A recta final do Festival de Cannes 2026 tem sido marcada por uma ambivalência crítica global. Títulos de cineastas de renome recebidos de forma indiferente nos primeiros dias de festival levaram a que uma expectativa acrescida acabasse por recair em propostas menos convencionais ou estabelecidas. Os quatro títulos deste quinto volume expressam não apenas essa esperança como a própria diversidade de um cinema em busca de identidade. Por outro lado, num ano em que vários filmes da competição oficial retratam histórias em contexto de guerra, ou onde a guerra está em pano de fundo, há ainda assim uma enorme diversidade de olhares, géneros e estilos que alimentam o debate em torno de uma interrogação maior por estes dias: afinal, de que filmes deve ser feito um grande Festival de Cinema?
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L’inconnue de Arthur Harari
Em Competição
Depois de ter escrito, juntamente com a companheira Justine Triet, o argumento de Anatomia de uma Queda, filme vencedor da Palma de Ouro em 2023, o regresso de Arthur Harari a Cannes suscitava naturalmente alguma curiosidade. A sinopse de L’inconnue também ajudava a aumentar o interesse pelo filme: a história de um fotógrafo tímido e recatado (Niels Schneider), que tem um encontro sexual com uma mulher (Léa Seydoux) e acorda no corpo dela. A premissa de uma entidade que habita o corpo dos parceiros sexuais coloca bem alta a fasquia, para tentarmos perceber como é que o realizador vai conseguir filmar esta narrativa sem cair no absurdo. A curiosidade está desfeita e fica a sensação de que Harari não conseguiu evitar a queda, mas conseguiu dividir o festival. O filme é um daqueles casos de ódio ou paixão. Para lá da sinopse inicial, Arthur Harari acrescenta outras vítimas e coloca as personagens em busca de uma explicação para aquilo que estão a sentir ou, se fizermos o esforço, em busca de perceberem quem são, afinal. É possível ver no filme uma parábola sobre a identidade, ou se o corpo que habitamos é a única possibilidade de afirmação dessa identidade. A discussão está na ordem do dia; é pena que Arthur Harari não tenha tentado fazer parte dela.
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Hope de Na Hong-Jin
Em Competição
Num ano em que o presidente do júri do Festival de Cannes é Park Chan-wook, a participação sul-coreana na competição oficial recolhe maiores atenções. Pensar na carreira de Park Chan-wook é lembrar filmes como Oldboy (Grande Prémio do Júri 2004), Thirst – Este é o Meu Sangue (Prémio do Júri 2009), Decisão de Partir (Prémio de Melhor Realizador 2022). Também fica para a história do Festival a Palma de Ouro atribuída a Bong Joon-ho, em 2019, por Parasitas, que viria a ser o vencedor dos Óscares no ano seguinte. É fácil concluir que o cinema sul-coreano conquistou um lugar de visibilidade no mundo inteiro e, claro, também na competição oficial de Cannes. No caso de Hope, talvez tenha existido uma vontade em manter a quota coreana na competição. O filme combina ação, ficção científica, extraterrestres, terror e comédia. A sessão de imprensa teve de tudo um pouco, desde quem abandonou a sala até quem recebeu o filme de forma entusiasta, com palmas e euforia. Quem se lembra das sessões tardias no Fantasporto há já alguns anos consegue identificar-se com esta descrição e talvez esboçar um sorriso nostálgico. Quem é assíduo do MOTELX deve ficar expectante para ver se esta novidade sul-coreana chega a Lisboa em breve. Depois há quem, como eu, ainda esteja a tentar encontrar motivos para o filme integrar a competição oficial, em vez de ter sido programado numa sessão especial de ante estreia. Mas há também quem já lhe tenha atribuído a Palma de Ouro 2026 e faça a defesa de que um festival de cinema pode e deve ser também uma montra para um cinema mais popular e descomprometido, de entretenimento e grande espetáculo. Sim, pode e deve. E Hope é tudo isso!
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La Bola Negra de Javier Calvo e Javier Ambrossi
Em Competição
Los Javis, assim é conhecida a dupla de realizadores espanhóis que é, nesta altura, um fenómeno da cultura pop audiovisual em Espanha. Javier Calvo e Javier Ambrossi têm feito um caminho muito bem-sucedido e premiado em séries televisivas. La Bola Negra é a segunda longa-metragem que assinam juntos e o resultado pode significar que ainda vamos ouvir falar muito deles em festivais internacionais. Um drama histórico que tenta captar pontos de conexão entre três personagens nos anos 1932, 1937 e 2017. O filme incorpora elementos reais, como a obra inacabada de Federico García Lorca, escritor e dramaturgo assassinado durante a Guerra Civil, para propor uma ficção sobre como teria sido escrita e como teria chegado até aos nossos dias, às mãos de um jovem dramaturgo de Madrid. Pelo meio, os Javis contam histórias de homens gay que reprimiram as suas emoções por outros homens, homens que não foram capazes de expor o que sentiam e homens atravessados nas suas vidas pela Guerra Civil. Os Javis ficcionam uma história inacabada e que estava perdida e, ao fazê-lo, não estão apenas a sublinhar a importância da obra literária, mas a refletir sobre o que ficou por dizer no passado e o que a herança desse silêncio ainda significa no presente. La Bola Negra tem produção da El Deseo de Pedro Almodóvar e os Javis aproveitam bem todos os meios que tiveram para trabalhar, sem evitarem o excesso, o melodrama, o humor e a força e o poder de histórias de amor em tempo de guerra. Seria uma Palma de Ouro popular e cativante, com um filme capaz de olhar ao passado para falar das questões do nosso tempo.
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Coward de Lukas Dhont
Em Competição
Foi também na reta final da programação do Festival que surgiu outro filme que aborda a ligação e o afeto entre soldados e que também é atravessado pela guerra. Em Coward, de Lukas Dhont, o contexto é o da Primeira Guerra Mundial, através do olhar de um jovem soldado, muito reservado e tímido, que vive um amor por outro soldado que, entre batalhas, é performer com a missão de entreter e motivar os rapazes que estão na linha da frente. O belga Lukas Dhont é um cineasta querido do Festival de Cannes, que acompanha a carreira do realizador desde a primeira longa-metragem, Girl: O Sonho de Lara (2018), com a qual venceu a Caméra d’Or atribuída a uma primeira obra. É um prémio que aponta para o futuro e que colocou Lukas Dhont no patamar dos cineastas que não queremos perder de vista. E nem foi preciso esperar muito pela segunda longa-metragem: Close integrou a competição oficial em 2022 e confirmou o talento do realizador ao vencer o Grande Prémio do Júri. Coward segue a mesma linha de interesse dos filmes anteriores: o cineasta belga quer trazer para o primeiro plano histórias queer, as quais filma com uma sensibilidade e cuidado muito particulares. Dhont constrói personagens com emoções à flor da pele, filma-as como se as pudéssemos ver, mesmo que os seus filmes abordem contextos em que os protagonistas sofrem as dores de reprimirem o que sentem. É o caso de Coward, um filme de rapazes na guerra que, além do inimigo, lutam com as suas pulsões mais verdadeiras e escondidas. Ao terceiro filme, Lukas Dhont poderá confrontar-se com o desafio de avaliar como evitar a repetição, quer da temática queer, quer da forma como a trabalha no cinema, mas vale a pena dizer que poucos, como ele, conseguem captar a representação do desejo e encantamento de uma forma tão bela.
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