A primeira longa-metragem de Michael Shanks, Together (ou, em português “Together: Juntos“), (mais) uma comédia negra de body horror, está em exibição nas salas de cinema portuguesas. O filme tem dado que falar, David Bernardino e Hugo Dinis foram ver porquê.
A relação de Tim e Millie encontra-se numa encruzilhada quando o casal se muda para o campo, abandonando tudo o que lhes é familiar, excepto a um ao outro. Com as tensões já exacerbadas, um encontro com uma força misteriosa e sobrenatural ameaça corromper as suas vidas, o seu amor e os seus corpos.

Falar de Together é falar do recente revivalismo do subgénero de terror corporal, ou body horror, que parece ter ganho força por entre os fãs do género. Mais que isso, Together é um filme arrumadinho, escorreito e de ideias organizadas, por muito derivativas e pouco originais que sejam. A dinâmica do casal em crise conjugal protagonizado por Dave Franco e Alison Brie tem energia, mas é na representação simbólica dos casais de uma certa américa anti-Trump contemporânea que Together acaba por manifestar mais interesse. A dificuldade em crescer e assumir responsabilidades de Franco, o conformismo de Brie, o conforto rotineiro da relação entre pessoas que não estão bem consigo mesmas (epidemia pós pandemia no cinema norte-americano, ao que parece), Together parece estar particularmente mais preocupado com a sua existência (ideia aqui, mensagem ali) do que simplesmente em existir, como se acima de um determinado nível de orçamento o terror tivesse que ter inteligência e bom gosto – uma das piores heranças de Get Out (Jordan Peele, 2017). Ainda assim, a solidez genérica da sua primeira parte – já toda a gente sabe onde é que o filme vai dar, bastaria olhar para o poster e slogan – cria alicerces e sustos suficientes para uma segunda parte escabrosamente preocupada (mais uma vez) em ser série B divertido, mas com uma estética francamente fraca, por muito body horror e efeitos especiais práticos que apresente. O trabalho é sempre bem feito, nunca comprometendo, mas nunca sendo particularmente interessante. Fica aquele sorriso tolinho e eficaz de Dave Franco, que não é nenhum analfabeto no que toca ao terror, particularmente atrás da camera como já provou ao realizar o excelente The Rental de 2020.
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David Bernardino

Haverá maior assassino do cinema de terror que a literalidade? Entre títulos de narrativa convencional que fazem da realização a sua mestria (pensando aqui em Alien ou The Thing), ou outros que relacionam medos rotineiros com o pânico do isolamento perseguidor (vide Rosemary’s Baby, Videodrome ou The Exorcist), a força das alusões é rainha. O que tem Together para apresentar na era da literalidade? Na verdade, (mais um) exercício explicativo e desculpabilizador na procura da isenção anódina. Envolvido, desde logo, numa polémica de alegado plágio, ao vermos Together não podemos deixar de pensar que estamos perante uma epidemia muito contemporânea. Um filme fastidioso que vê na neutralidade inofensiva uma forma remisturar os clichés do filme de terror americano destes tempos, acompanhado por uma apropriada campanha de marketing que parece girar em torno do par de actores protagonistas ser casal fora de set. De resto, o setup aqui não podia ser mais desinspirado. Logo na sua cena de abertura, Together estabelece a matriz repetitiva das suas personagens, ao detalhar em doloroso irrealismo, uma relação que procura ser apresentada como incompleta mas que cedo transparece enquanto tóxica. Dave Franco, uma constante presença medíocre de um actor impalatável, e Alison Brie fazem um casal improvável. A maturidade de Brie contrasta inapelavelmente com a infantilidade descomprometedora de Franco, sendo a relação entre ambos colocada à prova pela mudança para o campo motivada pelo trabalho de professora de Brie.
Não sendo este um plano de jogo particularmente apelativo, a barreira da literalidade é uma montanha intransponível para Together. Num dos monólogos de referência narrativa, Franco reconta a vez em que o seu pai encontrou no quarto uma ratazana morta que ao cheiro da qual o filho estaria já imune. Felizmente Franco faz suceder esta realização à lembrança do encontro de ratazanas mortas no tecto da sua nova residência conjugal. Porventura, o problema de Together passa mais pela soletração dos seus temas do que pela literalidade com que lida com eles. Em todo o caso, os sinais da doença manifestam-se na forma como o conceito de body horror é posto ao serviço dessa mesma soletração temática. Brie e Franco vêem-se unidos literalmente pela manifestação de uma entidade de culto com uma realização plena. Na sua essência enquanto título de body horror, Together é um filme de uma tremenda falta de fisicalidade, em particular nas suas consequências mais extremas. Tudo isto é feito desembocar no rio da reexaminação da relação de um casal, desprovido de verdadeiro sentido de significado. De facto, não morre o paciente só de literalidade.
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Hugo Dinis



