Críticas a Urchin, de Harris Dickinson

EquipaDezembro 1, 2025

Estreia da primeira longa-metragem de Harris Dickinson enquanto realizador, após passagem pelo último Leffest. Urchin é um filme ancorado no realismo social britânico, um olhar atento sobre o percurso de reintegração de um jovem sem-abrigo à beira do abismo. Em Londres, Mike (Frank Dillane) percorre as ruas em busca de alguns trocos. Após ser preso por roubo com agressão, regressa determinado a tornar-se um novo homem. Três críticas ao filme.

 

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Interessante a visão e identidade de Harris Dickinson na sua primeira aventura na realização de uma longa-metragem. Algures entre o realismo social britânico e a ficção, Urchin encontra a sua textura nesse dilema entre a crueza do realismo e as aventuras e desventuras em jeito de tragicomédia do seu protagonista Mike, interpretado por Frank Dillane, um sem abrigo de passado desconhecido reinserido socialmente em Londres após cumprir uma curta pena de prisão. Perseguindo essa ideia de realismo, Dickinson recusa ao espectador conhecer mais sobre Mike além do que é mostrado na tela. O protagonista nunca se expressa de forma frontal, não conhecemos a sua história ou motivações, o que funciona, sendo depois equilibrado pela tal ficcionalização da sua história. Urchin move-se bem na corda bamba, mas o mérito será sobretudo de Frank Dillane que empresta ao filme uma interpretação francamente superior. O actor, através da sua presença e linguagem sobretudo física, incorpora um poderoso retrato de um ex-toxicodependente sem rumo ou capacidade de organização, a quem a vida prega constantes partidas. O final, talvez demasiado explícito apesar da sua pretensa ambiguidade, contrasta com outras imagens poderosas vistas ao longo do filme. O resultado, apesar de desajeitado e pouco coeso, é um filme de raro interesse artístico que não se esgota na sua temática política ou social.

David Bernardino

 

Para a nova geração de realizadores britânicos na órbita do realismo social, a referência de Mike Leigh é quase soberana. Este Urchin, primeiro trabalho de Harris Dickinson enquanto realizador, traduz-se numa homenagem a Naked, de Leigh, desta feita com Frank Dillane no papel de David Thewlis. Ainda assim, há diferenças assinaláveis a registar na abordagem dos dois. Em primeiro lugar, e o mais evidente, o argumento de Dickinson é temporalmente bastante mais abrangente, fazendo questão de colocar Dillane no contexto de uma jornada de redenção que abrange um número apreciável de altos e baixos. Esta escolha reflecte-se até na forma como Dickinson encadeia os diferentes episódios que levam Dillane ao precipício entre a prisão e a toxicodependência. Passo a passo, de forma muito mais estruturada que Leigh, vemos o protagonista de Dickinson a saltar de trabalho temporário em trabalho temporário em busca de uma sensação de pertença que não parece propriamente estar alguma vez ao seu alcance. Por outro lado, a necessidade estrutural de Urchin também acaba por colocar a nu a sensação de acomodação da parte de Dickinson. Não sentimos uma verdadeira espiral em desenvolvimento, mas antes um simples encadeamento de situações episódicas. Em retrospectiva, diz Dillane, muito do que aparece em Urchin terá partido de improvisação. Mas a abordagem de Dickinson retira consideravelmente boa parte do que poderia fornecer uma real sensação de desespero ao espectador. Em parte, essa escolha também desenvolve a rejeição da faceta niilista da jornada de Dillane.

As suas desventuras são frequentemente contadas com recurso a artifícios humorísticos que nem sempre resultam mas impõem um tom bem mais leve do que o negrito de Leigh. Mas essa escuridão em Leigh também se reflecte na forma como este usa a raiva e a agressividade dos seus protagonistas para evidenciar a humanidade de todos os outros em seu redor. Não é isso que acontece aqui. Não quero com isso argumentar que Dickinson deveria ter apostado numa mera fotocópia de um qualquer filme que lhe tenha servido de inspiração. Contudo, as ideias que servem de base ao seu registo de estreia convocam muito mais o contrário daquilo que parecem ter como intenção. Dillane é ilustrado de forma repelente perante o humanismo compreensivo de uma sociedade na qual aparenta não ter lugar. Com efeito, até quando parece ter encontrado felicidade nas margens dela, no contexto de uma pequena comunidade de hippies, a sua aversão é ainda mais pronunciada. Nem de propósito, o miserabilismo que lhe rodeia só parece ter apenas um destino final ditado à partida, independentemente das intenções que demonstra. Um negrume mais fatal que o destino que é colocado perante a ingenuidade de uma sequência final de inspiração onírica e construção tosca. Urchin não é, ainda assim, um registo inteiramente desprovido de atractivos para o contexto de um filme de estreia. Dillane, ainda que infeliz como escolha de casting, entrega-se ao papel de vagabundo com um desprendimento e um grau de fisicalidade assinaláveis na sua performance. Em última análise, sente dificuldade em impor-se enquanto trabalho coerente à luz de uma mensagem pouco graciosa e humanista, mas pisca o olho a qualquer coisa de universal no cinema de realismo social.

Hugo Dinis

 

A imagem importante do filme é a da gruta, mais bem-conseguida do que a sequência final. Não há nada que nos diga, é muda, profunda e milenar. Esta imagem existe, no entanto, no centro da consciência de Mike, e é-lhe perene, e insondável, e múltipla, e apenas lá seria possível um fim ao movimento da sua vida e da sua adição, como acontece junto das árvores, quando estas somam centenas de anos. Mike saberá isto, a um nível pré-consciente, e é a uma “gruta interior” que tenta aceder com as cassetes de meditação que começa a ouvir depois de sair de uma prisão de oito meses, nos inícios de uma nova e promissora etapa em que está no “banco do condutor” da sua vida, enquanto beneficiário de um programa de reabilitação social do governo britânico que lhe fornece alojamento e emprego.

No entanto, é este “Conhece-te a ti mesmo”, essencial, que o silêncio de uma gruta comanda e que um fim a uma vida marginal exige, que lhe é impossível. É por isso que, na cena de mediação onde o programa social coloca Michael em contacto com o homem que agrediu e assaltou, com vista a um entendimento e a uma sua reintegração moral, esta é precisamente uma experiência que não conseguiu integrar, e é um encontro condenado à partida, que reprime, que o lança na direcção de um regresso ao seu traço (e aos seus traços, em pó): exactamente ao estado em que voltaria a cometer agressão e a roubar. Estará sempre vedado a Mike compreender alguma coisa disto em relação a si próprio, da mesma forma que a compreensão de uma gruta nos está vedada, formação geológica, como quase todas, inescrutável, por natureza.

Rafael Fonseca