Críticas a The End of Oak Street, de David Robert Mitchell – Entre o Pastiche e a Autoconsciência

EquipaAgosto 25, 2026

Após os sucessos de It Follows (2014) e Under The Silver Lake (2018), David Robert Mitchell regressa ao grande ecrã com The End Of Oak Street. Com Anne Hathaway e Ewan McGregor nos papéis principais, o filme acompanha uma família americana suburbana que se vê transportada para uma era em que os dinossauros habitavam o planeta. Uma história clássica de sobrevivência que cruza a nostalgia dos trabalhos de J.J. Abrams na sua produtora Bad Robot com a exploração dos laços familiares que unem a experiência tradicional americana. A Tribuna foi às salas conferir onde param desta vez os dinossauros. Abaixo, as críticas.

 

*

 

Um filme difícil de analisar porque, apesar de obviamente ser medíocre, é divertido em igual medida. É bom ter um thriller de dinossauros que não seja Jurassic Park, e que também não seja uma produção rasca de baixo orçamento do canal Sci-Fi. Oak Street é o ponto intermédio. David Robert Mitchell parece compreender por que razão é tão difícil fazer um filme de dinossauros: é preciso ter uma desculpa credível para encaixar uma narrativa onde humanos e dinossauros possam coexistir. Entre viagens no tempo e worm holes, Oak Street dá-nos uma das desculpas mais simples possíveis para encaixar o conceito de um bairro suburbano americano dos anos 80 ficar subitamente infestado de dinossauros. E é aí que começa a distorção conceptual, dentro e fora de filme, de The End of Oak Street.

Oak Street parece ter consciência das suas limitações. Abraça-as. A família protagonista, os vizinhos e os amigos têm uma apresentação acolhedora no primeiro terço do filme, com uma banda sonora alegre e um sol reconfortante, até ao caos dinossáurico estalar, numa mudança súbita de um retrato do quotidiano pacato para um thriller com elementos de terror. A realização, a montagem e as cenas de ação são de facto derivativas e estandardizadas, como um filme para maiores de 12 para toda a família a balançar no limite. Existem apenas um par de momentos em que o perigo real entra no domínio das emoções do público. Anne Hathaway, Ewan McGregor e os miúdos passeiam mais ou menos às escondidas pelos quintais de Oak Street de forma surpreendentemente pacífica na maior parte do tempo, e nenhuma das interpretações parece pretender ser levada a sério, com sequências e decisões caricaturáveis que permitem encontrar essa intenção de David Robert Mitchell (como a busca e salvamento do cão da família, Starbuck).

The End of Oak Street insinua algum desenvolvimento de personagens (Hathaway está a escrever um livro, McGregor está com dificuldades no trabalho), mas a autoconsciência do filme nunca permite que isso, ou outros pontos do enredo que dão palco aos miúdos, sejam desenvolvidos de alguma forma. Talvez o principal ponto de interesse do filme seja mesmo ver como algo “deste género” funciona fora do mundo de Jurassic Park. Pelos vistos pode ser feito, com a linha ténue entre a caricatura, o humor negro e o drama emocional a desenrolar-se como novelo numa série de estranhos testes de tom onde filme o público se possam encontrar. A serpente branca gigante no terceiro ato será a machadada final dessa autoconsciência série B blockbusteriana. Recebe 2 estrelas devido à audácia e à postura descarada de querer, e conseguir, encontrar um terreno alternativo aos filmes de dinossauros de low-budget da tv cabo.

David Bernardino

 

Fazer bom pastiche é uma arte complicada. Mas fazer mau pastiche é uma tarefa ainda mais difícil. Do ponto de vista conceptual, The End of Oak Street é facilmente o filme menos ambicioso de David Robert Mitchell até à data. O enredo procura muito mais uma colagem do que uma reinterpretação de War of the Worlds (2005), conforme idealizado por Steven Spielberg… mas com dinossauros. Já a criação de mundo pouco passa para lá do serviço da indústria da saudade, não fosse esta uma produção da Bad Robot de J.J. Abrams. Na verdade, o que destaca este trabalho de encomenda de Mitchell de algum tipo de conteúdo directo a streaming será aquilo que ainda resta da mundividência que fez transparecer em trabalhos como Under The Silver Lake (2018) ou It Follows (2014). A forma como o survivalismo resulta como inerentemente anti-comunitário e intensamente auto-centrado na narrativa pessoal de cada qual. Oak Street abre, de resto, com uma demorada sequência, povoada por defeitos de excesso de diálogo expositivo, é certo, mas centrada numa celebração comunitária. A família de Anne Hathaway e Ewan McGregor é um ovni numa típica recriação de festa de bairro: os filhos são perseguidos por bullies ou referenciam Carl Sagan a outros adolescentes estupefactos, enquanto que o casal aparenta estar à beira da ruptura (mais uma recorrência Spielbergiana).

A quebra necessária não surge sem avisos, contudo. Surgem estranhas vegetações em quintais de vizinhos e repetem-se inexplicáveis clarões que trazem consigo fenómenos desconexos. Outrora, como em Silver Lake, por exemplo, Mitchell faria destes mecanismos um pretexto para deixar o filme expandir ou implodir sobre si próprio. Mas, se tanto, este Oak Street sofre pela falta de imaginação a que se vota. O bairro é transportado para outra era, mas mais podia ser outra dimensão, e as pessoas revelam a sua natureza. Os vizinhos desaparecem e as finas estruturas sociais que pudessem sustentar uma comunidade estão a léguas da câmara de Mitchell. O survivalismo toma as rédeas de um drama familiar que faz entornar o seu copo dramático na piscina do facilitismo narrativo, sempre fora do seu próprio centro mas nunca no campo do surrealismo. O deslassar comunitário torna a vida familiar num amontoado de lugares comuns difíceis de evitar e as individualidades esbatem-se: McGregor é um bloco de cimento predisposto a inexplicáveis declarações de fé e mostras de amor aleatórias, enquanto Hathaway faz descambar a sensibilidade literária num caudal intensamente niilista que se consome perante o caos. Cineastas como Mitchell fazem-nos desacreditar das virtudes dos trabalhos por encomenda em Hollywood, mas recear pelas alturas em que realmente possam gozar das liberdades autorais de outros tempos.

Hugo Dinis