Críticas a The Monkey, de Osgood Perkins

EquipaMarço 4, 2025

Numa “violenta” mudança de registo em relação à sua filmografia anterior, nomeadamente o muito discutido Longlegs, a nova “trip” de Osgood Perkins, The Monkey, é uma comédia (…familiar) de horror, com toques absurdistas e um gore espalhafatoso. “Everyone dies, and that’s fucked up“, dois irmãos a braços com um misterioso macaco de brincar (mas não lhe chamem de brinquedo !) que lhes foi deixado pelo pai. Dois tribunos foram ver, uma riu, o outro nem tanto.

 

Nesta adaptação do conto de terror clássico de Stephen King, Osgood Perkins desafina e não consegue soar ritmado na batida deste tambor. E mesmo assumindo que não se leva a sério, The Monkey não deixa de ser um filme comicamente mórbido. Embora recorra a um objecto tão óbvio e cliché, Osgood Perkins começa por apresentar uma história subtil mas intrigante. Este boneco de formas perfeitas, roupas garridas e guardado numa arrecadação anos a fio é o elemento de terror perturbador e misterioso do qual Perkins não depende certamente para sustos viscerais, mas que nele insere uma carga atmosférica perversa, que origina ocasionalmente jumpscares, oprime emoções e torna a narrativa cada vez mais sinistra. É na desobediência a um caminho linear ou tradicional, que Osgood cede a uma narrativa que deixa espaço aberto à imaginação. Desta vez mais sobrenatural e surreal, a estética é reforçada com cor, abdicando de uma cinematografia sombria ou minimalista. O macaco como ser indivisível tonifica a ideia de que a sua aura e fisionomia se fundem como um todo, fortificando a inspiração de Perkins nos elementos de terror gótico, complementando o suspense e o mistério com caos e crueldade. E muito sangue. The Monkey insurge-se então como uma metáfora, associando-se a aspectos primitivos, reforçando a ideia de uma presença inquietante, mas demasiado antecipada e previsível, que rapidamente aniquila as expectativas iniciais. A presença do macaco apenas contribui para uma melhor compreensão da ameaça aos seus donos e a todos os humanos que com eles se relacionam, e cujos medos e dilemas são interminavelmente expostos e aprofundados. Mas todo este peso encrustado na figura do símio torna-se insuficiente, visto que, no fim, apenas se retira um balanço equilibrado entre uma comédia negra que tem tanto de tola como de engraçada, mostrando-nos que ainda é possível um realizador divertir-se a fazer um filme, sem obedecer a padrões ou diplomacias. Perkins não é rígido na confecção, prometendo e cumprindo um filme perturbador e desconfortável, de abordagem distinta e caracterizada pelo seu crescente terror tão psicológico e atmosférico quanto grotesco. Só se lamenta que não vá longe o suficiente, acabando por nunca se inclinar totalmente para o absurdo e cinismo que deveria realçar, ao invés da canseira do drama que enfatiza.

Rita Cadima de Oliveira

 

 

No contexto contemporâneo de produtos de cinema que primeiramente se posicionam enquanto objectos específicos de cultura pop e, apenas num segundo tempo, enquanto simples filmes, The Monkey parece tentar repetir aquele “aluguer de vídeo” perfeito para uma noite de cinema animada entre amigos. O filme vive de um registo looney horror, tão corrente nos anos 80, que associa ao humor de uma sex-com de finais dos anos 90 (mas sem o dito sexo, claro). É um filme inevitavelmente juvenil, e nisso, inevitavelmente actual, parecendo adequar-se especificamente ao cinéfilo de 15 anos preso num corpo de 35. Relembra sucessivamente Jumanji (Joe Johnston, 1995), um filme “para crianças” que, apesar do sucesso que teve em sala (e da estética perfeitamente integrada num género de cinema do seu tempo), sempre pareceu um produto ideal para consumo “em VHS”. Mas The Monkey é sempre muito menos do que isso. Não tem um Robin Williams, nem uma Bonnie Hunt ou Kirsten Dunst. Tem um Elijah Wood – numa participação que, sendo pouco mais do que um cameo, é penosa e embaraçante, ao alinhar-se com o pior humor do filme – e um Theo James duplo – do medíocre ao ineficaz. E claro, apesar do titular macaco, também não tem animais, motivo substituído aqui pela morte.

The Monkey poderia, de facto, ser um simples exercício de estilo sobre “cinquenta maneiras” de matar, aleatoriamente… uma pessoa qualquer. Perkins, que, para outro embaraço seu, protagoniza o tio da personagem principal (saído de um imaginário Smash Mouth), despe-se da pretensa elevação que preenchera (o melhor, diga-se) do seu Longlegs, e propõe-nos o simples deleite de um “bom” cinema de consumo rápido e, imaginamos, de diversão. Mas a verdade é que estamos em 2025, e qualquer “bom” filme de horror gentrificado terá obrigatoriamente de abordar um campo narrativo muito específico. Sim, The Monkey é mais um filme sobre t-r-a-u-m-a, e será nesse seu prisma mais sério – bem mais do que no seu humor infantil – que tudo se tornará irrevogavelmente descartável. Existem traços de uma comédia familiar americana, via Stranger Things, uma proximidade com a turma mais divertida de Spielberg. Mas existe também uma falta de interesse profundo (de profundidade?) em cada personagem – a maioria preenchendo espaço ou servindo o mais básico gag – que simplesmente inviabiliza qualquer propósito sentimental ao filme. Enfim, também não ajuda que o filme troque o reconhecível universo escolar “anos 80” (apesar da acção se passar em… 1999), por um mundo de adultos onde tudo parece saído de um horrendo Edgar Wright por encomenda (o enclausurado Bill de 2025 sendo disso o exemplo perfeito). No final, pouco nos fica. E enquanto nos passeamos pela paisagem rural pós-apocalíptica com selo da Netflix, é-nos evidente que Perkins é demasiado pretensioso para que o seu filme seja sinceramente divertido, para que algo possa aqui, enfim, dançar.

Miguel Allen