Críticas a The Running Man, de Edgar Wright

EquipaNovembro 27, 2025

Edgar Wright regressa à realização em busca dos tempos de glória de Shaun of the Dead e Hot Fuzz, neste remake do filme de 1987, agora protagonizado pela estrela em ascensão Glen Powell. The Running Man é um blockbuster de acção sci-fi sobre um reality show, com o mesmo nome, de grande audiência no qual os participantes, em busca de uma enorme quantia em dinheiro, têm de sobreviver durante trinta dias enquanto são caçados por todo o tipo de mercenários. Perseguidos por câmaras, os seus percursos são transmitidos em directo para milhões de espectadores de todo o mundo, que rejubilam perante as cenas de acção. O filme parece ter muito para dizer, mas a recepção tem sido bastante mista. David Bernardino e Hugo Dinis foram ver e concluíram pela negativa.

 

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Desde o seu icónico papel secundário em Top Gun: Maverick, interpretando o carismático rival Hangman que por momentos gostaríamos de ver assumir o papel principal no filme de Tom Cruise, Glen Powell tem somado sucessos nesta primeira fase da sua carreira enquanto protagonista que se prevê sólida e longa. Powell é por si só razão suficiente para motivar uma ida à sala ver The Running Man, acrescida de ser um remake de um filme dos anos 80 com Schwarzenegger e ser realizado por Edgar Wright. O espectador anseia um regresso de Wright à boa forma de Hot Fuzz e Shaun of the Dead, mas ainda não é desta… Enquanto filme de acção sci-fi a premissa é suficientemente forte para aguçar a curiosidade, principalmente nos primeiros 20 minutos, mas rapidamente verificamos que Glen Powell está aqui destinado a interpretar um arquétipo bacoco e muito pouco realista de um homem muito zangado com o sistema que está desejoso de o demonstrar neste reality show, e que irá inevitavelmente alimentar os desejos de uma revolução.

Por trás existe um melodrama estranho, uma filha pequena que parece estar constipada e precisa de assistência médica, e o pai Powell parece não ter outra escolha para garantir a cura para esta constipação que não seja inscrever-se no reality show mais mortífero do Mundo, cujo casting e início de emissão aparentemente acontecem de forma quase imediata. Esses momentos familiares parecem tão deslocados que por vezes questionamos se as memórias do protagonista serão geradas por inteligência artificial. A montagem é medonha, a chico espertice é total, e o carisma de Glen Powell vê-se encurralado dentro do seu próprio potencial pela personagem unidimensional que lhe é dada. Uma versão hiperbolizada de si mesmo, mas sem o sorriso sacana habitual. The Running Man é mais um filme que é produto do seu tempo, que assume frontalmente a crítica ao estado actual da política norte americana, ao populismo e à ditadura tecnocrata. Fá-lo, como a maioria dos outros, de forma preguiçosa, sem ideias, ironicamente populista (o final é verdadeiramente patético), e sem grandes consequências além de alimentar de forma redundante o seu público alvo, e logo com a segunda ironia de ter tido um orçamento de 110 milhões de dólares que dificilmente serão recuperados em bilheteira.

David Bernardino

 

Quando Stephen King escreveu The Running Man em 1982, a sua intenção específica era a imaginação de um futuro longínquo. De tal forma longínquo que tinha lugar no distante ano de 2025. E, para todos os efeitos, a visão de King provou estar extraordinariamente apurada. The Running Man retratava um estado policial, repressivo, ao serviço de uma empresa de entretenimento das massas apelidada de The Games Network. Através de concursos televisivos, o governo pacifica o povo e mantém-no anestesiado perante a realidade das desigualdades sociais gritantes. Face ao que King escreveu, e depois da adaptação nos anos 80 com Arnold Schwarzenegger, a Edgar Wright parece faltar a noção da real presciência de King. Deixando de lado as possibilidades do futuro de King ser agora o nosso próprio presente, Wright conduz uma verdadeira sessão de terraplanagem de tudo o que possa ser considerado de realismo cinematográfico. Todo o contexto futuro de Wright é artificial. A data é mantida implícita e somos antes brindados com a habitual estética CGI moderna que nos dá a ideia de que praticamente tudo aqui foi filmado com ecrã verde por trás. Como se não bastasse, o filme perde de vista o seu real propósito. Não sendo particularmente difícil de convocar uma ideia de fúria perante o sistema que nos mantém desiguais, a verdade é que, quando Glen Powell explode perante Josh Brolin, o produtor executivo do concurso de morte, tudo nos parece falso. A revolta de Powell, os cenários, a urgência da cena, a motivação por detrás da decisão de Powell em aceitar ser rato de laboratório de Brolin. Não há aqui nada que evoque uma centelha de autenticidade.

O casting de Powell parece até, e pela primeira vez desde que ascendeu ao estrelato com Top Gun Maverick, profundamente equívoco. A sua dor com a doença da filha é, desde logo, o que estebelece o tom de The Running Man. O seu desconforto com este contexto é, contudo, evidente. Mas a factura deve ser passada a Edgar Wright. Powell tem vindo a construir uma imagem como mini-Cruise, disposto a colocar o corpo ao serviço do cinema de acção descomprometido. A veia melodramática está-lhe claramente desajustada e, quando Wright nos mostra os seus abdominais criados em laboratório, temos a certeza que esta gente não faz a mais pequena ideia do que é um pobre. Na verdade, isso até nem seria particularmente relevante se The Running Man fosse simplesmente um filme de acção simples e directo. A sua tentativa de comentário social, mais do que infrutífera, tem o mesmo efeito de todo o design de produção aqui. Soa e parece falso.

O cinema de Wright sempre foi feito à custa de cortes rápidos e needle drops propulsivos. Coisa pouca para realizar acção, na realidade. E não é coincidência que Baby Driver, o seu filme mais directamente próximo deste The Running Man do ponto de vista estilístico, seja também um falhanço exactamente nos mesmos moldes. O que nos leva à parada de personagens secundárias que Wright coloca no caminho da maratona de Powell. A mais infeliz de todas é representada por Emilia Jones, um signo para a classe média ou a pequena burguesia americana, entorpecida por reality shows e conversas estéreis sobre nada. Powell entra-lhe pelo carro e, mesmo perante a revolta de Jones, facilmente a conquista fazendo o que faz sempre, acenando uma foto da sua família. Pouco consolo para Powell e Wright, que entram na resolução do conflito com a perspectiva de um desenlace verdadeiramente disruptivo apenas para o retirar da frente do espectador à última da hora. Tudo isto para nada, afinal de contas. A cruzada de Powell completa-se por via da recusa da própria distopia que King escreveu em 82. Somos brindados com a moral da história explicitamente exposta por Powell e Wright num monólogo final. A salvação está na informação responsável. Tal como a injustiça e a pobreza lhes parecem conceitos distantes, também a autenticidade não é o forte de Wright e Powell.

Hugo Dinis