Presença habitual na corrida pela Palma de Ouro no Festival de Cannes, Sergei Loznitsa voltou ao certame no ano de 2025 para apresentar Two Prosecutors. Sete anos depois de Donbass (2018), o realizador ucraniano de origem bielorrussa regressa ao registo dramático após ganhar reconhecimento no mundo do documentário, com títulos como The Invasion (2024) ou State Funeral (2019). Two Prosecutors conta, assim, a história de um jovem procurador que se depara com um relato de tortura numa prisão local por parte de elementos da polícia secreta soviética (NKVD) no auge da repressão Estalinista. A sua investigação leva-o a denunciar o caso às mais altas patentes do sistema. Paulo Ventura, Hugo Dinis e Pedro Bastos Oliveira foram conferir e assinam as críticas a este Two Prosecutors.
*

Lento, monótono e sem qualquer intenção de facilitar a experiência daqueles que procuram um cinema mais histérico e estridente, Two Prosecutors revela-se deliberadamente maçador, tanto na sua linguagem visual como na rigidez emocional dos seus personagens. Situado em pleno Grande Terror de 1937, o filme não só se apresenta como um retrato da União Soviética de Josef Stalin, mas também como um ponto de partida para uma leitura que projeta o presente sobre o passado, convocando paralelismos com regimes autoritários contemporâneos, nomeadamente com a Rússia de Vladimir Putin. Trata-se de uma representação da URSS claramente assente na visão política do próprio realizador ucraniano Sergei Loznitsa, marcada por uma atmosfera de opressão, suspeita e medo, onde a memória da revolução já se encontra distante, progressivamente diluída nos corredores burocráticos do Estado e na gradual deformação de uma ideologia.
O enredo, direto e de certa forma inconsequente, mantém-se fiel e próximo da sua premissa, construindo-se sobretudo a partir da ingenuidade do protagonista, Kornev (Aleksandr Kuznetsov), um jovem procurador ainda crente na justiça soviética. Este idealismo ainda intacto leva-o a carregar a breve, mas árdua missão de denunciar a corrupção e o abuso de poder dentro da polícia secreta soviética (NKVD), por entre os labirintos institucionais das prisões e procuradorias, numa constante atmosfera de morosidade administrativa, em que a lentidão do próprio processo narrativo espelha, de forma quase literal, o peso metódico da burocracia e a inacessibilidade da máquina estatal, fechada sobre os seus próprios interesses.
Assim, Two Prosecutors assume-se como frio, uniforme e sem grande vontade de expansão para lá da sua própria rigidez formal. Marcado por uma câmara praticamente inerte que observa os acontecimentos e as personagens sem grande desejo de acompanhar os seus movimentos ou gestos, o filme constrói-se com uma realização de contornos simples – na base de planos fixos, campo e contra-campo – enquanto a fotografia reforça essa economia visual através de uma paleta tonal reduzida e deliberadamente inexpressiva. Ainda que austera, esta abordagem estética contribui para uma experiência que reflete a densidade opressiva da burocracia e a impenetrabilidade dos processos administrativos. É uma decisão ousada e que garante a coerência da obra como um todo, mas que acaba, no entanto, por exigir um esforço acrescido do espectador e da sua eventual imunidade ao tédio. Na procura por representar uma demonstração de tenacidade que confronta a autoridade burocrática do Estado, Two Prosecutors acaba por impor essa mesma tenacidade ao próprio espectador, arriscando alienar aqueles cuja paciência não acompanhe a monotonia que a obra abraça.
A conclusão narrativa não se mostra surpreendente e pode até ser considerada previsível. No entanto, essa previsibilidade não diminui o seu impacto; muito pelo contrário, reforça a sua intenção. O que permanece é a sensação de um esforço desproporcional conduzido em direção a uma resolução amarga que, apesar de poder frustrar o espectador mais esperançoso, sublinha o gesto crítico do filme.
![]()
Paulo Ventura

Ao longo dos últimos anos, e em particular após a invasão russa da Ucrânia, o cinema de Sergei Loznitsa tem vindo a ser alvo de redobrada atenção. O cerne do seu ethos de trabalho centra-se fundamentalmente na questão da moralidade das máquinas do Estado, seja por intermédio do documentário (em melhor plano no memorável Funeral de Estado) ou da estrutura dramática e satírica (como em Donbass, por exemplo). O que nunca sobra a Loznitsa é a clareza temática. Raramente abandonamos a sala sem uma concepção transparente do que procura atingir com o seu cinema. Este é um mecanismo que funciona quer a seu favor quer contra, como neste Two Prosecutors. Colocando o espectador a par dos esforços de uma roda dentada que crê na bondade do sistema e na possibilidade da reforma das suas ervas daninhas, a trama centra o procurador Kornev (Aleksandr Kuznetsov) em sucessivas conversas que põem a nu a crueza do regime Estalinista em 1937.
A busca de Kornev por justiça face aos relatos de tortura nas prisões do seu condado leva-o a bater de frente com as inúmeras barreiras burocráticas do sistema. A sua conversa com um prisioneiro que relata detalhadamente a forma como o seu tratamento pelos oficiais locais da polícia secreta constitui uma traição aos ideais da revolução é sistematicamente obstaculizada pela intervenção expedita quer do director da prisão quer dos seus oficiais. Loznitsa filma as evidências ao detalhe, na fé da ignorância do espectador face a eles, mas sobretudo com vista à criação de um efeito entorpecedor junto dele. Afinal, estes mecanismos de poder recriam o regime, mais do que qualquer relato que se possa fazer dos seus abusos. O que esta abordagem também garante é o despojamento de grande parte do conteúdo cinematográfico subjacente a Two Prosecutors. Sabemos que os esforços de Kornev estão condenados à partida, mas as conversas que vai mantendo com aqueles que contacta acabam por ter um propósito mais didáctico que propriamente fílmico.
Two Prosecutors encontra-se fundamentalmente descrito em duas conversas na qual Kornev se assume como elemento coadjuvante. A primeira, com um prisioneiro marcado pela força punitiva do regime (Aleksandr Filippenko), e a segunda, com o procurador geral (Anatoliy Belyy) que o acolhe, a muito custo protocolar, para relatar as denúncias do primeiro entrevistado. A ligação entre as duas cenas é marcada pelo absurdismo humorístico caracteristicamente soviético em torno do homem comum, mas também do lugar comum. É impossível não ouvir grande parte das interacções de Kornev, quer com as peças do regime quer com os cidadãos que o suportam, e não sair com a sensação que está a ser filmado um compósito do anedotário popular. Se estas pessoas são reais, a sua individualidade é maioritariamente negada por uma construção fílmica que coloca na denúncia do regime o seu foco singular.
![]()
Hugo Dinis

Sergei Loznitsa é um dos poucos realizadores contemporâneos premiado no documentário e na ficção. Embora estilisticamente diferentes, centram-se na mesma temática: a reconstituição histórica, ou o cinema como veículo para a verdade. Nos documentários, o realizador junta várias imagens-arquivo de um determinado acontecimento que, conjugado com o trabalho de som, dá a entender ao espectador que o realizador esteve lá, naquele momento a filmar – seja o funeral de Estaline, ou o cerco de Leningrado. Em Two Prosecutors, a história centra-se em Aleksander, um jovem procurador que tenta denunciar os crimes do Terror Estalinista, recuperando atos hediondos deste período.
Neste filme, temos o privilégio de assistir a um trabalho de época europeu, que, devido aos seus orçamentos reduzidos, é obrigado a focalizar a suas ideias em poucos décores, atores e situações – algo que Two Prosecutors beneficia, divido em 3 partes distintas, com longas cenas em cada um dos locais apresentados: uma prisão, a procuradoria e um comboio. Assistimos à História do Terror Estalinista, num estilo visualmente naturalista, mas dramaticamente absurdo. Este momento histórico – o tempo de purgas nos aparelhos de estado da União Soviética – é amplamente conhecido. O interesse cinematográfico desta obra consiste em mostrar personagens que acreditam na residualidade dos perpetuadores das purgas, nunca duvidando de um sistema inerentemente corrompido. O espectador treme pelo protagonista, um jovem procurador no meio de velhos instalados, que, com idealismo e crença, pensa estar a denunciar uma prática anti-revolucionária, quando será ele próprio – obviamente – considerado anti-revolucionário. A tensão do filme reside no contraste entre este “obviamente” e as ações do personagem, que tenta denunciar um crime aos próprios criminosos (uma situação que relembra-nos o melhor de Kafka).
A realização de Loznitsa é contida, apostando em cenas duradouras (particularmente eficaz no interrogatório na prisão), os cenários naturalistas, quase minimais, onde o poder das personagens é medido pelo tamanho das secretarias e os ornamentos que nela pousam. Ficam na memória os corredores labirínticos da Procuradoria, ocupados de burocratas anónimos, as altíssimas portas de madeira com apenas a largura necessária, ou a posição em que Aleksander se senta quando confronta os burocratas da prisão e da procuradoria: sempre de perfil, numa impossibilidade de confrontar o medo de frente. São formas eficazes de expressar materialmente o antagonismo do filme – o Autoritarismo – numa tentativa bem conseguida de espelhar o presente através do passado.
![]()
Pedro Bastos Oliveira



