Sete anos depois, estreia um novo capítulo de Toy Story, desta vez sobre a substituição dos brinquedos pelas novas tecnologias. Com realização e argumento de Andrew Stanton, que também escreveu Wall-E, a vida dos brinquedos sofre uma grande reviravolta quando Bonnie, já com oito anos, recebe como presente o Lilypad, um sofisticado tablet interactivo com ideias bastante discutíveis sobre o que é ou não divertido. Há 30 anos não existia Tribuna, mas já existiam crianças a ver Toy Story. Hoje, David Bernardino, Miguel Allen e Raquel Sampaio escrevem sobre o Toy Story 5.
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Ao nos apercebermos que Toy Story 5 surge 31 anos depois do original, e sendo um filme infantil de animação com um arco narrativo visto por crianças e pelos adultos que já foram crianças quando o primeiro filme da Pixar surgiu, questionamo-nos sobre o sentido de estar a estrear em sala um quinto Toy Story. Depois de um terceiro capítulo feito em jeito de selagem de uma trilogia, a verdade é que Toy Story continua a ser bom quer neste quer no filme anterior, mantendo a sua capacidade de confundir e fazer imaginar as crianças aos mesmo que se vai adaptando à evolução da realidade da vivência infantil, com especial impacto neste Toy Story 5.
Enquanto até aqui os filmes Toy Story giravam à volta dos brinquedos e suas maravilhosas questões existenciais, Toy Story 5 foca-se sobretudo na criança, Bonnie, e nos métodos de parentalidade moderna, vulgo ecrãs. O novo vilão do filme, Lilypad, é uma espécie de tablet infantil que aliena as crianças, as faz crescer depressa demais, as pressiona e as leva a abandonar os seus brinquedos. O retrato que o filme faz, através das vistas pelos olhos de Jessie, Woody e Buzz, é uma humanidade simultaneamente isolada e conectada através de ecrãs e internet. O filme é particularmente incisivo a trazer essa realidade para a rotina da pequena Bonnie, que em tenra idade se vê inevitavelmente viciada no seu novo Lilypad. A mensagem para os pais é evidente, mas nem por isso Toy Story 5 se torna mais papista que o Papa, antes optando por uma abordagem conciliadora entre os “aparelhos” e os brinquedos. Afinal estamos perante um filme para crianças.
A nível emocional o filme funciona, como sempre funcionou em todos os seus 4 capítulos anteriores. A Pixar sabe mesmo fazê-los. A narrativa com Jessie como protagonista também é refrescante e foge, talvez de forma demasiado premeditada, às dinâmicas entre Woody e Buzz que na verdade até continuam aqui a existir apenas numa dose menor. A questão é precisamente que o desenvolvimento de personagem de Woody e Buzz está esgotado, e na verdade o de Jessie também. Não existe propriamente um arco narrativo além do mais elementar com Lilypad, que no fundo recria a lógica “brinquedo novo que chegou para revolucionar” que já existiu no primeiro filme, com a chegada de Buzz, o astronauta espacial. “Ninguém vai ser substituído”, se se recordam. O que falta é a magia de observar as vidas secretas destes brinquedos que existiu nos primeiros dois filmes, um Mundo de possibilidades e cenários como a casa do maníaco Syd que distorcia os brinquedos ou a loja de brinquedos do Al do segundo filme. Novas personagens, ou um novo olhar para Slinky, Rex ou o Sr. Cabeça de Batata, aqui todos relegados para o papel de figurantes. O filme parece demasiado cauteloso. Nada em Toy Story 5 surpreende realmente. Sempre sólido e certeiro, mas com pouco ou nenhum solavanco, que consegue ainda assim tocar em alguns nervos emocionais e introspectivos.
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David Bernardino

Crescer e descobrir novos interesses, brinquedos que passam de mão em mão, compreender a forma como cada criança se relaciona com os seus próprios objectos. Um sucessivo coming of age, desde o primeiro Toy Story (Lasseter, 1995), estes foram sempre filmes sobre uma dada mudança importante na vida de uma criança. Após um primeiro capítulo que seria um marco no cinema de animação (e um marco no cinema em geral), a primeira trilogia de filmes (1995-2010) forma um conjunto praticamente perfeito, onde à complexificação progressiva da narrativa se junta um desenvolvimento igualmente progressivo da tecnologia “necessária” para contar essa história. É certo, chegamos em 2026 a um filme da Pixar com imagens quase fotorrealistas (apesar de este novo Toy Story não pretender abandonar a animação) e, regressando a 1995, é impossível não nos surpreendermos com o valor arcaico que aquelas imagens entretanto ganharam.
Outra mudança ocorrida ao longo destes trinta anos, entre esse começo e este quinto tomo, terá menos a ver com realismo e mais com “realidade”. Não assumamos, por pretensão, que o mundo de hoje é mais complexo do que o era há trinta anos, mas existe efectivamente uma relativa complicação que fomos aceitando progressivamente nas nossas vidas. Sempre agarrados a pequenos dispositivos electrónicos, aquilo que prometia simplificar-nos a existência tornou-se algo sem o qual já não sabemos existir. E se tanto se ironizou ou fabulou, no cinema, com a chegada da inteligência artificial, agora que lhe abrimos a porta diariamente através destas pequenas ferramentas, a verdade é que continuamos algo medusados com as suas capacidades, por muito que permaneçamos “humanamente” cépticos em relação às mesmas, enquanto, é claro, absolutamente dependentes delas.
A mudança foi rápida e avassaladora e se o seu começo se fazia já sentir em 2019, quando saiu Toy Story 4 (Cooley, 2019), a sua presença estava ainda longe da expressividade que tem hoje. Toy Story 4 era um filme que procurava capitalizar o sucesso de Toy Story 3 (Unkrich, 2010), tentando dar seguimento às suas linhas narrativas. Um filme perfeitamente competente, divertido e querido, foi sempre o filme “a mais”, sobretudo surgindo após aquele que continua a ser o melhor dos cinco, e um primeiro sintoma de uma série que acabaria por redundar numa estrutura mais episódica de filme para filme. Isto não tem qualquer mal, é certo. Apesar dos habituais exageros ao falar destes filmes, ninguém procurará afinal em Toy Story muito mais do que aquele conforto a que a Pixar nos habituou com as suas melhores obras: um momento bem passado entre adultos e crianças, através de histórias aparentemente universais, contadas por personagens bem desenvolvidas e que, no caso de Toy Story, se tornaram figuras icónicas da nossa cultura popular.
Numa progressão temática coerente, Toy Story 2 aborda temas como a preservação cultural e o abandono; Toy Story 3, o crescimento e a despedida; Toy Story 4, a procura de identidade. Da insegurança de Woody à “inconsciência profissional” de Buzz, ou ao desespero de Forky, a série sempre se confrontou com recorrentes questões existencialistas. Mas o que acontece quando o próprio conceito de “brincar” deixa de ser central na vida das crianças? Com Toy Story 5 (Andrew Stanton), esse existencialismo torna-se substancialmente menos individual, num primeiro filme a abordar o fim prático dos brinquedos enquanto objectos. Em Toy Story 5, os adultos passam o dia a olhar para os seus telemóveis. E para uma criança de oito anos – ao seu terceiro filme, Bonnie continua a ser a personagem menos interessante de todo este “universo”, e uma figura ainda mais genérica do que fora Andy – que se queixa de não ter amigos, a solução dos pais passa pela compra de um tablet verde-sapo cuja inteligência artificial (enfim, um brinquedo que age quase da mesma forma perante os seus utilizadores e entre os seus supostos pares) trabalhará para que Bonnie consiga, enfim, chegar às outras crianças do bairro. Os efeitos são instantâneos. Bonnie passa horas diante do ecrã, enquanto os pais lhe lançam avisos do outro lado da casa, também eles, provavelmente, diante de outros ecrãs. Pelo esforço da engenhosa Lilypad, através de grupos de chat geridos pelo “brinquedo” e de jogos com tartarugas adoráveis programados pelo mesmo (as crianças têm agora horários sociais a cumprir), Bonnie é, enfim, convidada para um sleepover. Mas o encontro resulta, claro, como o são hoje esses sleepovers: quatro crianças agarradas, cada uma, ao seu próprio Lilypad. E o desalento de Bonnie é evidente no dia seguinte, perante as olheiras de uma noite passada sob a luz branca do ecrã.
A ideia narrativa do filme é simples e por demais evidente: as crianças já não brincam. E a maior força deste Toy Story 5 será, novamente, conseguir situar-nos num contexto prático e sentimental onde, adultos e crianças, conseguimos facilmente nos posicionar. Contudo, a relativa passividade, falsamente ingénua, do filme perante a problemática principal que aborda acaba se evidenciar como uma derrota. Afinal, o desenlace torna-se evidente desde os primeiros passos da trama. Bonnie quererá ainda regressar aos brinquedos de outrora, e a resposta dos seus pares será a troça perante aquela “bebé” que ainda gosta de bonecos. Em torno dessa Lilypad maléfica, tudo passará então pela descoberta de uma outra criança com quem Bonnie possa tecer uma verdadeira amizade “à antiga” e por um inevitável compromisso entre o tablet e os outros brinquedos.
Após tantos brinquedos maléficos que vimos ser eliminados ao longo de quatro filmes, neste quinto, a ideia de destruir o seu HAL 9000 (o desespero de Bonnie na manhã em que encontra Lilypad sem bateria…) não parece sequer ter passado pela cabeça da sua equipa de produção, provavelmente por receio de chocar o seu público-alvo, esse também já armado de Lilypads à entrada da sala de cinema, ou mesmo com a ideia de rever o filme nesses tais Lilypads.
“Os tempos mudam, mas os amigos são para sempre”, diz-se. É uma mensagem que acompanha Toy Story desde 1995, agora sobreposta, no trailer, por uma versão extremamente duvidosa do clássico de Randy Newman, You’ve Got a Friend in Me. O filme pede-nos para acreditar, mas essa ideia parece aplicar-se sobretudo aos seus brinquedos, nos intermináveis debates sobre a sua própria obsolescência, e menos às crianças. Para Bonnie, para os seus pais e para as restantes crianças do bairro, a decisão parece já ter sido tomada e a imagem transmitida através da “boa vontade” do filme acaba por ser inevitavelmente mais amarga do que poderíamos querer aceitar. Não existe afinal uma “boa relação” com a inteligência artificial, muito menos com as redes sociais, algo que o filme não parece pronto a consentir. E enquanto nos divertimos com mais um grupo de Buzz Lightyear’s concentrados na sua missão intergaláctica – agora equipados com funcionalidade de drone activável por código QR – a verdadeira batalha abordada pelo filme parece ter sido perdida anos atrás. As crianças transformaram-se em mini-adultos com agendas e responsabilidades. Os adultos, sempre agarrados aos seus Game Boys, infantilizaram-se através de uma tecnologia que lhes permitiu, afinal, desresponsabilizar o seu próprio cérebro. E se essa ideia era bastante mais evidente na cidade suspensa de Wall-E (também realizado por Stanton), a sua versão sanitizada em Toy Story 5, por muito que nos faça sorrir, não convence. Lilypad é, entre tantos outros, um vírus sociocultural para o qual dificilmente encontraremos cura. Quanto a Buzz, Woody ou Jess, a caixa de cartão está à espera na garagem.
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Miguel Allen

Toy Story fechou em 2010 um arco quase perfeito – o incinerador, a passagem de testemunho, aquele adeus que se queria definitivo – e tudo o que veio depois passou a arrastar consigo a suspeita de ser a mais. Toy Story 5 não dissolve essa suspeita, mas encontra uma maneira hábil de a contornar: em vez de reaquecer o medo do abandono que move estes brinquedos desde sempre, transfere-o para um adversário novo: o ecrã. O ponto de partida é simples. Bonnie tem agora oito anos e enfrenta o obstáculo mais difícil da infância: arranjar amigos. Só que continua a inventar histórias com os brinquedos quanto os vizinhos e colegas já vivem agarrados aos dispositivos. Os pais oferecem-lhe um tablet em forma de rã, a Lily (voz de Greta Lee), e instala-se a guerra: Jessie, que nunca se curou da partida de Emily, tenta travar a influência da máquina e defende a amizade à antiga, feita de tempo e de presença; Lily dispara à frente com pedidos de amizade, convites digitais e jogos online, prometendo popularidade à custa de esconder quem Bonnie verdadeiramente é.
A jogada mais acertada do filme está em deslocar o centro de gravidade. Woody (Tom Hanks) e Buzz (Tim Allen) continuam por ali, com peso na intriga, mas a história pertence desta vez a Jessie (Joan Cusack), a cowgirl que entrou nesta família já ferida por um abandono antigo. Dar-lhe o protagonismo permite duas coisas ao mesmo tempo: aprofundar uma personagem que vivia à margem e ligar a sua cicatriz pessoal à pergunta que o filme quer mesmo fazer: o que é brincar, e o que se perde quando se deixa de saber brincar. O filme tropeça com alguma frequência. Jessie tem tendência para o sermão, para o discurso sobre o que Bonnie precisa e sobre a criança que julga conhecer, e há momentos em que Toy Story 5 oscila perigosamente entre o aviso e o velho do Restelo. O que salva esse registo é a humilhação que a obriga a duvidar: depois de se intrometer numa festa do pijama, Jessie é atirada de volta para o carro por uma Bonnie envergonhada de ainda ter brinquedos. A partir daí o filme torna-se uma odisseia de regresso. Um casal de idosos encontra a morada de Emily rabiscada nas suas calças de cabedal e leva-a à casa errada onde já não vive Emily, mas Blaze, outra menina de oito anos, e onde Jessie só pode contar com a tralha tecnológica que a miúda já descartou: um hipopótamo-GPS (Craig Robinson), uma câmara, um jogo de treino de bacio com a voz de Conan O’Brien. É aqui que Andrew Stanton, que assina o argumento com Kenna Harris, casa melhor o novo com o antigo, transformando a obsolescência destes gadgets numa pequena família de inadaptados.
A meio caminho fica a história de Woody e Buzz, e é nela que o filme deixa escapar a sua melhor ideia. A rivalidade afetuosa de sempre mantém-se, agora cruzada com a angústia da idade: Buzz não tem coragem para pedir Jessie em casamento, enquanto Woody regressa da feira para ajudar Rex (Wallace Shawn), o Sr. Cabeça de Batata e companhia a encarar o envelhecimento. O problema é que, com Woody, o filme contenta-se com piadas sobre a barriga e a careca e nunca dá o passo seguinte. Fica por responder a única pergunta que valia a pena: o que sente um brinquedo ao envelhecer? Stanton levanta-a e depois afasta-a.
Esse é, no fundo, o limite de Toy Story 5. É um filme animado que pega num tema espinhoso para o tratar pelo caminho mais seguro. A Pixar nunca iria assinar um manifesto tecnófobo, e a moral acaba sempre por amaciar para o consenso: encontrar equilíbrio entre os ecrãs e a vida orgânica, ser corajoso o suficiente para mostrar quem se é. Falta-lhe ousadia, falta-lhe deixar Jessie errar de verdade. E, no entanto, seria injusto fingir que não funciona. Há duas ou três sequências que voltam a tocar aquela corda rara em que estes bonecos de plástico dizem mais sobre nós do que muito cinema com gente a sério. No conjunto, Toy Story 5 não arrisca nem surpreende, mas comove. É menos arrojado do que devia e mais terno do que precisaria de ser, e a sua mensagem sobre a coragem de não fingir ressoa num tempo de imagens cuidadas e identidades editadas. Três estrelas para a teimosia da Pixar em continuar a acreditar que a imaginação ainda é o melhor brinquedo que temos.
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Raquel Sampaio



