O filme vencedor do Grande Prémio no último LEFFEST, onde Hal Hartley foi homenageado com uma retrospectiva da sua obra, estreia Where To Land (“Onde Aterrar”) nas salas de cinema portuguesas. Um dos heróis do cinema independente americano dos anos 90 regressa agora às salas portuguesas para mais uma comédia autoral, digna do seu tempo, e que pode ser, para alguns, um dos filmes do ano. Procurando uma vida mais tranquila e uma maior proximidade com a natureza, Joseph Fulton, um realizador aposentado, candidata-se a um emprego como assistente de jardineiro num cemitério local… As críticas são de Bruno Victorino e David Bernardino.
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O sexagenário cineasta norte-americano, uma das figuras centrais do cinema independente das décadas de 80 e 90, regressa ao cinema após mais de uma década de ausência desde o seu último filme. Where to Land acompanha Joseph Fulton (Bill Sage), um realizador de comédias românticas com idade próxima da de Hartley, que decide trabalhar como jardineiro no cemitério local e começa a tratar do seu testamento, apesar de se encontrar de perfeita saúde.
É a partir desta premissa insólita que Hartley reafirma o seu estilo característico, construindo um filme povoado por personagens idiossincráticas e por uma sucessão de diálogos filosóficos, mais ou menos existencialistas, sempre atravessados por um marcado cunho autobiográfico e metalinguístico. Com excepção do personagem do alegado filho “bastardo” de Joseph e do amigo, cuja presença roça o irritante, o realizador revela um talento particular para compor um mosaico singular de personagens secundárias, que encontra o seu ponto de convergência na cena final, quando todas se reúnem no apartamento do protagonista.
Se Where to Land pode ser acusado de uma abordagem excessivamente conceptual, fruto das constantes divagações sobre os mistérios da vida, a verdade é que Hal Hartley constrói uma narrativa que se adequa plenamente a esse propósito, equilibrando com sucesso a comédia absurdista com reflexões sobre onde, como e até que ponto podemos controlar o lugar onde, por fim, iremos aterrar.
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Bruno Victorino

Onze anos depois de Ned Rifle, Hal Hartley, para muitos um dos grandes autores do cinema indie norte americano dos anos 90 (The Unbelievable Truth, sua primeira longa, é de 1989), está finalmente de regresso com Where to Land. Uma das coisas mais curiosas de Where to Land é verificar que, além das evidentes evoluções técnicas que se notam sobretudo pela lente da câmara, Hartley parece nunca ter deixado mesmo de ser esse realizador de micro escala por convicção e cunho autoral, mesmo com 66 anos. Particularmente se pensarmos que a praia do realizador é a comédia romântica, género quase morto nos dias que correr, e que Hartley aqui assina como se estivesse ainda em 1989.
Seguindo o seu estilo, Hartley monta a sua estrutura cruzada de personagens secundárias, todas bem trabalhadas, à volta do protagonista interpretado por Bill Sage, um realizador chamado Joe Fulton (aqui insere-se a habitual e eventual nota autobiográfica) precisamente de comédias românticas, cujo tempo já lá vai, que decide candidatar-se a trabalhar num cemitério enquanto prepara também o seu testamento. Tal como em The Unbelievable Truth ninguém se lembrava exactamente do crime que o protagonista Josh, recém saído da prisão, tinha cometido, também em Where to Land a comédia dos boatos e do passa a palavra é acelerador narrativo central: Joe Fulton só pode estar a morrer.
Com uma caneta escorreita, Hartley escreve diálogos como ninguém, construindo e dando personalidade a todas as personagens, desde a namorada actriz e modelo mais nova, à ex-mulher interpretada por Edie Falco, passando pelo zelador do cemitério (regresso de John Robert Burke), a sobrinha cuidadora, a advogada, os vizinhos, o miúdo que pode ser seu filho (e sonha ser realizador). Ciente da sua meta-linguagem, a comédia circunstancial e os gags pontuam o filme com um tom deadpan seco e impassível, por vezes negro, apuradíssimo capaz de deixar o espectador constrangido pela sua vontade de gargalhar, num bom sentido. Ao longo de todo o argumento Hartley faz também uso de um subtexto político existencialista mais ousado e directo, menos comum nos anos 90, mas em vez de ensinar o espectador, o realizador/argumentista está perfeitamente ciente das rotundas e fragilidades do pensamento das suas personagens, tornando-se inesperadamente, na verdade, num dos mais interessantes olhares para determinadas questões sociais que insistem, como é natural, em estar presentes no cinema contemporâneo em redor de 2025.
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David Bernardino



