Brookner.
A secção Riscos continua a colocar a natureza contemporânea do cinema no centro da sua atenção, reunindo filmes produzidos entre 1896, de Gabriel Veyre, operador de câmara dos irmãos Lumière, ao 2025 de uma série de autores contemporâneos. A egípcia Hala Elkoussy é realizadora convidada, uma artista visual tornada cineasta cuja obra combina uma abordagem inventiva, política e poética. Outro destaque é Minh Quý Trương, cuja obra multifacetada reflecte a sua profunda ligação ao Vietname e ao seu povo. Tanto nas obras a solo como em colaboração com Nicolas Graux, Trương combina tradições de ficção, não-ficção, etnografia e ficção científica, construindo filmes de atenção e detalhe, onde a história, a memória e a materialidade do tempo presente se entrelaçam.
O Doclisboa e a Cinemateca Portuguesa apresentam uma retrospectiva dedicada a William Greaves (1926–2014), pioneiro do cinema documental e experimental afro-americano, co-programada pelo académico Scott MacDonald e por Luís Mendonça (Cinemateca Portuguesa, À Pala de Walsh)
A secção competitiva Verdes Anos ocupa um lugar especial na programação do Doclisboa, revelando novos talentos e nomes emergentes. A selecção reúne gestos cinematográficos que oscilam entre o íntimo e o político, onde o cinema se torna lugar de espera, de imaginação e de resistência, experimentando formas híbridas.
Destaque para o Nebulae, o espaço da indústria do Doclisboa, dedicado ao desenvolvimento do cinema independente e à promoção de novas colaborações, através de seminários, mesas-redondas, laboratórios de desenvolvimento, eventos de networking e apresentações de projectos. Regressa ainda o abcDoc, em parceria com o projecto educativo da Apordoc, comprometido com a promoção da educação pelo cinema, com actividades para o público infantil e juvenil, com foco principal no público escolar.
Podem consultar a programação completa em doclisboa.org. O Festival acontece de 16 a 26 de Outubro, em Lisboa. Vemo-nos lá.
- Alison Ellwood
- Amy Berg
- Ana Moreira
- Carlos Conceição
- Clay Tweel
- David Lynch
- Diogo Dória
- Eugène Green
- francis ford coppola
- Gabriel Veyre
- Hala Elkoussy
- Howard Brookner
- Isabella Rossellini
- João Arrais
- João Miller Guerra
- Jorge Silva Melo
- Kamal Aljafari
- Kevin Macdonald
- Kyle MacLachlan
- laura dern
- Laura Poitras
- Leonor Silveira
- Linus O'Brien
- Lucrecia Martel
- Luís Miguel Cintra
- Mark Obenhaus
- Michael Ogden
- Mike Figgis
- Minh Quý Trương
- Pedro Pinho
- Rita Azevedo Gomes
- Ross McElwee
- Rui Pedro Silva
- Salomé Lamas
- Sam Rice-Edwards
- Solveig Nordlund
- Stéphane Ghez
- Werner Herzog
- William Greaves


