Dias do Festival Cannes 2026, vol.II – Fatherland, Gentle Monster, Soudain

Depois de um arranque a meio gás, começam finalmente a surgir os filmes que mostram a força do Festival de Cannes. Neste segundo volume da nossa cobertura, escrevemos sobre três dos títulos mais esperados na competição principal: Fatherland, de Paweł Pawlikowski, Gentle Monster, de Marie Kreutzer, e Soudain, de Ryusuke Hamaguchi. Este último, em particular, impõe-se desde já como um dos mais sérios candidatos à Palma de Ouro.

 

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Fatherland de Pawel Pawlikowski
Em Competição

Pawel Pawlikowski é atualmente foco de alguma curiosidade por ser dos poucos que insistem em continuar a filmar a preto e branco e tendo em conta, também, os prémios que tem vindo a colecionar. Ida foi distinguido com o Óscar de melhor filme estrangeiro em 2015. Guerra Fria foi um dos grandes filmes na competição oficial de Cannes em 2018, valeu-lhe a Palma de melhor realizador e, no ano seguinte, a proeza de conseguir 3 nomeações aos Óscares, incluindo melhor fotografia e novamente melhor realizador. O cinema do polaco é feito de um sentido estético apuradíssimo e uma grandeza que já vai sendo rara; por isso, a cada novo filme, a curiosidade mantém-se. Fatherland, que está na competição oficial, cumpre todas as expectativas. O filme situa-se em 1949, ano em que o escritor Thomas Mann (que tinha trocado a Alemanha pelos Estados Unidos em 1933) regressa ao seu país para ser homenageado. A viagem é o pretexto para Pawlikowski voltar aos fantasmas de um período conturbado da história da Alemanha e ao xadrez político da Guerra Fria. Thomas Mann, interpretado por Hanns Zischler, viaja acompanhado da filha (Sandra Hüller), num percurso pela Alemanha dividida, entre Frankfurt, que foi entregue aos americanos, até Weimar, no setor soviético. Na viagem, pai e filha deparam-se com um país em ruínas, a tentar recuperar dos horrores do nazismo, a tentar perceber qual o seu lugar no mundo depois da guerra. Há um desconforto permanente que nos afeta, há uma sensação de que não é possível ignorar tudo o que aconteceu, há um extremar de posições em cada um dos lados da Alemanha e essa é, eventualmente, uma sensação que perdura no tempo e prevalece até aos nossos dias, desencadeada por outros acontecimentos. Fatherland nem sempre consegue fazer valer a pertinência do que propõe, mas talvez o tempo e a distância do frenesim próprio de um festival como Cannes ajudem a consolidar o olhar do realizador e o efeito do filme. Desconfio que o passar do tempo, possa fazer crescer o número de estrelas no final do texto.

 

Gentle Monster de Marie Kreutzer
Em Competição

Um tema delicado, como é o caso da pedofilia, merece, eventualmente, um filme feito com pinças para não cair em lugares-comuns, ou ser apenas mais uma história difícil que nos provoca inquietação, mas não acrescenta. O tema do filme Gentle Monster é, no mínimo, desafiante, mas a cineasta austríaca Marie Kreutzer, vislumbrou uma possibilidade, dissecando as camadas em que nos podemos relacionar com a pedofilia. Em concreto, Marie Kreutzer coloca o assunto no casamento das personagens interpretadas por Léa Sedoux e Laurence Rupp. Ela é uma pianista que faz novas abordagens à música pop escrita por homens. Ele, um cineasta que tenta refazer o seu caminho depois de um grave esgotamento. O casal e o filho, ainda criança, trocam a cidade pelo campo, onde tudo parece mais fácil e a vida parece estar finalmente a descolar para a felicidade. E é neste contexto que se atravessa a suspeita e investigação em torno da acusação de pedofilia contra o marido e pai. No processo, a personagem de Léa Sedoux tenta sobreviver às ondas de choque provocadas pela possibilidade de o seu companheiro ser pedófilo e questiona de que forma pode amar ou conviver com aquele homem dali para a frente. Ao público é feito o convite para se colocar no lugar dela e refletir sobre o que faria numa situação semelhante, quantas verdades e mentiras seriam necessárias para lidar com uma situação de pedofilia. Marie Kreutzer não consegue evitar que o argumento se distraia com detalhes paralelos que parecem desnecessários, ou que forem apenas negligenciados nesta história mas, em todo o caso, consegue mesmo assim um filme perturbador, sem excessos nem histerias, e com Léa Sedoux a ser cada vez mais uma atriz de múltiplas camadas de um talento imenso.

 

 

Soudain de Ryûsuke Hamaguchi
Em Competição

Com uma história passada entre a França e o Japão, Soudain é a primeira experiência de Ryûsuke Hamaguchi falada em francês, com inserção de partes de diálogos em japonês e até em inglês. E os diálogos, no caso deste filme, são a ferramenta de trabalho do realizador. O filme coloca Virginie Efira como diretora de uma residência para idosos, onde tenta aplicar um modelo de acompanhamento baseado na Humanidade. Na prática, um modelo mais próximo e empático, que estimula e integra em vez de ser apenas paliativo. Mas este modelo, que ela apresenta como o melhor para lidar com as fragilidades do envelhecimento, emperra na engrenagem do capitalismo, onde tudo é pensado para ser financeiramente viável. A personagem é eloquente e apaixonada na defesa daquilo em que acredita e vai cruzar-se com uma jovem encenadora japonesa que enfrenta um cancro terminal. O envelhecimento e a doença estão presentes, mas não contaminam o filme; em vez disso, Hamaguchi devolve-nos vida e beleza, através do encontro das duas personagens e da forma como anseiam pelo futuro. Soudain é um filme que se prolonga, que se deixa embalar pelas conversas, mesmo que em alguns momentos pareça focar-se demasiado na explicação de como funcionam as instituições, mas apenas para que possamos perceber como lidar com as frustrações que o sistema nos pode provocar. Apesar de todas as reservas que a duração do filme possa suscitar (mais de 3 horas), Hamaguchi tem a capacidade de gerar na plateia um certo encantamento sobre o que significa cuidar, acompanhar e sentir empatia e ternura. É um belo momento de cinema. O cinema de Hamaguchi parece cada vez mais ter a capacidade de nos fazer parar e apreciar os detalhes e silêncios, como aconteceu com Drive My Car (melhor argumento em Cannes 2021; 4 nomeações aos Óscares em 2022, vencedor na categoria de melhor filme internacional) que se revelou capaz de reunir o consenso entre a crítica e o público, com uma história sobre o luto. Agora, em Soudain, mesmo que a morte esteja sempre presente, é a ideia de vida e o que podemos (ainda) fazer por ela, que toma conta do filme.