Críticas a They Will Kill You, de Kirill Sokolov

EquipaAbril 2, 2026

Kirill Sokolov é um realizador russo que ganhou alguma notoriedade com o moderado sucesso no cinema de género de Why Don’t You Just Die!, um dos vencedores do MOTELX em 2019. A sua mescla de terror, acção e comédia negra trouxe-nos agora They Will Kill You, com Zazie Beetz, no seu primeiro papel de protagonista, Patricia Arquette e Myha’la. David Bernardino e Hugo Dinis foram ver este sangrento filme e deixam as suas críticas.

Uma mulher aceita um emprego como empregada doméstica num enigmático arranha-céus em Nova Iorque, sem suspeitar de que ali ocorreram vários desaparecimentos ao longo dos anos – e de que o edifício poderá estar sob a influência de um culto satânico.

 

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Ver trailers de filmes é algo que não se recomenda a ninguém, mas foi assim, por acidente, que se tomou conhecimento da existência de They Will Kill You, de Kirill Sokolov, um realizador que merece o benefício da dúvida por virtude de Why Don’t You Just Die! (2018), uma belíssima comédia de terror que venceu o prémio para melhor longa de terror europeia no MOTELX 2019. O trailer antecipava um filme sem grandes escrúpulos e gosto duvidoso, mas impôs-se o princípio in dubio pro reo. Sim, é mais um filme “eat the rich” sobre metáfora de classe feito nos anos 2020. Desta vez acerca de uma mulher (Zazie Beetz) que aprende a lutar na prisão e vai em busca do salvamento da sua irmã mais nova das garras de um culto satânico composto por gente rica que se reúne num edifício em Manhattan construído nos anos 20. Patricia Arquette é a manda-chuva.

Com grande cepticismo observamos este filme da categoria de “filmes em que o próprio edifício é uma personagem” a transformar-se rapidamente numa eficaz comédia negra de acção e terror. Como que incorporando uma vingadora do estilo John Wick, entre várias outras referências da contemporaneidade (o pensamento vai logo para o sangue de Tarantino e para a espada Hanzo Hattori de Kill Bill), Beetz decepa membros e cabeças em coreografias de grande plano com fontes de sangue a jorrar, para apenas ver os seus inimigos a ressuscitar uma e outra vez levando a sua metáfora de classe ao extremo. Está tudo bem porque funciona. De forma ligeira e escorreita They Will Kill You vai avançando dentro do seu acto único perante uma audiência positivamente letárgica que ri e comenta a porcalhice sanguinária com o colega do lado. Um elogio às sessões de meia noite do cinema série B, e no fundo é para isso que elas servem.

Claro que poucos minutos depois da dopamina de acção e estilo deixar de surtir efeito é difícil justificar uma avaliação acima do razoável. O terceiro e último acto do filme, que chega mais rápido do que se sente, e nos traz um porco satânico de CGI questionável, parece operar de forma desconjuntada da premissa mulher vs centenas de satânicos ricos num edifício nova iorquino. E é aí que a escassez de ideias, argumento e elenco se torna observável a olho nú, como se a linguagem de cinema de média sala impressa por Sokolov se confundisse com a televisão do ínicio dos anos 2000 (leia-se Buffy: A Caçadora de Vampiros), e não num bom sentido. They Will Kill You é a versão literal do ditado “não mata mas mói”: dá prazer dizê-lo, mas ninguém lhe dá grande importância. Ou algo assim.

David Bernardino

Ancorado numa panóplia de referências de género, como The Raid (2011) ou John Wick (2014), Kirill Sokolov propõe uma pequena metáfora sobre a condição de classe. They Will Kill You apresenta Zazie Beetz como uma jovem violentada, presa por alvejar o pai na tentativa de defender a irmã (Myha’la), que encontra trabalho enquanto empregada de limpeza num edifício sinistro populado por adoradores do diabo. Cedo percebemos que Beetz tem outras motivações para aceitar o emprego que vão para além do salário e a perseguição começa. Os residentes regeneram-se e mimetizam a condição de riqueza hereditária, enquanto que os pobres se sucedem como personagens de fundo e carne para canhão. Sokolov sente, contudo, uma limitação de base na evolução desta premissa e a vingança pessoal assume contornos de Kill Bill (2003), quer pelo estilo narrativo quer, sobretudo, pela forma como a edição se aprofunda em sucessivos planos aproximados em câmara lenta e a escolha de banda sonora envereda pelo piscar de olhos à contemporaneidade popular.

They Will Kill You não deixa de mostrar uma interessante inconformidade em mostrar qualquer tipo de aderência à realidade. O universo do edifício, classicamente apelidado de Virgil, convida Sokolov a enveredar por uma composição febril, quer do ponto de vista visual quer da forma como deliberadamente se coloca do lado de dentro face aos desafios que Beetz encontra pelo filme fora. Esta energia juvenil mantém o espectador anestesiado durante praticamente toda a duração de They Will Kill You. Há uma dualidade que esta juventude imposta por Sokolov faz reverberar durante todo o filme, contudo. O mesmo dinamismo que se impõe de forma destrutiva para criar um slasher que a qualquer momento poderá implodir perante um mar de sangue também se perde como o sabor de uma pastilha elástica, especialmente pela mesma medida com que Sokolov parece ser incapaz de saber renovar o universo da sua premissa inicial.

Neste contexto, as performances Myha’la e, sobretudo, Beetz tornam-se o fulcro para toda a propulsão de uma acção crescentemente surreal, através de membros que se libertam de corpos e globos oculares que ganham volição própria. Este voluntarismo de Sokolov em construir uma peça deliberadamente excêntrica para acolchoar a violência que se vai transformando em ruído de fundo à medida que They Will Kill You vai procurando fazer jus ao seu nome, acaba por se sentir muito mais à vontade na estilização da matança de Kill Bill ao invés de na construção de composições de acção dinâmicas. Os mortos ganham vida e os vivos ganham morte, mas perante tal assalto aos sentidos sentimos que já é tudo mais ou menos o mesmo.

Hugo Dinis