Após ante-estreia no Motelx do ano passado, estreia nas salas de cinema portuguesas The Surfer (“O Surfista”), um thriller psicológico realizado por Lorcan Finnegan. Nicolas Cage regressa à praia da sua infância com o filho, mas os seus planos são frustrados por um grupo de surfistas locais que pretendem proteger a praia de estrangeiros e turistas. Masculinidade tóxica, crise de meia-idade e investimento imobiliário, junto ao mar na Austrália. Este foi o último filme do malogrado Julian McMahon. Recordamos as críticas de David Bernardino e Hugo Dinis.

A carreira de Nicolas Cage tem na última década andado de mão dada com o cinema de género. O seu acting muitas vezes neurótico e o seu amor pelo cinema, que não faz distinção entre a série B e as grandes produções, parece assentar que nem uma luva na premissa que Lorcan Finnegan criou para The Surfer: um homem decidido a surfar na praia australiana onde cresceu, e lá comprar casa, mas que é impedido por um gang de surfistas bullies que controlam a praia. The Surfer aponta a vários caminhos, tem várias camadas e consegue a proeza de ser um filme muito mau e muito bom ao mesmo tempo. Numa camada mais superficial o filme inicialmente parece ser uma espécie de revenge flick em que Cage sozinho enfrentará o gang de bullies, mas rapidamente evolui para uma espiral de degradação e solidão pessoal à medida em que realidade, psicadelismo e loucura se misturam. Esse é provavelmente o momento em que The Surfer é muito mau. Finnegan sustenta o desinteresse e miserabilismo do seu argumento na performance de Cage e na soberba realização: os dois pilares muito bons. O calor, a luz do sol, o céu azul, o asfalto, os pequenos animais exóticos que habitam aquele parque de estacionamento junto à praia… a experiência sensorial existe e é visualmente inebriante, com o actor a entregar a alucinação que se espera dele. No seu vector imagético, The Surfer é verdadeiramente fabuloso. Descendo à camada da superficialidade apalpamos depois diversos temas: a masculinidade tóxica dos gangs e os seus rituais de integração, o desprezo social pelos mais desafortunados, a pressão parental, culminado naquilo que se poderia apelidar de quase propaganda contra a cultura australiana do surf. Felizmente The Surfer nunca faz bandeira de nada disso, seguindo o seu rumo de forma escorreita para um terceiro acto que inverte o desinteresse argumentativo que existe até então e confirma, para o bem e para o mal (escolhemos a primeira opção), o seu trollanço de forma altamente satisfatória.
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David Bernardino

A quarta longa de Lorcan Finnegan coloca-nos perante o lugar familiar que é ver Nicolas Cage como o homem a tentar lidar sozinho contra a hostilidade. Armado com pouco mais que a sua própria nostalgia e uma ratazana que conhece pelo caminho, Cage é o homem moderno: confrontado com uma sociedade que o despreza, a tentar regressar a um passado que ele próprio idealizou como idílico, mas que está sobretudo no seu imaginário. Encontra num clã de surfistas, na sua praia de infância, o némesis para o seu sonho de reparação da vida. Hostil e profundamente embrenhado em provas de masculinidade retrógrada, o gangue de Julian McMahon representa tudo aquilo que separa Cage do seu idílio, mas simultaneamente aquilo que estimula em Cage um mínimo de sentido de pertença perante a sombra dos seus traumas familiares. Finnegan tenta construir uma encenação contida num espaço curto: não mais que uma praia e um parque de estacionamento, não conseguindo, apesar de tudo, grande evocação de claustrofobia ou prisão. Ao invés, a tensão é sempre às custas da performance neurótica de Cage e de alguma imagética psicadélica que parece empurrar Cage sempre numa direção menos plausível. O resultado final é sobretudo o de um argumento algo transparente, a querer surfar (yes!) a onda de Cage, sem lhe transmitir grande personalidade pelo caminho.
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Hugo Dinis



