Dias do Festival Cannes 2026, vol. IV – The Man I Love, Paper Tiger, Garance

O quarto volume da cobertura da Tribuna por Cannes leva-nos a descobrir os dois filmes americanos da competição oficial que arriscam cair no esquecimento e uma atriz em grande forma. Após o celebrado Peter Hujar’s Day, The Man I Love é a mais recente proposta de Ira Sachs. A contar com a representação do oscarizado Rami Malek no papel principal, Sachs regressa ao tema da SIDA nos anos 80 para conjugar uma Nova Iorque alternativa. Também na big apple, James Gray junta Adam Driver e Miles Teller para contar uma história de dois irmãos de Queens em busca do sonho americano em Paper Tiger. Por último, Garance, da realizadora francesa Jeanne Herry, lida com o alcoolismo de uma mulher pragmática (Adèle Exarchopoulos). A conferir, já a seguir.

 

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The Man I Love de Ira Sachs
Em Competição

O título do filme é retirado de uma canção composta por George Gershwin, ainda durante os anos 20 do século passado, interpretada desde então por inúmeros artistas tão díspares como Ella Fitzgerald ou Kate Bush e agora também pelo ator Rami Malek. No filme de Ira Sachs, ambientado em Nova Iorque nos anos 80, Malek é Jimmy, um artista homossexual, da cena cultural mais alternativa, que sofre de SIDA, numa altura em que pairava uma onda de homofobia dirigida à comunidade gay. The Man I Love é um filme para o ator brilhar com uma personagem que está no centro de todas as atenções. Jimmy está fragilizado pela doença, mas decidido a lutar; está a ensaiar um novo espetáculo, tem um companheiro apaixonado e protetor, e um jovem vizinho que está rendido ao seu carisma. Rami Malek cumpre todos os requisitos da personagem, acrescenta-lhes alguns maneirismos. Ira Sachs será talvez o realizador ideal para retratar este ambiente com elegância e fluidez, mas sentencia o filme a ficar refém de um universo de uma certa elite pretensiosa e underground de Nova Iorque.

 

Paper Tiger de James Gray
Em Competição

James Gray é um nome consolidado na indústria de cinema norte-americana, com um interesse evidente em histórias de comunidades de imigrantes, em especial a comunidade russa instalada em Nova Iorque. Paper Tiger, apresentado na competição oficial, volta ao mesmo universo para contar a história de dois irmãos (Adam Driver e Miles Teller), que nos anos oitenta vislumbram a concretização do sonho americano de ascensão financeira com a ideia de criar um serviço de consultoria para questões de proteção ambiental. Na altura, a zona ribeirinha de Queens, em Nova Iorque, estava abandonada e poluída, mas parecia suscitar interesse imobiliário. A ideia dos irmãos era totalmente pioneira e seria um negócio de futuro com alto potencial se os primeiros clientes não fossem mafiosos russos. Esta é a sexta vez que James Gray se apresenta na competição oficial de Cannes, depois de Armageddon Time (2022), A Emigrante (2013), Duplo Amor (2008), Nós Controlamos a Noite (2007) e Nas Teias da Corrupção (2000). Paper Tiger confirma a competência e solidez do realizador, mas não acrescenta muito mais; fica a faltar um rasgo de novidade e ousadia.

 

Garance de Jeanne Herry
Em Competição

O Festival de Cannes tem uma escala global, mas é, ao mesmo tempo, um evento que preza e acarinha as estrelas da casa, como Adèle Exarchopoulos, a atriz que em 2013, quando tinha 19 anos, recebeu uma Palma de Ouro partilhada com a atriz Léa Seydoux e o realizador tunisino Abdellatif Kechiche, pelo filme A Vida de Adèle. A decisão inédita foi assumida pelo júri (presidido por Steven Spielberg) como uma forma de reconhecer que o filme resultava de uma partilha criativa entre os três. Esse momento, que fez história no Festival de Cannes, volta à memória com a presença da atriz num dos filmes da competição oficial. Adèle é a protagonista de Garance, de Jeanne Herry, e também faz parte do elenco do filme Mariage Au Goût D’Orange, de Christophe Honoré, que passa fora de competição, na secção Cannes Première, e que também comprova o talento da atriz. Quanto a Garance, o título é o nome da personagem principal, interpretada por Adèle, uma jovem atriz que normaliza, na sua rotina, o consumo exagerado de álcool. Já vimos muitas vezes no cinema histórias de alcoolismo ou outras adições, mas Garance é, curiosamente, um filme de uma sobriedade pouco vista na abordagem deste tema delicado, tantas vezes representado entre tombos e tiques histriónicos. A Garance de Adèle Exarchopoulos não anda constantemente aos tropeções, nem se encara como vítima. Simplesmente, não consegue conceber a vida de todos os dias sem, pelo menos, dois litros de vinho. A realizadora Jeanne Herry aposta tudo na personagem principal e foi uma escolha muito certeira. Se o Festival de Cannes quiser voltar a premiar a atriz pelo trabalho de composição desta personagem, não estaria a exagerar, estaria a fazer justiça.