Adaptação cinematográfica do livro best seller com o mesmo nome escrito por Freida McFadden, The Housemaid – A Criada é o sucesso inesperado de bilheteiras do início de 2026. Esta mescla de romance e thriller picante, com pitadas de “mensagem”, é protagonizado por Sydney Sweeney, a cara bonita de Hollywood que tem polarizado opiniões por razões fora do cinema, mas que nem por isso parece ter prejudicado o interesse do filme. As salas continuam cheias para ver este curioso objecto, tão acessível para todas as demografias de espectadores que se sentam no cinema. Amanda Seyfried contrata Sweeney como empregada doméstica interna da casa milionária onde vive com o seu marido interpretado por Brandon Sklenar. Mas, pasme-se, nem tudo é o que parece. Hugo Dinis e David Bernardino conseguiram arranjar um lugar para assistir a este fenómeno colectivo e as conclusões são as esperadas.
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The Housemaid é um óptimo filme para se começar o ano. Sessão cheia, na verdade praticamente a abarrotar de gente de todas as idades, sexos e sensibilidades. Um enorme sucesso de vendas enquanto livro, The Housemaid tem um apelo transversal impressionante. Porquê? A narrativa telenovelística, sustentada em sucessivos contornos dramáticos de enorme impacto, lá terá um papel a representar, mas The Housemaid é, na sua essência, uma peça de moralidade populista. A história segue o ingresso de uma mulher-a-dias (Sydney Sweeney) na casa de um casal aparentemente idílico. O puxar de temas de classe surge de imediato como tópico du jour, mas The Housemaid depende tanto da moralidade que neles carrega como do absurdo com que a acção decorre. Este é um filme que, em mãos mais capazes que as de Paul Feig, empurraria o indicador desse rocambolesco o mais longe possível. Essa parece, pelo menos, ser a intenção de Amanda Seyfried. Grande parte do tom imprimido depende da performance desbragada da mulher da casa. Seyfried compreende a missão e executa-a, mas Feig deixa-a sozinha no campo de batalha que é a sucessão de inversões e contra-inversões narrativas aqui. A chegada de Sweeney coincide também com a colocação da acção sob o seu ponto de vista. A opção é facilmente explicada pela forma como a trama depois se acaba por desenrolar, mas apenas serve para centrar a personagem menos interessante do elenco e a actriz menos capaz de mudar esse facto.
As curvas de The Housemaid levam-nos eventualmente ao casamento entre Seyfried e um profundamente hirto Brandon Sklenar. É aqui que reside a moralidade do livro de Freida McFadden e, por arrasto, a reverência quase sepulcral de Feig face ao seu material de origem. O mesmo freio que impede que The Housemaid enverede pela insanidade kitsch que merecia é aquele que prega Feig ao respeito integral pelo registo inteiramente sincero de McFadden. A sua formação enquanto profissional de saúde não a desqualifica de um entendimento perfeitamente caricatural da doença mental, em particular à luz do trauma que assola Seyfried. Sklenar assume uma vilania com a profundidade de um modelo de roupa interior, sem qualquer contacto discernível com o espectador. Por outro lado, à medida que os propósitos de Seyfried e Sweeney se aproximam, mais à vista fica a ausência de ambição na concretização de um final satisfatório. Feig faz questão de manter as incidências dentro do telenovelismo do romance e nada mais daí advém. Mas não é bonito ver a sala cheia?
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Hugo Dinis

O que mais impressionou foi o fenómeno. Filme anónimo pensariam os menos avisados, mas a realidade é que duas ou três semanas depois da estreia as salas continuam cheias para ver “A Criada“. A primeira metade do filme desenrola-se como uma novela, a partir da perspetiva da personagem ingénua da empregada doméstica interpretada por Sidney Sweeney, com um passado sombrio, enfeitiçada por Brandon Sklenar, o marido perfeito da patroa da casa: uma versão louca à beira de um ataque de nervos de Amanda Seyfried. Para este papel, onde de pede carisma e magnetismo, Sklenar é incrivelmente insosso oferecendo pouco mais que o seu sorriso incrivelmente branco. Por outro lado Amanda Seyfried trabalha em turnos rotativos para honrar o seu trabalho como boa atriz. O que se segue é um romance proibido que nos faz lembrar os velhos tempos de Fifty Shades of Grey, quando uma grande fatia da população se interessou subitamente por literatura ligeiramente picante. O desenvolvimento desta paixão/paixoneta é tão superficial que é difícil não rir ao testemunhar uma escrita adolescente desgovernada e medíocre, elevada apenas pela atractividade de Sweeney e Sklenar que farão certamente as delícias dos fãs de cinema ligeiro. Depois surge a reviravolta suculenta da história, que pega no espectador indefeso pela mão para uma exposição narrativa brutalmente longa do que aconteceu antes, agora a partir de um ponto de vista diferente.
The Housemaid é um exemplo particularmente agudo de como alguns filmes são suficientemente manhosos para fazer o público sentir-se orgulhosamente inteligente por perceber uma reviravolta que entra ligeiramente no território do gore, apenas o suficiente para se manter dentro dos padrões do mainstream. A alegada inteligência do enredo é facilmente desmontada por um olhar atento, à medida que vários buracos de argumento vão surgindo cada vez mais ao longo do filme. Pouco do que acontece é de facto verosímil, mas é também disso que vive o filme: podia ser tudo real(?). The Housemaid quase atinge o território do tão mau que é bom, mas a total ausência de ironia e a abordagem absolutamente preguiçosa e autocentrada às questões de classe social e feminismo não ajudam e acabam por transformar o filme numa piada. Num mundo em que Sydney Sweeney está a ser cancelada e ninguém em que ninguém viu o filme genuinamente bom que é Christy que esteve há uns meses atrás no cinema, é no mínimo inesperado ver como o público está a aderir tanto a esta adaptação do livro best-seller.
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David Bernardino



