Ainda nos falta ver um dos três filmes espanhóis presentes em competição, mas, para já, as dores da criação artística ocupam lugar de destaque nos filmes de Pedro Almodóvar e Rodrigo Sorogoyen. Fora da competição há também um português a contribuir para a presença alargada de Espanha no Festival: Tiago Guedes com o filme Aquí, falado em castelhano. Continuamos, neste terceiro artigo, os nossos dias pelo festival de Cannes.
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El Ser Querido de Rodrigo Sorogoyen
Em Competição
Um cineasta tenta aproximar-se da filha, com quem não mantém contacto há vários anos, propondo-lhe que seja a atriz protagonista do filme que se prepara para fazer. O cinema como possibilidade de reparação de ruturas familiares está de volta a Cannes, com o filme El Ser Querido de Rodrigo Sorogoyen, depois de Valor Sentimental de Joachim Trier ter vencido, há um ano, o Grande Prémio do Festival. No caso de Sorogoyen, parece haver uma intenção de sair do espetro familiar para olhar em profundidade o próprio cinema e interrogar-se sobre qual o alcance que pode ter enquanto reparador de alguma coisa. Sorogoyen tem uma aspereza própria e uma carga quase visceral, como é exemplo o filme As Bestas, apresentado em Cannes fora de competição em 2022. As tensões entre vizinhos num contexto rural resultaram num filme intenso, singular na capacidade de construir uma narrativa em crescendo, em que desde muito cedo sabemos que algo irá explodir. Em El Ser Querido, também haverá uma explosão de energia e emoções, mas antes disso, logo no arranque do filme, Sorogoyen mostra a habilidade na construção de uma atmosfera de tensão. À mesa de um restaurante, Javier Bardem encontra-se com uma jovem interpretada por Victoria Luengo. Não sabemos ainda que relação têm as duas personagens, mas o diálogo entre os dois (20 minutos), com planos intercalados de um e outro, com a lente quase colada à pele, lembra-nos a mão segura e implacável de Sorogoyen no frente a frente de duas personagens. É neste diálogo que ficamos a saber que Javier Bardem, o pai cineasta de sucesso, deixou marcas na filha devido ao temperamento difícil e descontrolado. Ele nunca esteve verdadeiramente presente na vida da jovem e, quando o fez, estava sob efeito de álcool e drogas. Ela tem memórias de tudo isto. Ele insiste que essas memórias são uma fabricação e não se referem ao que de facto aconteceu. O momento é tenso, mas é só o prólogo para o que irá seguir-se. A jovem aceita a proposta do pai e, a partir daqui, Sorogoyen aproveita o filme dentro do filme para deixar muitas interrogações sobre o que é permitido em família, mas também no cinema; e se podemos normalizar comportamentos abusivos em nome do génio criativo ou da ligação de sangue? Javier Bardem, enquanto realizador decidido a usar todos os meios para fazer o filme que quer, adiciona mais um grande papel à sua carreira. A jovem Victoria Luengo, que aguenta todos os embates, pode estar a começar uma carreira internacional; ela que estamos a descobrir em dose dupla no Festival de Cannes, pois também participa no mais recente filme de Almodóvar, Amarga Navidad.
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Amarga Navidad de Pedro Almodóvar
Em Competição
As angústias de um artista à procura da sua próxima obra é um tema já tratado no cinema de Almodóvar, que está de volta à competição de Cannes pela sétima vez, ainda à procura da Palma de Ouro que lhe falta na carreira. E talvez por isso, o realizador espanhol tenha optado por um filme cauteloso, menos estridente e exuberante. Amarga Navidad volta ao processo criativo de um realizador de cinema, como acontecia em Dor e Glória, que o Festival de Cannes premiou em 2019, através do desempenho de Antonio Banderas e da banda sonora de Alberto Iglesias. Neste novo filme, o título em inglês “Bitter Christmas” situa a história na quadra festiva, que se revela mesmo muito amarga para algumas das personagens. Uma realizadora de cinema, que entretanto decidiu passar para a publicidade, vai parar ao hospital com uma crise aguda de enxaquecas e ataques de pânico. A amiga dela descobre que o marido tem um caso e afunda-se numa mágoa profunda. Um realizador de cinema está a escrever uma história que decalca episódios da vida real da sua assistente e amiga de longa data. E ela tirou um tempo de férias para se dedicar a uma amiga muito doente. O habitual emaranhado de narrativas do cinema de Almodóvar continua a ser uma marca muito evidente, assim como a estética, os planos cuidados, a elegância ou as cores. O que falta é alguma intensidade para que todas as histórias atinjam a dimensão do cinema a que o realizador nos habitou. Pedro Almodóvar está no domínio pleno da linguagem melodramática que criou, mas parece demasiado instalado no divã da terapia que, aparentemente, o cinema lhe consegue proporcionar. Amarga Navidad não evita a sensação amarga de ser uma repetição de algo que já vimos e arrisco dizer que a comparação com Dor e Glória deixa o novo filme muito abaixo da fasquia.
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Aquí de Tiago Guedes
Cannes Première
O realizador português Tiago Guedes regressou a Cannes, quatro anos depois de ter apresentado Restos do Vento, também fora de competição e, antes disso, em 2019, ter entrado na corrida à Palma de Ouro com A Herdade. Aquí é uma adaptação ao cinema da trilogia de Jesus, do escritor sul-africano J.M. Coetzee, que imagina as etapas da vida de David, um menino acolhido por Simón e Inés, num país onde todos são estrangeiros, chegam sem memórias do passado e prontos para um novo começo. São três livros, mais de 800 páginas e uma história contada entre a imaginação e a filosofia, e que aborda questões existenciais do nosso lugar no mundo, do modo como evoluímos, crescemos e morremos. J.M. Coetzee esteve na projeção do filme, numa sessão concorrida, e no final reagiu de forma calorosa à proposta difícil de Tiago Guedes. Ao longo de mais de três horas (que terão contribuído para algumas desistências na sessão em Cannes), o realizador recria um universo de tempo e espaços indefinidos para nos contar a jornada deste miúdo singular, que nos convida e desafia a olharmos o mundo e a vida, de forma muito particular. A rodagem do filme, decorreu em grande parte em Portugal, em décors que não são reconhecíveis, mas que dão a ideia de lugares gastos pelo uso e a passagem do tempo, e que servem o lado distópico da história sobre estrangeiros que chegam a um país que é o único reduto para começarem uma vida nova. Num elenco maioritariamente espanhol, destaca-se Alex Peláez, o mais novo dos dois atores que desempenham o papel de David. Albano Jerónimo, Rita Cabaço e João Pedro Vaz asseguram as participações portuguesas. Aquí é um filme corajoso ao abordar algumas questões difíceis de materializar, que são mais acessíveis quando se trata de folhear os livros e que talvez se tornem por vezes, difíceis demais para uma sessão de cinema. A receção em Cannes foi emotiva, serviu para dar confiança ao filme. Vamos ver como irá reagir o público em Portugal quando o filme chegar às salas perto do final do ano.
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