Críticas a The Smashing Machine, de Ben Safdie

EquipaOutubro 9, 2025

Em 2024, os irmãos Safdie dedicaram-se a projectos individuais. The Smashing Machine, realizado por Benny Safdie (o mais célebre dos dois), é um filme biográfico sobre a carreira de Mark Kerr, wrestler e lutador de MMA. Produzido pela A24, o filme teve ante-estreia na Mostra de Veneza de 2025, onde ganharia o Leão de Prata (Melhor Realização) e onde Dwayne Johnson receberia uma ovação apoteótica pelo seu papel. Pedro Barriga e André Filipe Antunes foram ver o filme.

 

O título cumpre o que promete: há muito smashing. Ao longo do filme, muitas são as sequências brutais, espelho do desporto que Benny Safie se propôs a retratar. Ainda assim, o realizador consegue tornar a agressividade das lutas num espectáculo que é mais cativante do que desagradável.

Dwayne Johnson é convincente não só nas cenas violentas – o que seria de esperar dado o seu passado como lutador profissional – mas também nas mais emotivas, com uma ternura e sinceridade surpreendentes. The Smashing Machine sim, mas também The Gentle Giant. Johnson encarna totalmente a personagem, e não parece que estamos a vê-lo representar, mas sim a ver o verdadeiro Mark Kerr. É evidente como a sua participação neste filme foi a forma que encontrou de mostrar que Dwayne Johnson é também um ator sério e não apenas o The Rock dos filmes pipoca. Objetivo cumprido.

Destaque ainda para o lutador de MMA Ryan Bader, que brilha nesta que é a sua estreia na representação.

Pedro Barriga

 

Enquanto corre o genérico final da mais recente proposta (a primeira a solo) de Benny Safdie, uma questão impõe-se sobre todas as outras: “porque é que este filme existe?” Não é exatamente uma pergunta com a qual, enquanto espectadores, queremos ser deixados. The Smashing Machine estreou com aplomb em Veneza, alvo de uma ovação de quinze minutos, seguidos do Leão de Prata de Melhor Realizador e elogios rasgados à atuação central de Dwayne Johnson, a executar a jogada “Action Man de Hollywood mostra que também é Ator” que outros antes dele tentaram (uns com mais sucesso do que outros). De facto, parece ser mais um clássico objeto de festival, no mau sentido: um fruto do marketing da indústria, feito para ganhar prémios e elevar o perfil dos envolvidos mais do que por algum impulso artístico genuíno.

Há aqui uma gritante falta de intencionalidade, uma aparente confusão sobre a história que se quer contar. O filme começa por nos dizer que os eventos que vamos ver cobrem os anos de 1997 a 2000; prontamente, após um brevíssimo prólogo, saltamos dois anos e estamos logo em 1999, com a ascensão de Mark Kerr no mundo das artes marciais mistas já consumada como dado adquirido. Há o inevitável conto moral sobre o uso de drogas e a sua força destruidora na vida das personagens (cineastas desta escola já podiam ter visto mais filmes para lá de Scorsese), uma relação disfuncional entre Kerr e a mulher Dawn (uma desaproveitada Emily Blunt), que entra e sai da narrativa de forma aparentemente aleatória, uma “lição central” sobre um deus do ringue/octógono que tem de aprender que às vezes tem de perder – uma ideia batida mas sólida, o problema é que Kerr aprende a lição ainda o filme não vai a meio, e a sua personagem pouco ou nada evolui a partir daí.

Pelo meio, há ainda a história paralela de Mark Coleman (o lutador Ryan Bader em estreia é uma muito agradável surpresa), ligeiramente mais velho que Kerr e a querer provar que ainda tem algo no depósito. Safdie parece a espaços mesmo mais interessado em Coleman do que em Kerr, no enquadramento que faz da personagem, se não necessariamente na atenção que lhe dá na escrita. Chega ao ponto de dar a sensação (exacerbada pela conclusão dramática) de que o filme mais interessante está a acontecer no balneário do lado, longe do olhar da câmara que apenas nos deixa espreitar timidamente, de forma incompleta, a vida interior e a motivação de Coleman.

Porquê filmar em estilo verité de câmara-ao-ombro? A estética visual é consistente e tecnicamente apurada, mas que propósito serve? Apenas porque é o tipo de linguagem que filmes deste género (lembramo-nos de “O Wrestler, de Aronofsky) usam, e que passa bem nos grandes festivais do mainstream? Baseado no documentário do mesmo nome, o Safdie toma a opção curiosa de recriar um número considerável de sequências e momentos desse filme-base, produzido de forma contemporânea aos eventos retratados, durante a ascensão e regulamentação do MMA nos EUA.

O efeito é paradoxalmente artificial, mais uma camada à superfície que convoca a ideia de um filme sem ideia nem identidade própria. O que não deixa de ser curioso, já que a sequência mais bem conseguida da obra – Kerr e Dawn num parque de diversões, pós-reabilitação do primeiro e que é dos poucos, talvez mesmo o único, que mina com algum tipo de profundidade uma verdade interior da relação entre as personagens, que podia sustentar um outro filme, um filme melhor – é pura invenção de argumento.

Fale-se, por fim, de Johnson, The Rock, figura da cultura pop com quem este cronista já leva uma longa relação, vinda dos tempos de infância, do wrestling e das lutas com John Cena. A atuação é, de facto, capaz, porque Johnson é e sempre foi uma presença carismática e um bom ator, mesmo que as suas escolhas até aqui tenham sido de inegável mau gosto. Mas é apenas isso, uma atuação capaz, sem nenhum dos superlativos que se lhe tem colado(em parte porque o excelente trabalho de caracterização facial do maquilhador Kazu Hiro restringe inevitavelmente a amplitude da expressividade facial de Johnson). Seja como for, não é certo, ou sequer provável, que os elogios à “transformação” do ator fossem tão efusivos se não houvesse aqui uma literal transformação, se este se parecesse com o herói de ação de San Andreas.

Há, ainda assim, razão para acreditar no seu potencial: existe ao longo do filme uma permanente e interessante tensão entre a óbvia e intimidante presença física de Kerr, literalmente entre o título, “Smashing Machine” e a gentileza com que Johnson o imbui, os seus maneirismos e fala delicada apenas esporadicamente traídos por acessos de raiva ainda assim controlados. A coisa funciona; agora é ver se, nesta sua “fase séria”, o ator o conseguirá replicar no futuro sem, roubando a frase a Vincent Vega de Pulp Fiction, “ter aquela merda toda na cara”. Esperemos que sim.

André Filipe Antunes