The Ugly Stepsister (“A Meia-Irmã Feia“) foi exibido no passado dia 16 de Julho, na apresentação à imprensa da 19.ª edição do MOTELX — Festival Internacional de Cinema de Terror de Lisboa. Primeira longa-metragem de Emilie Kristine Blichfeldt, o filme inverte a história de “Cinderela” a partir do ponto de vista de Elvira “e da sua luta contra a deslumbrante meia-irmã, num lugar onde a beleza reina. No meio de uma competição implacável pela perfeição física, Elvira recorrerá a medidas extremas para cativar o príncipe.” Hugo Dinis e David Bernardino assinam as críticas.
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De todos os mitos fundacionais da Disney, nenhum tem tido mais impacto geracional do que o de Cinderela. O conto dos irmãos Grimm conjuga em si a força da perda, a injustiça da desigualdade, e, talvez sobretudo, a noção de clivagem de género. The Ugly Stepsister coloca na prática uma premissa simples: a de readaptar o conto na perspectiva da(s) irmã(s) adoptiva(s), na sombra de uma história de afirmação onírica. Mas este The Ugly Stepsister, realizado por Emilie Blichfeldt, propõe igualmente a terraplanagem das considerações de classe ou de trauma pessoal em prol da sua visão de tortura de género. Esta abordagem acaba por ser simultaneamente uma benção e uma maldição ao estilo de um conto de fábulas.
A sua inflexibilidade conceptual arrasta consigo uma certa limitação de registo que faz com que The Ugly Stepsister irradie esta ideia de não sair da terceira mudança, mesmo nos seus momentos de maior tensão narrativa. Por outro lado, Blichfeldt demonstra uma disciplina formal assinalável: a cinematografia oscila entre o onirismo dos seus momentos de esperança para Elvira, na sua busca pelo coração do desejado príncipe, e a amargura (sempre amargura, mas raramente revolta que faça projectar Carrie, por exemplo) da inevitabilidade do seu insucesso. Essa é, de resto, uma preocupação também projectada pelo uso da banda sonora (a harpa da esperança, o techno da prostração).
Mas boa parte da subversão de The Ugly Stepsister emana do seu voluntarismo na iconoclastia em torno de Cinderela. As representações de encontros amorosos são frequentemente gráficas e mundanas, expondo a ideação amorosa de Elvira em torno do príncipe ao absurdo, mas também marcadas por uma visão desconstrutora da sexualidade. A Cinderela retém a aura (e sobretudo a reputação) de virgindade sem que o tenha de realmente ser, marcando a sua ascenção social como aquilo que realmente é: um casamento de conveniência.
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Hugo Dinis

Um filme com uma missão, The Ugly Stepsister quer ser uma versão feminista radical em tom de body horror da história da Cinderela, mas passa a primeira metade do tempo a ser apenas um exploitation porn moralista, feio e de mau gosto. Tudo é demasiado gratuito e conceptual: a história que todos conhecemos, mas do ponto de vista de uma das meias irmãs de Cinderela, a bela jovem que aos olhos desta protagonista pode ser afinal a vilã. Com o passar do tempo, The Ugly Stepsister vai abandonando as suas peneiras adoptando cada vez mais a linguagem clínica e hermética do cinema nórdico contemporâneo, assumindo de forma desequilibrada o seu lado de série B, piscando o olho a obras como Slither, Society, Titane ou o recente The Substance, criando algumas boas cenas de body horror grotesco que justificam a sua existência. Não é suficiente, embora a ideia de mostrar a história da Cinderela a partir do ponto de vista da irmã feia, numa versão suja e crua, seja interessante.
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David Bernardino



