No Iraque dos anos 90, sob o regime de Saddam Hussein, Lamia (Banin Ahmad Nayef), de nove anos, vive com a avó debilitada numa remota vila. Com o aniversário de Hussein a aproximar-se, a menina é encarregue de trazer um bolo para a turma… não tendo como pagar os ingredientes. Face à possibilidade de prisão, ou até morte, Lamia terá de recorrer à imaginação. Na sua primeira longa-metragem, Hasan Hadi concebe uma fábula moral comovente que retrata todo um país. “Caméra d’Or” na Quinzaine des Cinéastes (Cannes) e estreado em Portugal no LEFFEST 2025, “The President’s Cake” (Mamlaket Al-Qasab / “O Bolo do Presidente“) chega agora às salas comerciais. A Tribuna foi ver e a recepção não podia ter sido mais díspar. Hugo Dinis e Rita Costa apelidaram o filme de correcto, uma escolha ideal para preencher festivais de cinema para um público ocidental, atribuindo respectivamente 1 e 2 estrelas. Do lado oposto Paulo Ventura e Maria Inês Opinião ficaram rendidos e elogiaram a descrição das memórias do realizador, a experiência sensorial e a esperança transmitidas pelo filme. Conheçam todas as razões que sustentam leituras tão diferentes através das nossas críticas.
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Em The President’s Cake, primeira longa-metragem de Hasan Hadi, convivem realidades que não se conciliam: a pobreza e a ostentação, o espaço rural e a maquinaria do Estado, a infância e um mundo adulto moldado pela sobrevivência. Esses contrastes atravessam o filme desde o início e surgem tanto em imagens abruptas como em situações de ironia discreta, deixando claro que nada ali é neutro. A narrativa acompanha Lamia, uma criança iraquiana que vive com a avó e é escolhida pela escola para levar um bolo no dia do aniversário de Saddam Hussein, ditador que governou o Iraque durante décadas apoiado na repressão e num culto da personalidade omnipresente. A ação decorre nos anos noventa e concentra-se num único dia, organizado como um percurso pela cidade à procura dos ingredientes necessários para o bolo. O que mais se destaca no filme é a forma como trabalha a dissonância entre celebração e privação. Não há discursos nem explicações. A violência surge na normalização do absurdo, na exigência de venerar uma figura distante enquanto a vida quotidiana se organiza em torno da escassez. O humor seco aparece por momentos, quase sempre como mecanismo de defesa, sem nunca aliviar verdadeiramente o peso do trajeto. Apesar de alguns momentos visualmente marcantes e de uma atenção clara às personagens, The President’s Cake permanece demasiado preso ao seu próprio dispositivo. A ideia central não se desloca e o impacto, embora real, dissipa-se depressa. É um filme correto, por vezes tocante, mas mais contido do que perturbador.
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Rita Costa

Aqui vai uma ideia para Hasan Hadi, o realizador iraquiano radicado em Nova Iorque de The President’s Cake: fazer este filme na contemporaneidade. A primeira longa de Hadi conta a história de uma menina em busca dos ingredientes para fazer um bolo de aniversário a propósito do dia de anos de Saddam Hussein em 1990, em plena escalada para a Guerra do Golfo. A ocasião não admite, naturalmente, interpretações alternativas. Saddam é um herói nacional e o monopensamento social é o da sua santificação popular. Não há muito que tenha mudado no Iraque dali para cá, contudo. As repetidas intervenções americanas conferiram-lhe o estatuto de estado falhado e a pretensa liberdade conquistada apenas se cifrou num tipo diferente de opressão. Hadi vai recuperar uma era de exaltação nacionalista em torno de um salvador da pátria pelo prisma infantil e acaba por fazer um filme a lidar sobretudo com a pobreza e a miséria social do país do que com a ditadura baathista. A sensação que The President’s Cake dá, contudo, é que isso é de todo inadvertido. Lamia e Saeed são dois jovens sorteados na sua turma para fazerem um bolo e trazerem fruta a propósito da ocasião, pelo que a inevitabilidade da sua união de esforços cedo se impõe na narrativa. Ainda assim, a escolha de Hadi em procurar imprimir um registo de aventura num contexto em que tanto negrume está sempre à espreita é, no mínimo, questionável.
Lamia e Saeed não desenvolvem particularmente uma relação entre si, apesar da sua união. As diferentes tarefas que enfrentam têm em comum um certo abandono juvenil que parece demasiado mecânico aos olhos de Hadi e acaba por se traduzir numa narrativa de cadência inconstante. Apenas Lamia vê a sua situação familiar em evolução no ecrã. A ser educada pela avó perante a sua orfandade, foge à sua guarda após um encontro com a potencial mãe adoptiva. A partir daqui, desenvolve-se uma narração paralela dos esforços da avó para regressar à companhia de Lamia. Hadi, ainda assim, mantém no ar uma relativa indecisão face à escolha entre o aventureirismo de Lamia e o melodrama da avó, alternando entre os dois sem consolidar nenhum deles. O que The President’s Cake tem de mais forte, contudo, é a sua escolha imagética de contexto quer de abertura quer de conclusão. O pantanal iraquiano detém uma qualidade misteriosa que Hadi consegue captar com sucesso e que impele Lamia e a avó, bem como Saeed por arrasto, para uma alusão ao seu abandono societal. Vivemos numa sociedade, afinal de contas. As imagens do pântano não representam, ainda assim, o absoluto início ou sequer final da narrativa. Hadi não resiste a colocar o regime de Saddam com o papel central, evocando as sanções e o isolacionismo internacionais a abrir e a pomposidade e a megalomania do homem a fechar. Este pendor político faz de The President’s Cake porventura uma escolha ideal para preencher os cartazes de festivais de cinema ocidentais com preocupações sociais, mas não exactamente um filme de eleição por mérito próprio.
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Hugo Dinis

Foi uma enorme surpresa descobrir que The President’s Cake se tratava da primeira longa-metragem do realizador Hasan Hadi e, de seguida, contemplar algo que considero uma obra munida de uma visão totalmente concisa e decidida sobre aquilo que se quer e não se quer filmar. Apesar de ser a sua estreia em formato de longa, Hadi revela já uma certa mestria na sua noção de ambiência, que se mantém coerente durante todo o decorrer do filme, garantida pelo que me atrevo a chamar de um domínio quase completo da mise-en-scène. Agregado à direção de fotografia de Tudor Vladimir Panduru, o que nos chega à tela é o resultado do que parece ser uma câmara que tem completa noção de quando se deve aproximar ou afastar, quando seguir e quando esperar, e que se aproveita de todo o potencial da veracidade inerente à filmagem em localizações reais, bem como do excelente desempenho de todo o elenco de não-atores, com destaque para Baneen Ahmad Nayyef (Lamia), a protagonista que carrega toda a carga emocional do filme às suas costas.Desde os primeiros planos dos pântanos iraquianos, a imagética cinematográfica é construída de forma exímia e transporta-nos automaticamente para o Iraque dos anos 90, liderado por Saddam Hussein e marcado pela intervenção norte-americana – ou como lhe queiram chamar. Este conflito é, no entanto, arrastado recorrentemente, não só pela narrativa, mas pelo próprio dispositivo fílmico, entre o primeiro plano e o plano de fundo da nossa atenção, à medida que a ênfase do enredo se enraíza no dia a dia das personagens – afastadas de noções geopolíticas e ideológicas concretas – e nas consequências diretas que influenciam as suas vidas.A jornada de uma criança – Lamia – direciona-nos para um enquadramento bastante inocente e, de certa forma, inconsciente, que mantém o tom do filme relativamente leve, sem procurar esconder todo o contexto do conflito militar – muito pelo contrário. O foco, direcionado para as preocupações imediatas de uma menina incumbida da tarefa de fazer um bolo para as celebrações do aniversário do presidente, e incapaz de compreender a verdadeira complexidade de tudo o que se desenrola no seu país, permite uma certa infantilização do ponto de vista, sem que exista uma consequente infantilização da temática, do desenvolvimento do enredo ou do seu desfecho. Esta escolha de subjetivação da narrativa através da infância limita a exploração de conflitos mentais – políticos, sociais ou filosóficos – por parte das personagens centrais, Lamia e Saeed (Sajad Mohamad Qasem), tornando aquilo que mais se deveria destacar – o estado de guerra, a violência e a ditadura – num mero quotidiano normalizado e internalizado que inicia e dá chão à narrativa, mas que também lhe permite correr pelas suas próprias pernas, de forma imprevisível e inusitada, entre o drama, a aventura e a tragédia. The President’s Cake é, obviamente, um filme político e, como tal, deixa bem clara a sua opinião – ou a de Hadi – sobre Saddam Hussein e o seu regime. Apesar disso, mantém-se focado nas memórias de infância do realizador e na história que pretende contar, sem se perder pelo caminho em discursos panfletários, preservando a experiência sensorial que procura transmitir, muito mais preocupada com o bolo do que com o presidente.
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Paulo Ventura

De galo ao peito, Lamia, brilhantemente interpretada por Baneen Ahmad Nayyef, percorre uma cidade que não conhece à procura das raridades que compõem um bolo, num país sob sanção financeira e comercial. Parece apresentar uma consciência precoce daquilo que vive, ainda que não compreenda o desaparecimento da sua maçã ou a escassez de medicamentos. Os seus grandes olhos enfrentam a Coligação Internacional, o Iraque, Sadam Hussein e, principalmente, aquilo que a vida dos adultos lhe impõe, acompanhada por Saeed (Sajad Mohamad Qasem), colega-tornado-amigo, e Jasim (Rahim AlHaj), o carteiro descarado que os acompanha num episódio paralelo que o amarra à pequena família. Hasan Hadi cria retratos belíssimos dos pântanos iraquianos que isolam esta menina, que é já uma das únicas da sua turma, filha única e órfã, em contraste com as multidões que se unem em honra do Presidente. Cria um conto de raiva numa crítica subtil tanto ao regime como à intervenção externa, mesmo que as personagens não a sintam, simplesmente frustradas umas com as outras. O olhar entre Lamia e Saeed encontra-se entre a alegria, a esperança e, principalmente, a expectativa nesta primeira longa-metragem Hasan Hadi, que insere ainda uma ode macabra ao cinema.
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Maria Inês Opinião



