32 anos depois de Aonde É Que Pára a Polícia! 33 1/3 – O Insulto Final, o Mundo (na verdade um estúdio de cinema) decidiu que estava na hora de mais um reboot. Liam Neeson substitui Leslie Nielsen no novo Naked Gun, um regresso ao género aparentemente morto das spoof & gag comedies dos anos 90. André Filipe Antunes e David Bernardino viram o filme, ambos se riram, mas a conclusão final foi diferente.

O estado necrótico da comédia americana faz deste reavivar de The Naked Gun / Aonde é Que Pára a Polícia?! um dos filmes de estúdio mais importantes do ano. É uma triste constatação, desde logo por estarmos perante (mais) um género cinematográfico que, noutros tempos, Hollywood produzia de olhos fechados. E também porque, assumido esse estatuto, esta legacy sequel do velhinho Naked Gun de Leslie Nielsen torna-se, intencionalmente ou não, em mais um terreno de combate e dissertações sobre o futuro do cinema de grande ecrã, em que a alma de todo um género pende na balança e a possibilidade de não se gostar do filme se afigura como imoral, um autêntico crime contra a arte popular.
É esgotante este constante esgrimir de argumentos, ainda para mais quando falamos de um filme que se apronta a pouco mais do que um revivalismo nostálgico de um estilo cómico em desuso há décadas. Tentemos então colocar isso de parte: nos tempos modernos da Police Squad encontramos Frank Drebin Jr. (Liam Neeson, no termo lógico do arco de carreira “herói de ação pensionista” que constitui os últimos 17 anos da sua filmografia), filho do original, a braços com uma trama de intriga e conspiração homicida que o põe na órbita de um magnata da tech e de uma femme fatale apropriada para a idade do protagonista (Pamela Anderson, aqui muito melhor do que na tentativa de “seriedade” de The Last Showgirl). Um enredo que não é mais do que uma moldura decorativa para centenas de gags visuais, mal entendidos e literalismos cómicos, referências e cameos vários, num sendup dos policiais clássicos com um ritmo de piada-por-minuto tão rápido que é impossível acompanhar o andar da carruagem.
A reação individual ao novo Aonde é Que Pára a Polícia?! dependerá, em parte, do gosto informado pela geração a que pertencer o espectador. Pessoalmente, a minha relação com as comédias ZAZ (Zucker, Abrahams e Zucker) ao longo dos anos foi consistindo em apanhar um ou outro momento de alguma num canal cabo, revirar os olhos ao humor datado e mudar de canal ao fim de cinco minutos. São as comédias dos meus pais, que me perdoem os leitores da geração de 60, mas não são as minhas.
As reservas eram por isso algumas à partida. E confirmam-se: o novo Aonde é Que Pára a Polícia?! é um filme pueril, básico na sua construção, óbvio nas referências e piadas colocadas a martelo… e, que os santos me ajudem, eu ri-me. Ri bastante, até, em sequências tão parvas como anunciado (a gag de visão noturna no apartamento de Drebin é de particular destaque).
Há no filme uma leveza e um despudor, uma assunção clara da sua natureza e de ser o que é — a que não é alheia a curta duração, cerca de 80 minutos, sem contar com os créditos (mais do que isso e tornava-se um sacrifício). E há a identidade ZAZ, sim, mas filtrada pelo olho do produtor Seth McFarlane, talvez o último provedor de comédias para cinema com os seus Ted nos anos 2010 (e até esse franchise migrou para a televisão), e cujo estilo non sequitur aperfeiçoado em Family Guy sempre teve efeito em mim (lá está, gerações). E também do realizador Akiva Schafer, criativo dos The Lonely Island, trio que teve um impacto indelével na evolução da comédia na era da internet e das redes sociais.
Nem todas as piadas são vencedoras (o seu mero volume torna essa tarefa impossível) e chegamos ao fim já um pouco cansados da repetição estilística (ainda que o genérico final seja um bom digestivo). Ainda assim, será a melhor comédia de estúdio norte-americana em anos — que é realmente como dizer que em terra de cegos quem tem olho é rei. Enfim, se a experiência deste cronista é alguma indicação, teremos de nos render às evidências: no final, tornamo-nos todos os nossos pais.
![]()
André Filipe Antunes

Como fã de comédias paródicas e de gag como a série Police Squad, Naked Gun e Airplane, estava bastante desconfiado em relação a esta nova versão feita em 2025. Perante a estreia, surgiram críticas muito positivas — algumas até dizendo que era a melhor comédia americana dos últimos 10 anos, o que na verdade não quer dizer muito, já que o género comédia no cinema está praticamente morto. Liam Neeson e Pamela Anderson funcionam bem como uma dupla cómica, se estivermos no estado de espírito certo. No entanto, o fraco aproveitamento do talento pantomineiro de Paul Walter Hauser é imperdoável. Os primeiros 25 minutos são hilariantes, daqueles de rir até quase chorar. Liam Neeson a beber cafés e a atirá-los para o chão, o ouvir dos pensamentos deste polícia viúvo à filme noir, tudo isso são momentos preciosos. A seguir a esse setup, o filme entra em modo soluço, alternando de forma mais ou menos hábil entre piadas más, boas e as simplesmente tolas, sempre baseado num enredo que parece excessivamente centrado naquele que parece ser hoje o tema obrigatório em qualquer filme comercial americano: Elon Musk, homens milionários e poderosos, criptomoedas. Será que só por uma vez não podiam ter deixado de fora as notícias da televisão do que se pretende que seja uma comédia paródica intemporal e leve, por favor?
Esta nova versão de Naked Gun também consegue, de alguma forma, sabotar as sequências que deveriam ser marcantes com piadas fálicas (ainda que algumas sejam ótimas, como o boneco de neve simultaneamente amoroso e maléfico). O antecipado terceiro acto, o clímax, é demasiado caótico e barulhento, e até negro, deixando um sabor amargo que estraga a boa vontade do espectador que quer mesmo que este Naked Fun seja brilhante. Pouco depois, o filme termina. É difícil pensar num filme tão desequilibrado como este, que consegue ser mau e muito bom ao mesmo tempo. Fica a sensação de que este pode ser um daqueles que ganham com o tempo, mas há qualquer coisa que não bate certo.
![]()
David Bernardino



