Zendaya e Robert Pattinson preparam-se para casar. O noivado, e a própria relação, é posto à prova quando uma reviravolta inesperada faz descarrilar a semana do casamento. Esta é a premissa de The Drama, o novo filme de Kristoffer Borgli, jovem realizador norueguês, aqui com a chancela da A24. Uma sátira atrevida, fábula moral subversiva, que se inscreve na linhagem de outros provocateurs do cinema escandinavo. Quatro tribunos escrevem sobre o filme.
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No contexto do que tem vindo a ser o trabalho de Kristoffer Borgli, o tipo de provocação que The Drama evoca já não é particularmente uma novidade. Entre Sick of Myself (2022) e Dream Scenario (2023), a ideia de brincar com os pressupostos das convenções sociais de decoro e relacionamento semipúblico tornou-se progressivamente um pretexto para Borgli trabalhar a forma como uma premissa insidiosa é capaz de quebrar os fundamentos de tudo e mais alguma coisa. Em The Drama, como em Sick of Myself, estamos no contexto de uma relação na qual um dos elementos do par se vê perante a força da aceitação daquilo que Borgli apresenta como um segredo pessoal indecoroso. A premissa é colocada na base de uma relação aparentemente idílica, mas que radica num “meet-cute” mentiroso. Robert Pattinson finge conhecer o livro que Zendaya se encontra a ler num café como forma de cair nas suas boas graças. A ideia é desfeita pelo próprio Pattinson no decorrer do seu primeiro encontro, mas não antes que este agonize sobre se será socialmente mais aceitável admitir o engodo ou simplesmente ir ler o desgraçado livro. É neste contexto que a descida ao mundo de Borgli, no qual as convenções sociais se mantêm inatacáveis e a provocação surge como entidade herege suprema, dá início.
Na verdade, a partir do momento em que é revelado o segredo de Zendaya, Borgli abdica quer de construir as suas personagens quer de aprofundar a sua própria provocação social. A Zendaya e Pattinson, pouco resta senão um longo e burilado exercício de autocontrolo. Pattinson enfrenta a realidade do passado de Zendaya através de uma lente de inserções projectadas e centralizadas pela montagem nervosa de Borgli. Já para Zendaya a tentativa de controlar danos, em particular no que toca à sua relação com a amiga Alana Haim, faz com que praticamente desapareça enquanto personagem. A revelação do seu passado é colocada em plano de relevância apenas no que diz respeito a Pattinson e à sua posição na relação. Colocada em questão por um cineasta europeu, a forma como a sociedade americana lida com a sua cumplicidade com o quotidiano marcado pela sobrepresença das armas e dos seus efeitos devastadores teria o condão de ser explorada através do reservatório de violência que ela acarreta. E, com efeito, é isto que Borgli procura fazer, ainda que sem respostas possíveis.
Contudo, se há algo que o cinema de Borgli e de outros provocadores como Ruben Östlund ou Lars Von Trier no passado se abstém de oferecer, é essa catarse. Quando eficaz, o efeito satírico coloca-nos perante o retrato de algo que julgávamos ausente, para lá do consciente societal. Mas se não será Borgli a ter a coragem de o fazer, deverá esse fardo recair no espectador? Há semanas, Borgli foi notícia por um post seu num blogue escrito há vários anos no qual admitia ter mantido uma relação com uma estudante do liceu. A sua conclusão era que, à semelhança de Woody Allen, a indignação social com este tipo de diferença de idades numa relação estaria sempre no julgamento de uma espécie de turba popular. O post e a visão de Borgli não vem ao caso no que a The Drama diz respeito, mas ajuda a explicar o próprio título deste filme. As convenções sociais que Borgli procura satirizar servem para ilustrar a forma como este olha para o jogo entre as suas personagens. Nem Pattinson nem Zendaya têm agência própria para além das pressões sociais a que estão sujeitos. São peões num drama de sua própria criação e a partir do qual os tropos de decoro social se apressam a procurar condenação. Enquanto comédia de mal entendidos, The Drama terá, por certo, os seus momentos, mas enquanto sátira de costumes, Borgli já teve mais para nos dizer.
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Hugo Dinis

The Drama parte de uma premissa que Bret Easton Ellis poderia ter assinado: numa noite de jantar regada a álcool, entre casais de amigos, alguém revela um segredo. O problema é que o segredo em questão não é propriamente uma aventura, nem um mistério familiar. O realizador norueguês Kristoffer Borgli – já conhecido pelo desconfortável, mas ambicioso, Dream Scenario – instala-se deliberadamente nesse território: a comédia sobre a bruguesia como dispositivo de tortura psicológica. Charlie (Robert Pattinson), historiador de arte britânico radicado nos Estados Unidos, conhece Emma (Zendaya) num café, apaixonam-se, e tudo aponta para uma vida de filme de Hollywood. Até àquela noite. E, por um momento – nesse momento – o filme parece estar prestes a tornar-se em algo verdadeiramente perturbante.
Só que Borgli recua. A partir do momento em que a confissão aterra na mesa, The Drama oscila entre o thriller psicológico e a sátira social sem decidir onde quer estar. A ambiguidade de tom (negro o suficiente para ser comédia, demasiado absurdo para ser horror?) acaba por trabalhar contra o filme. Zendaya carrega a personagem com uma contenção que é o maior trunfo do filme. Pattinson, pelo contrário, está na zona que lhe é mais confortável, a de o homem afável e ligeiramente deslocado que vê o chão desaparecer debaixo dos pés, mas o argumento não lhe oferece material suficientemente incisivo. A relação entre os dois ressente-se disso: falta-lhe a tensão que a premissa prometia. O que fica, no final, é menos um filme sobre violência latente e mais uma reflexão algo tímida sobre o que acontece quando o passado irrompe no presente e a intimidade se parte. Há uma ideia séria aqui algures (aproximando-se daquela de Thoreau de que a maior parte de nós vive vidas de quiet desperation), mas The Drama trata-a com luvas demasiado limpas para o que a situação exigia. O filme quer incomodar mas recusa-se a sujar-se. E é precisamente aí que se perde.
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Raquel Sampaio

The Drama é uma comédia que tem tanto de romântica como de sombria. Um filme que nos faz questionar, em tempo real, qual seria a nossa reação se o nosso noivo revelasse algo chocante sobre o seu passado e, claro, qual o nosso segredo mais obscuro – e se o revelaríamos a quem quer que fosse.
Kristoffer Borgli é provocador, não só nas questões que evoca, como na forma como realiza o filme. A título de exemplo, as ilusões óticas que Charlie (Robert Pattinson) tem ao folhear um livro, ou os flashbacks que sabemos serem fictícios mas que Borgli os encena ainda assim. O realizador é também quem assina o argumento, divertido e cujos melhores momentos prendem-se com todos os contratempos cómicos que os futuros marido e mulher enfrentam nos poucos dias que antecedem o seu casamento: a DJ que talvez seja ou não consumidora de heroína, a professora de dança exasperada com a falta de seriedade dos noivos em relação à sua primeira dança, a fotógrafa (Zoe Winters) que se queixa que os apaixonados não conseguem sorrir naturalmente… Winters, que vimos no ano passado em The Materialists, tem um papel muito pequeno, mas a atriz torna-o bastante memorável. Uma das melhores piadas do filme é sua, com o seu trocadilho que põe o dedo na ferida sem a própria se aperceber.
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Pedro Barriga

O último filme do norueguês Kristoffer Borgli parece aproximar-se de vários comentários inconclusivos. O que significa fazer uma coisa errada por ceder aos instintos? Serei má pessoa por planear uma coisa má? Devo aceitar estas ações dos outros? Existe redenção? O filme fundamenta as ações de Emma (Zendaya) com base numa subcultura online somente aludida. Pretende-se que a idealização das armas ressoe com um público distante (culto e/ou europeu) e quando surge a oportunidade de a demonstrar, a personagem surge como um simples produto da contemporaneidade ao invés de um alvo de uma ressocialização. É curioso que isto seja, sequer, uma questão, já que se supõe que o realizador, europeu, também não se terá aproximado tanto desta subcultura que a tome por conhecimento geral.
Curiosamente, a maior clareza está em Rachel (Alana Haim). Toda ela é uma contradição, desde as suas microagressões de motivação racial contra Emma e o próprio marido (Mamoudou Athie) à clara sátira aos movimentos que surgem contra determinado indivíduo em consequência de determinada ação – o vulgo “cancelamento”. Funciona como um lembrete de que nem todas as ações são julgadas de igual forma, pode depender de quem as faz. Toca em personagens que nos começaram a ser queridas, tornando a presença da irmã Haim inquietante.
Robert Pattinson apresenta-se surpreendentemente normal com Charlie, antes de entrar na sua espiral obsessiva. Esta é esperada pelo público, já que o casal menciona várias vezes esta sua tendência. As menções retiram-lhe força, imersão. Ainda assim, Pattinson é o do costume, absolutamente extraordinário e memorável. A Zendaya é finalmente dada a oportunidade de justificar todo o louvor que habitualmente a rodeia – sem dúvida a sua melhor performance no grande ecrã.
Aquela que, afinal, poderá ser uma comédia romântica, diz mais sobre aquilo que estamos dispostos a superar do que sobre quaisquer outros temas introduzidos. O final concretiza a primeira reação de Charlie ao ouvir o segredo de Emma, dando a ilusão de um filme coeso. The Drama cumpre em ser hilariante, em desafiar convicções.
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Maria Inês Opinião



