Estreado no Festival de Veneza do ano passado, The Testament of Ann Lee é o primeiro projecto da dupla de produção composta por Mona Fastvold e Brady Corbet após o sucesso de The Brutalist. Celebrado pela performance de Amanda Seyfried enquanto líder do grupo religioso conhecido como os Shakers, que lhe valeu a nomeação para o prémio de melhor actriz nos Globos de Ouro, o filme foi alvo de especulações relativas a possíveis nomeações para os óscares recentemente entregues. Ainda que tenha tido por Portugal uma estreia modesta, limitada a um conjunto relativamente curto de salas, a Tribuna não deixou de marcar presença. Duas críticas ao filme.
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No mito fundacional dos Estados Unidos da América, a religião e a imigração surgem de mão dada. Em The Brutalist (2024), Brady Corbet e Mona Fastvold exploraram as raízes do imigrante na tentativa de procura por um novo espaço de fruição criativa. O projecto evocava semelhantes tentativas de enquadrar a agrura do imigrante numa sociedade marcada profundamente pela iniciativa privada dentro do ultraconservadorismo protestante do Novo Mundo, como Once Upon A Time In America (1984, Sergio Leone), Hester Street (1975, Joan Micklin Silver) ou The New Land (1972, Jan Troell), entre tantos outros. A condição de abandono que os protagonistas destes filmes contrasta de forma clara com o retrato da imigrante no novo trabalho de Fastvold, The Testament of Ann Lee. A sua personagem titular assume-se como a fundadora de um novo movimento religioso baseado em auto-disciplina e modéstia franciscana, com um foco na abstinência sexual motivada pela experiência pós-parto de Lee. A natureza cinética dos rituais de culto do movimento, apelidado dessa forma de Shakers, encerra a principal motivação cinematográfica de Fastvold e Corbet, ainda assim. Na tela surgem inúmeros momentos de comunhão religiosa com uma exteriorização fervorosa que directamente contradiz os preceitos do conservadorismo daquele período da história norte-americana. É por aí que acaba por se justificar, aos olhos da dupla de The Brutalist, a ideia, ainda que meio envergonhada, de um musical que colocasse em evidência esta exuberância corporal. Mas, ao passo que as posições da dupla de cineastas desse filme se tenham invertido em The Testament of Ann Lee, está sempre aqui presente a mesma noção de austeridade formal de The Brutalist.
Perante a voz off de Thomasin Mckenzie, uma das mais fervorosas seguidoras de Amanda Seyfried enquanto Ann Lee, este testamento procura ir a todas as capelinhas da cronografia da mãe evangelizadora. É certo que as motivações que a levam a tão improvável cargo se mantém, em larga medida, insondáveis para Fastvold, que não se coíbe de levar a sua câmara benevolente para os propósitos mais nobres das ideias de Lee. Vemos Seyfried a castigar publicamente um leilão de escravos sem qualquer hesitação com a convicção do humanismo das escrituras. Vemo-la a rejeitar os apelos das autoridades locais que instavam a participação dos seus fiéis na guerra de independência americana, e a pagar o preço em prisão e tortura. Vemo-la a manter-se inabalável na defesa de uma estrutura hierárquica perfeitamente horizontal, em detrimento de financiadores e operadores de evangelização. Esta santificação da figura de Seyfried poderia levar The Testament of Ann Lee a uma inventividade formal que mais cedo reconheceríamos num qualquer Baz Luhrmann, salvaguardadas as devidas comparações, do que no insosso Brady Corbet. Os momentos musicais que se sucedem frequentemente lidam com temáticas similares entre si, mas sem o apelo do gospel americano e das suas raízes na cultura negra sulista, mas com a mesma tonalidade de sublimação religiosa que frequentemente redunda em coreografias semelhantes.
Ao passo que os trabalhos de Leone, Micklin Silver, ou Troell retratavam emigrantes à procura de sobrevivência perante a ameaça de morte e pobreza, Fastvold e Corbet procuram retratar o Novo Mundo como uma oportunidade de descoberta de novos palcos para a expressão individual. Amanda Seyfried parte rumo a Nova Iorque para ir de encontro ao seu propósito evangelizador, sobretudo, diz-nos Fastvold, por efeito do fechamento do Velho Mundo em relação a novas formas de interpretação da fé. Numa das primeiras cenas após a chegada dos Shakers aos Estados Unidos, vemos Seyfried e os seus correligionários a comunicar com outros líderes religiosos no intuito de cooptarem a sua crença. O cenário assemelha-se mais a uma negociação de contratos, com toda a formalidade processual que um qualquer tratado entre nações. A oportunidade representada pela colonização do Novo Mundo colocou sobre a mesa a conjugação de diversas crenças e ideais relativos à organização das sociedades. Este olhar fundador de Fastvold é facilmente aquele que mais possibilidades realmente transgressivas encerra perante o retrato de um movimento e de uma mulher na base dele. Mas a sua relativa ausência, em prol de uma pretensa ideia de inovação formal (um musical sobre uma líder religiosa!) empurra mais uma vez Fastvold e Corbet para uma confortável mediocridade. Nesta cama de produtos oscarizáveis, o que mais se perdem são os conceitos, quase sempre potencialmente inventivos e quase sempre derrotados por dentro.
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Hugo Dinis

Um registo invulgar, esta será, facilmente, uma obra superior a The Brutalist (com o qual parece formar um díptico curioso), embora surpreendentemente incerta quanto ao seu próprio propósito. Chega-nos em sussurro, pela floresta misteriosa, contando a imagem mítica de uma mulher vestida de sol, mas a sua abordagem à figura histórica de Ann Lee é um tanto contraditória. Mona Fastvold evoca, sem ambiguidade, uma mulher que terá antecipado ideais de igualdade de género e racial (através da religião), e o filme é, de facto, sustentado pela força dessa personagem estranha e fascinante (levada em esforço por Amanda Seyfried). Se é fácil descartarmos muitos dos seus feitos como fruto de alucinação (por, nomeadamente, malnutrição), é inegável o carácter transgressivo, e nisso moderno, de algumas das propostas sociais dos Shakers. No entanto, é o próprio relato do filme que nos parece hesitante quanto aos aspectos mais histéricos ou francamente delirantes do percurso de Ann Lee. O mesmo se poderá dizer do musical que estrutura a trama. Em mais do que um aspecto, The Testament of Ann Lee assume-se como uma espécie de “Sinners da mulher branca”. As danças são memoráveis pela sua envolvência de uma câmara em movimento virtuoso, mas o filme está longe de alcançar a sinceridade na abordagem à música e às próprias canções que enchiam o exercício transbordante de Ryan Coogler. A banda sonora de Daniel Blumberg é suficientemente original para despertar o nosso interesse, com abundância de gritos femininos frenéticos e uma certa atmosfera “ye olde England“, mas recua frequentemente para algo de muito mais “Broadway-y“, mais complacente e, nisso, tão longe da frugalidade shaker que se pretende evocar. Não se apreciaria, de modo algum, um filme mais rigoroso na sua violência – esta existe por todo o lado e é suficientemente expositiva, no limite do miserabilismo, para servir o propósito chocante que certamente alimentou o desígnio de Fastvold e Corbet. É, no entanto, desconcertante a frequência com que a acção resvala para um allegretto mais digestivo para o espectador, o episódio do dedo mágico do velho Hocknell (“I’m searching, I’m led…“), ou o Coldplay de William Lee (Lewis Pullman) em Bow Down O Zion, sendo exemplos evidentes dessa tendência.
The Testament of Ann Lee é, enfim, um filme num redundante conflito interno: ao não saber exactamente onde se posicionar, acaba por se tornar repetitivo, e isso mesmo apesar dos momentos mais caricatamente fora de tom que Fastvold não soube evitar, como será a insólita (e apressadamente despachada) sequência sobre a arquitectura e mobiliário shaker. Se o filme nunca deixa de nos seduzir, move-se num profundo entorpecimento pela sua própria construção narrativa e existe, como seria de esperar, algo embasbacado pelos seus próprios virtuosismos. Um outro coming to America, e um outro fresco historicista por registo “americano” (o musical em resposta ao VistaVision do filme anterior), assente nas três esferas temáticas aparentemente preferidas de Fastvold e Corbet – a religião, a identidade e a arquitectura, conceitos sistematicamente corrompidos e moldados pela volúpia humana. É também um novo exercício de ambição desmedida dos seus dois autores (e de uma meticulosa gestão financeira, dado o orçamento reduzido), sendo que, com Fastvold ao leme, o resultado é consideravelmente mais satisfatório, e sobretudo menos mesquinho.
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Miguel Allen



