Críticas a The Day the Earth Blew Up: A Looney Tunes Movie, de Peter Browngardt

EquipaAgosto 28, 2025

Como que vindo do espaço, um novo filme de animação 2D de Looney Tunes aterrou nos cinemas, sem que nada o fizesse prever. Nele, os protagonistas, Daffy Duck e Porky Pig, encontram-se a braços com uma invasão alienígena. David Bernardino e Miguel Allen foram ver esta gag-comedy que parece deslocada no tempo. As reações não podiam ter sido mais diferentes, como já é habitual na Tribuna do Cinema. Descubram se o filme é bom ou mau com as nossas críticas.

Quando uma fábrica de pastilhas elásticas se transforma no epicentro de uma invasão de alienígenas decididos a conquistar a Terra, Daffy e Porky tornam-se, contra todas as probabilidades, os únicos capazes de nos salvar. Os dois, acompanhados por Petúnia, uma nova aliada, enfrentam, com coragem (mas pouca contenção), os inimigos vindos do espaço.

 

Entre os anos 30 e 60 os Looney Tunes viram o seu apogeu. Tex Avery criou o tom, o anarquismo, a loucura, os gags transgressivos, apurados posteriormente por Chuck Jones. Porky Pig e Daffy Duck foram a cara dessa loucura. Criados em 1935 e 1937, respectivamente, – e curiosamente antes de Bugs Bunny – , assumiram-se como dupla: Porky o mais sensato e Daffy a cristalização dessa loucura esquizofrénica do humor looney-tunesco. Numa era em que o humor do gag sem limites, e os Looney Tunes em específico, parecem desinspirados (a série actual, não sendo má, está longe dos clássicos dos anos 40/50), este The Day the Earth Blew Up parece funcionar como um antídoto perante essa apatia genérica que é o actual cinema de animação. E não esquecer uma característica que parece estar em vias de extinção: o filme não é (!!) em 3D gerado por computador. São mesmo desenhos. Ufa.

Aquilo que começa como uma coleção de gags, que fazem referência directa às buddy comedies de Porky e Daffy nos tempos de Tex Avery e Chuck Jones – tal como a busca de emprego para pagar a renda de casa, ou a desarrumação da casa em si -, com uma animação agradável e piadas que esticam um pouco a corda inesperadamente para 2025, vai-se tornando a pouco e pouco em algo mais. Perante uma ameaça alienígena que planeia dominar o Mundo, Daffy e Porky encontram-se numa situação absurdista, como é seu apanágio, onde os temas interiores, como a amizade, a confiança, a autoconfiança, e mesmo o amor convergem naquilo que é um verdadeiro filme de animação de género. Sem que nada o fizesse prever, The Day the Earth Blew Up conscientemente abraça a linguagem do Terror, com referências a The Thing, Aliens, ou aos sci-fis americanos e surrealistas dos anos 50, como Invasion of the Body Snatchers, Them! ou The Blob. Num nível muito light (afinal é um filme para crianças), The Day the Earth Blew Up consegue capturar momentos de real adrenalina, metaforizando a paranóia e a loucura dos seus protagonistas perante uma população lavada cerebralmente, sem nunca se deixar cair na teia do paternalismo.

Não há dúvida que esta não é apenas mais uma coleção de sketches loucos, ou de piadolas selvagens protagonizadas pelo pato que só quer partir tudo. A linha narrativa em crescendo, com um inesperado terceiro acto que subverte o horror da sua peripécia, esmaga este filme de animação numa comédia em que parece existir de facto algo em jogo, onde o desenvolvimento de personagens (exploradas e reviradas ao longos dos últimos 90 anos) é real, onde se apalpa algo mais que apenas um produto de estúdio. The Day the Earth Blew Up não tinha que existir. Ninguém tinha pedido isto. Mas existe, não é uma porcaria smurfiana, e consegue capturar com sucesso a alma passada dos Looney Tunes, sem ser derivativo. Tomara que fossem todos assim.

David Bernardino

 

Papa, tu t’endors!?

Domingo à tarde, e entre uma sessão na Cinemateca de Fantastic Mr. Fox apresentada pelo próprio Wes Anderson (e entretanto esgotada), ou o necessário Totoro no Forum des Images, os rapazes, por iniciativa do Gaspar, mostraram-se muito mais entusiasmados com hora e meia de Looney Tunes. Essa “hora e meia”, talvez pudéssemos tê-la passado em casa, tal é o valor televisivo deste filme, novo capítulo da glorificação corrente, em sala de cinema, de projectos outrora destinados ao consumo caseiro em VHS. Quanto ao filme em si : relembra Scooby-Doo e aproxima-se de um Ren & Stimpy-lite; evoca um certo Cartoon Network, e recorre à necessária poligamia de estilos pós-Spider-Verse. Mas tem pouco de looney. Mais do que tudo, entedia, e muito – é longo, repetitivo, e redundante. Os diálogos são banais e a animação, nos seus melhores momentos, também – senão é simplesmente feia. Enfim, de uma desinspiração atroz, com um Daffy Duck perfeitamente insuportável. Não estaremos já fartos de consumir tanto lixo ?

Miguel Allen