Praticamente dois anos após o lançamento de Brat, que marcou 2024 e deu origem a expressões como “Brat Summer”, Charli XCX chega agora ao cinema com The Moment, uma sátira ao próprio fenómeno cultural que ajudou a criar. Protagonizado pela cantora e baseado numa ideia original sua, o falso documentário acompanha uma versão ficcionada da artista num momento de viragem na carreira, iniciado em setembro de 2024, quando se prepara para a sua primeira grande digressão e lida com um nível de fama nunca antes vivido. Estreia cinematográfica do escocês Aidan Zamiri, após trabalhos em videoclipes como Guess e 360 da própria Charli e Birds of a Feather, de Billie Eilish. Paulo Ventura e Carla Rodrigues assinam as críticas.
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Who the fuck are you? I’m a brat when I’m bumpin’ that
Quem se lembrar do meu contributo para o artigo com Os Filmes Mais Aguardados de 2026 sabe com quanto entusiasmo aguardava este The Moment. Tenho andado com o brat summer arrumadinho no coração desde o verão de 2024, período verde-maçã que, para mim, atingiu o pico num concerto da própria Charli XCX em 2025 e que agora chega (com alguma tristeza o digo) ao seu vale com este filme.
Antes das coisas más, as coisas boas. The Moment é, no papel, uma ideia interessante: escrutinar o que acontece quando uma estrela pop decide satirizar a maquinaria que lhe deu a fama. O movimento brat, com todo o seu niilismo e acidez, é a matéria-prima para uma autoparódia. É admirável a decisão de Charli XCX não cair na tentação de fazer um documentário celebratório sobre si própria. Em vez disso, decide usar o formato de mockumentary para exorcizar a tensão criada por uma digressão e um sucesso sufocantes. Rodeou-se de talento. A realização ficou nas mãos de Aidan Zamiri, que já tinha sido responsável pelos videoclipes de 360 e Guess, e, portanto, conhecia bem a gramática visual daquele universo hiper-saturado e caótico. A banda sonora é de A. G. Cook, arquiteto sonoro de grande parte da discografia de Charli. E o elenco inclui nomes curiosos, desde Alexander Skarsgård (a provar outra vez que está mais que à vontade quando abraça o absurdo) até figuras da britcom reconhecíveis, mas de nicho, como Jamie Demetriou. Em teoria, isto tinha tudo para resultar numa grande sátira pop, uma mistura de ego trip, ansiedade artística, fama na era dos algoritmos, e crítica cultural.
O filme gira à volta de uma versão de Charli XCX permanentemente insegura, indecisa, à beira de um ataque de nervos e manipulável por forças corporativas que querem transformar o movimento brat num produto limpinho e embalado para consumo global. É um conceito com potencial. E há momentos em que o filme quase consegue chegar perto da rebeldia geracional do álbum.
Os cameos ajudam. Ver figuras como Rachel Sennott, Julia Fox ou Kylie Jenner aparecerem como encarnações ambulantes da indulgência Gen Z é, pelo menos, divertido durante alguns minutos. Charli, por seu lado, surpreende pela naturalidade com que abraça esta versão caótica de si própria.
Apesar disto, e por muito que me custe admiti-lo, The Moment prometeu tudo e entregou pouco. Em termos estruturais, The Moment sente-se inerte. O filme tropeça nas próprias ambições. Quer comentar a cultura dos influencers, a exploração artística, o peso da fama, o processo criativo, e a indústria musical contemporânea. Tudo isto em menos de duas horas. Fica-se com um objeto narrativo que passa grande parte do tempo a orbitar essas propostas sem nunca as aprofundar.
Zamiri filma com estilo, já se sabe. Não surpreende, vindo de alguém habituado ao mundo hiperestilizado dos videoclipes, das sessões fotográficas, e da publicidade (afinal, foi um dos grandes arquitetos da press tour de Marty Supreme). O problema é que aquilo que funciona num formato de três minutos nem sempre se traduz para uma longa-metragem. Há sequências de encher o olho, mas falta-lhes propósito narrativo. O cinema exige que as cenas ajudem a estruturar, a empurrar as ideias em direção a alguma coisa, e não só a parecerem linguagem de videoclipe.
O ritmo oscila entre o frenético e o estranhamente apático. Há cenas onde o diálogo se sobrepõe de forma quase improvisada, com personagens a falarem todas ao mesmo tempo e piadas tão soltas que nem chegam a aterrar. Seria fácil defender que esse caos é deliberado, que espelha a estética desordenada e hiperativa do próprio movimento brat. Talvez. Mas por alguma razão aquilo que resulta bem na música não resulta assim tão bem no cinema. Falta-lhe um elemento essencial: uma inteligência satírica que consiga ser mordaz a sério.
O filme nunca se torna engraçado que chegue para funcionar como comédia pura, nem desconfortável ao ponto de ser sombrio ou um thriller psicológico sobre celebridade e autodestruição, tom do qual quer sem dúvida aproximar-se. Fica num limbo estranho onde tudo tem o potencial de ser interessante, mas nada é levado até às últimas consequências. Há pouco risco, a sátira acaba domesticada. E aquilo que podia ser um retrato cáustico e pertinente da cultura pop fica-se pela metade baixa da piscina, com medo de perder o pé.
A minha parte favorita foi o final (não porque o filme acaba, calma). Uma sequência de cenas deliciosa arruína a fantasia de que a autenticidade artística sobrevive intacta ao contacto com a máquina da indústria musical. É um gesto pessimista e quase cruel que, por alguns minutos, devolve ao filme a irreverência que o resto da narrativa, na sua maior parte, evita.
São estes breves momentos em que The Moment mostra os dentes que tornam mais frustrante tudo o que o filme não chega a fazer. O álbum brat é uma explosão de energia DIY, arrogante, desarrumada e ferozmente consciente da sua própria artificialidade. O filme, por comparação, parece polido por muito que queira fingir que não é. E se há coisa que a era brat nunca deveria ser é polida. Fica a sensação de muito potencial por aproveitar. Prémio de consolação: o brat summer já ninguém nos tira.
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Carla Rodrigues

The Moment conversa diretamente com o seu público-alvo, sem pretensões de impressionar aqueles que não acompanharam de perto o fenómeno que foi o brat summer. Não se trata de um documentário sobre Charli XCX, mas de uma espécie de carta aos fãs da artista britânica, com uma mensagem bastante clara, mas de objetivos questionáveis.
Em registo de mockumentary, The Moment aproveita-se do meta-cinema para criticar uma indústria que procura sugar por completo todo o potencial financeiro das suas estrelas pop, e não poupa recursos para satirizar a monetização da imagem de uma artista através de objetos periféricos à sua obra original – neste caso, a produção de um filme-concerto. Há um reajuste do olhar – do foco na arte para o foco na artista – à medida que nos aproximamos de Charli XCX e nos afastamos da ideia abstrata do seu concerto e da sua música. Assim, The Moment esforça-se por nos aproximar do íntimo da sua protagonista e ridiculariza todos os que procuram lucrar com a exploração exacerbada e manipulação do seu projeto artístico. Fica, no entanto, a dúvida sobre se este projeto tem plena consciência da sua própria contradição existencial e do seu potencial mercantil. Charli (a personagem) tem medo do fim; de abandonar o seu maior êxito, de admitir que o brat summer acabou e de seguir em frente. The Moment assume-se como esse fim – essa conclusão – e coloca um ponto final nessa fase da artista. Contudo, de forma propositada ou acidental, poderá também provocar o renascimento de um período da carreira de Charli (a artista pop) que já parecia praticamente esquecido. Será The Moment um filme sincero? Um desabafo da artista e um momento (à falta de melhor palavra) de conexão com os seus fãs? Ou tratar-se-á de um excelente golpe de marketing que procura uma ressurreição disfarçada de velório? Só Charli o saberá.
Há um progresso interessante na narrativa de The Moment, mas que demora demasiado tempo a chegar e que, quando finalmente o faz, não é bem-vindo. O arco de tensão que culmina no final do segundo ato desta história – o “clímax”, se assim lhe quiserem chamar – transporta-nos subitamente para uma escala narrativa de muito maior risco e perigo e coloca estas personagens, principalmente Charli XCX, numa encruzilhada de proporções verdadeiramente avassaladoras. É pena, no entanto, que o potencial narrativo de tal momento não seja aproveitado por completo e que tudo se conclua de forma desinspirada num anticlímax que desaponta emocionalmente.
Trata-se da estreia de Aidan Zamiri na realização cinematográfica, o que, infelizmente, se torna bastante percetível à medida que o filme avança. Todos os pontos fortes estilísticos em The Moment são marcados pela velocidade e ritmo do videoclipe, e pelo impacto imagético da publicidade, que permitem a construção de diversos momentos isolados de originalidade estética e conceptual, mas que rapidamente expõem a banalidade estrutural da obra como um todo. Cada sequência de montagem frenética, normalmente acompanhada por música ou por grafismos impactantes, revela uma capacidade habilidosa de construção de energia que rapidamente desaparece, à medida que somos arrastados de novo para um estilo de mockumentary convencional. Tanto estas montagens mais velozes quanto os grafismos usados recuperam o espírito estético original de brat, mas são gradualmente reduzidos a instantes de transição entre cenas narrativas, como luzes e flashes que simulam aquilo que o filme verdadeiramente não tem: ousadia.
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Paulo Ventura



