Críticas a Weapons, de Zach Cregger

EquipaAgosto 13, 2025

Zach Cregger, novo menino querido do terror “independente” americano desde o fenómeno Barbarian, chega às salas com Weapons (“Hora do Desaparecimento“). O novo filme parece estar a recolher novamente consenso positivo entre público e crítica, que o apelidam de refrescante e um excelente exemplar de género. Na Tribuna os fãs de terror, Carla Rodrigues e David Bernardino, e os talvez mais rigorosos, Miguel Allen e Hugo Dinis, foram ver e trazem as suas diferentes visões, num novo desfilar de estrelas.

Certa noite, um grupo de miúdos, 17 dos 18 alunos da professora Justine Gandy (Julia Garner), desapareceu, sem deixar rasto, exactamente à mesma hora. Porque é que isto aconteceu? Porque é que só uma criança ficou para trás? São estas as perguntas a que a própria, os familiares dos miúdos e o resto da comunidade em que se inserem terão de responder.

 

Weapons é daqueles filmes que funcionam tanto melhor quanto menos se souber à partida. Tal como Barbarian, o banger anterior de Zach Cregger, vive da surpresa. Não de um plot twist barato, mas de uma interrogação profunda e constante que nos deixa boa parte do tempo a tentar perceber o que raio está a acontecer. Para não estragar nada, fica aqui só a premissa, simples, mas inquietante: numa pequena cidade americana, 17 crianças da mesma turma desaparecem a meio da noite. Ninguém sabe para onde foram. As câmaras de vigilância das casas mostram as crianças a correr pelo relvado no meio do breu, mas não revelam o destino, nem o motivo. É um enigma puro. Os pais exigem respostas, a escola tenta gerir o caos e a polícia não sabe bem para onde se virar.

O que se segue é um híbrido difícil de classificar: parte filme de terror, parte Flautista de Hamelin, parte Rashomon e parte comédia negra. Com tanta coisa à mistura, seria fácil o filme falhar, se estivesse nas mãos de um realizador menos confiante dentro do género. Mas Zach Cregger põe ordem na casa e o resultado é um filme que, goste-se ou odeie-se, é único.

O elenco está bem afinado. Há química, há presença, há entrega a esta bizarria. Fica uma nota especial para Austin Abrams, um alumni de Euphoria ainda sem grande experiência no grande ecrã. Demorei um bom bocado a reconhecê-lo e, quando percebi, já estava rendida a este papel que, com grande probabilidade, lhe vai abrir portas no futuro. Já a fotografia de Larkin Seiple é um presente para quem gosta de cinema com olho: câmaras que se movem devagar, cada enquadramento pensado ao milímetro: o canto de uma sala, a esquina de uma rua típica da suburbia americana, ou o corredor de uma loja são filmados de forma a parecerem familiares e ao mesmo tempo sinistros. A luz obriga-nos a olhar para sítios onde não devíamos e deixa espaço para o que não vemos, mas sentimos.

E sim, são mais de duas horas, mas passam a correr (como os miúdos). Fica-se agarrado quanto mais se vai mergulhando neste universo estranho, hilariante e perturbador. É verdade que há alguma exposition dump perto do fim, mas não é suficiente para quebrar o encanto. Até porque o clímax atira o filme para um patamar quase mítico. Diria que Weapons não é bem um filme de terror, apesar do que o marketing possa sugerir. Dei por mim a rir-me mais do que em muitas comédias, mas também fiquei com os pelos dos braços em pé um par de vezes. É desconfortável, inesperadamente divertido, criativo. Sente-se como um conto de fadas moderno, cheio de alegorias e camadas que é muito satisfatório ir descascando depois de os créditos subirem. O interesse não se esgota atrás das portas do cinema.

Carla Rodrigues

 

Zach Cregger tornou-se nome sonante com o explosivo Barbarian, que fazia do plot twist narrativo, e plot twist de género de uma forma geral, a sua principal arma. Esse efeito, em busca da surpresa e do choque, e do medo pelo total desconhecido (o que se esconderá dentro da cave de Barbarian?) foram algo de particularmente eficaz. A isso juntam-se obviamente as belas metáforas sociais inseridas de forma divertida e curiosa, e não pretensiosa ou moralista (o vilão é afinal apenas uma mulher extremamente “feia” e “horny”?). A linguagem camp da série B americana também foi um toque de belo efeito. Tudo isso, mais ou menos, é replicado por Cregger em Weapons. Weapons começa como um filme de terror “normal”, crianças de uma comunidade suburbana que às 2h17 saíram de suas casas em direcção ao escuro, uma premissa intrigante, à Stephen King. O problema, como sempre, é o que fazer com essa premissa. Cregger divide assim o fio narrativo contando a “história” de vários pontos de vista, iniciando-se com atmosfera, jump scares do horror contemporâneo clássico, assentes numa interpretação personalizada de Julia Garner, e um por demais carismático Josh Brolin, como não podia deixar de ser. O plot twist de género começa então a desenhar-se, do terror ao bizarro, passando pela feitiçaria, até abraçar, enfim a comédia. Esse rali multi-género divertido será a maior força de Weapons. O que poderia ser apenas um sólido filme de terror floresce de forma descomprometida para um “fuck you” ao espectador que o desejar abraçar, e é difícil não o abraçar. A looney-tunização da sequência final, que salta sem qualquer rede de apoio do gore zombieficado para a comédia slapstick será o remate final que suscita o interesse e personalidade do filme. É delicioso e demonstra, como é raro, que é possível ser original, interessante e bom ao mesmo tempo.

David Bernardino

 

Um pouco como em Barbarian (2022), se em Weapons partimos de uma imagem relativamente simples, o filme funciona sempre pela sistemática complicação – bem mais do que “complexificação” – de qualquer ideia narrativa e/ou formal que Cregger aqui proponha. Pretenso Magnolia (PTA) em horror contemporâneo, a trama é cuidadosamente arrumada e desenvolvida a partir do percurso individual de seis personagens. Em Maybrook, Pennsylvania, passaram-se trinta dias desde o desaparecimento das suas casas, a uma hora precisa durante a noite, de dezassete crianças de uma mesma sala de classe. A brincar às escuras (porque levados pela canção de George Harrison), ou observando aquelas figuras adultas sem rosto que, confusas, discutem entre si algo que não compreendem, o filme interessa-nos, na sua introdução, pelo seu relato infantil, inocente, de um acontecimento tanto estranho quanto estranhamente encantador. De seguida, e à medida que passamos de personagem em personagem, serão as crianças – tanto ausentes como repetidas, e repetidas através daqueles espectrais vídeos de segurança – que tentaremos compreender.

O filme parece dispor de um campo dramático particularmente amplo, dada a sua estrutura narrativa e pelas diferentes tonalidades de registo que cedo propõe, mas o conceito cinematográfico de Weapons será sempre um pouco como a carta desenhada por Archer (Josh Brolin): linhas individuais traçadas sobre o plano de uma cidade, onde as intersecções parecem acontecer por inesperada casualidade. Trata-se afinal aqui de uma ideia “original” que alonga um filme mas não lhe confere uma identidade essencial. As nossos interrogações pontuais vêem-se sistematicamente confortadas pelas respostas apresentadas no capítulo que se segue, mas o artifício narrativo parece sobretudo replicar a estrutura de uma série televisiva e não tanto o mosaico cinematográfico que se ambiciona.

Na verdade, por muito que se aborde, desde cedo, esse luto (ou incompreensão) que aquele extenso grupo de pessoas deve enfrentar, não subsiste aqui a simples noção de uma comunidade, num lugar. Mesmo a ideia de que dezassete lares teriam visto as suas crianças desaparecer a meio de uma noite acaba por ser uma nota de rodapé num filme que é, todo ele, feito de maiores ou menores notas de rodapé. À medida que tudo se vai “contando”, o filme avança afinal pela progressiva decomposição dos seus valores. Do mistério inicial à necessária catarse final, passando por aqueles “sonhos” demasiadamente inconclusivos, nada aqui parece mover Cregger quando (já) não cumpre o efeito quase mecânico de chocar ou assustar.

É um cinema de short attention span, sempre a saltitar de propósito em propósito. O ritmo vital, efectivamente, está quase sempre lá, a execução é criativa, e Cregger interessa-se, frequentemente, por imagens verdadeiramente aterradoras (tudo o que se passa naquela cave, por exemplo). Mas pelo final, por tanto que se exponencie, pelo delírio, o potencial cómico de todas aquelas histórias, não deixa de nos pasmar a falta de enlevo sentimental da resolução deste filme. Não existe uma qualquer redenção possível, porque Cregger não parece saber onde queria chegar e, muito menos, onde de facto chegou. Se Weapons parece então sofrer do problema recorrente de um filme de suspense, que mais ou menos perde o sentido quando as coisas começam, enfim, a fazer sentido, o problema é aqui consideravelmente mais complexo. Sem jamais abdicar do “elemento-surpresa”, Cregger relança sucessivamente o seu filme a partir de um encadeamento infernal de revelações inesperadas ou eventos cada vez mais inusitados. Do Weapons em inglês, ao “Evanouis (“dissipados”) em França, ou à “Hora do Desaparecimento” portuguesa, subsiste a notória falta de consciência própria de um filme cujas soluções narrativas relembram aquelas desculpas esfarrapadas que inventávamos na escola para um trabalho de casa que tínhamos esquecido.

Miguel Allen

 

Num mundo de crescente sofisticação em torno do formato do terror independente americano, filmes como Weapons são, a muitos títulos, representativos da natureza da examinação colectiva nele inserida nos dias que correm. Ao passo que cineastas como Osgood Perkins, por exemplo, encaminham a sua exploração pelo formato do policial, Zach Cregger socorre-se da dinâmica urbana e suburbana para encaixar um comentário geral ao securitarismo americano. Contudo, ainda que Barbarian tenha pecado pela limitação na execução do seu conceito, não deixou de se apresentar como uma interessante proposta de estreia, em particular pelo voluntarismo que mostrou na procura de imprevisibilidade narrativa. Ora, esse não é o caso em Weapons, desde logo um trabalho muito mais amarrado e circunscrito às suas inspirações que Barbarian. Na verdade, a pervasividade dos stephen-kinguismos em torno de Weapons é complicada de ignorar em qualquer ponto de vista. Cregger faz uso de uma premissa impactante para se empoleirar numa ambição narrativa que não consegue concretizar.

Posicionando o espectador no rescaldo do desaparecimento das crianças de uma sala de aula do subúrbio americano, Weapons propõe uma elaborada rede de ligações em torno das personagens próximas do caso. Cregger convida-nos a seguir a professora, o pai, o director, o polícia de serviço, o colega de turma, ou até o delinquente do bairro. Admira-se a ambição, mas toda esta ginástica narrativa apenas contribui para o sentido de vazio que nos surge instintivamente aquando da resolução da sua premissa. A noção de utilização e apoderamento infantil é acompanhada por uma não particularmente subtil consideração moralística em relação aos adultos da história. Subjacente aos pânicos de Cregger, está uma ideia muito mais de julgamento do que de compreensão da natureza humana em Weapons. O medo manipulativo faz uso de um carácter definitivamente insidioso por parte das motivações da fonte maléfica, mas falta a Cregger um toque muito mais leve e menos facilitista na condução dos procedimentos. Ao construir uma sociedade devorada mais pela raiva da incerteza do que pela dor do desaparecimento das crianças, Weapons coloca-nos sempre no precipício de um deflagrar violento inevitável, mas que evita verdadeiramente desenvolver as personagens que convoca.

Hugo Dinis