Críticas a The Chronology of Water, de Kristen Stewart

EquipaJaneiro 27, 2026

Kristen Stewart estreia-se na realização com este The Chronology of Water, estreado em Cannes e que passou pelo LEFFEST em Portugal. Chega agora às salas, lado a lado com alguns dos filmes mais esperados do ano. No filme, Imogen Poots interpreta Lidia Yuknavitch, uma jovem que cresce em ambiente hostil rodeada por violência física e sexual, e álcool. Procura então refugiar-se na escrita e na natação. Paulo Ventura, David Bernardino e Maria Inês Opinião reflectem duas visões muito distintas sobre o tratamento do trauma da narrativa e do risco formal da realização.

 

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Se excluirmos Imogen Poots e a sua brilhante performance como Lidia, arriscar-me-ia a dizer que o protagonismo de The Chronology of Water reside na sua montagem – tanto para o bem quanto para o mal. Desde os primeiríssimos planos do filme, todos os cortes são utilizados de modo quase selvagem e intrusivo, no esforço de criar uma linguagem única que funcione dentro da sua própria estrutura. Esta abordagem ensina cada espectador a aceitá-la e a percebê-la, alimentando uma estranheza marcante durante grande parte do filme através da exploração de imagens que desaparecem e voltam a surgir no tempo, bem como da ressignificação semiótica de símbolos que ganham novos significados com a repetição sucessiva. É nesta escolha formal, no entanto, que o filme acaba por encarar o seu limite: um mecanismo com um impacto inicial forte que se torna ligeiramente repetitivo e previsível, mostrando-se incompatível com a progressão do enredo à medida que este avança.

Ao contrário de grande parte das narrativas biográficas, The Chronology of Water não centra a sua atenção nos eventos que vão marcando a vida da sua protagonista, nem nas suas ações ou escolhas, mas na sua experiência emocional, à medida que o nosso olhar é guiado, não pela lógica do tempo e do espaço, mas pela textura das sensações que se espalham pela memória – ou até mesmo pela imaginação, de Lidia. O uso extensivo de planos aproximados, manchados uns pelos outros através de cortes desorientadores ou de crossfades que fundem tempos e espaços, memórias e experiências, permite uma lógica de visualização mais envolvida com a sensação do que com a absorção de informações diegéticas.

Há aqui um olhar que aponta não para o que foi vivido, mas para o que se sentiu enquanto se viveu; uma desorientação inicialmente marcante que acaba por se tornar excessiva e monótona à medida que o filme se desenvolve, alongando a perceção do tempo e fazendo a obra parecer mais extensa do que realmente é. Esta ausência de um sentido de progressão – de um horizonte narrativo – mantém o tom quase onírico, mas torna difícil (ou impossível) a noção do quão perto ou longe estamos de um eventual fim. O resultado é uma experiência perturbadora que parece prolongar-se indefinidamente no tempo e que apesar da sua beleza sensorial não cumpre totalmente com a sua promessa. Uma narrativa que flutua, sem intenções de chegar a lugar algum, e que não exige nada mais do espectador a não ser flutuar junto com ela.

Paulo Ventura

 

 A estreia de Kristen Stewart na realização comete os mesmos erros de tantos outros filmes sobre trauma. Acompanhamos Imogen Poots na pele de uma jovem traumatizada pelos abusos sexuais sofridos às mãos do seu pai, enquanto procura superá-los através da literatura — uma personagem baseada na escritora Lidia Yuknavitch e no seu livro homónimo do filme. Com a sua vasta experiência como actriz, é lamentável que Stewart pareça ter aprendido pouco com alguns dos realizadores com quem trabalhou. Ao invés de procurar tratar a dura temática do seu filme com textura e sensibilidade, a realizadora opta pela leviandade indie, pelo voyeurismo e pela fetichização da violência sexual e do trauma, o chamado “trauma porn”. O resultado é, sem surpresa, redundante e pretensioso.

Como que percorrendo episodicamente uma lista de mercearia de acontecimentos traumáticos, The Chronology of Water (com os seus múltiplos falsos finais) é como um eterno reiniciar de situações terríveis que levam o espectador antever que tipo de crueldade virá a seguir. O filme não apresenta nenhum pensamento ou desenvolvimento sobre a narrativa linear que passa na tela, sendo ele próprio um exemplar do male gaze (perspectiva masculina) sádico que, a espaços, a realizadora procura mostrar combater com sequências como o fim de semana de libertação sexual entre Lidia e duas amigas; ou com frases pretensamente fortes como “I don’t want to fuck, I want to read”, numa das muitas cenas de relacionamento tóxico que The Chronology of Water filma. Ideias vagas que Stewart parece inserir apenas para legitimar o seu filme como “bom”. O culminar desse pretensiosismo estará na aberrante cena narcisista na qual Lidia faz a leitura pública de passagens do seu livro, a sua história, perante o aplauso geral do público. O que é que está exactamente a ser aplaudido? O que a protagonista lê? Ou seja o argumento do filme? O próprio filme? A realizadora?

Enfim, não é tudo. Além da componente substantiva, The Chronology of Water também falha na componente formal. Sem qualquer noção de espaço, os planos focam-se em close ups de rostos e corpos das personagens, como que a duas dimensões, certamente justificando essa escolha com a metáfora para a claustrofobia mental da personagem. Nunca a claustrofobia teve as costas tão largas. As cores, em tons quentes e púrpura, pores e nasceres do sol, água, uma montagem epiléptica, tudo são tiques de um certo cinema americano independente contemporâneo que se disfarça de experimental, ou autoral. Enfim, só cai quem quer. The Chronology of Water não é o alerta sensibilizador que julga ser. É antes o seu contrário, um produto nefasto, fetichista e voyeurista quanto ao trauma sexual.

David Bernardino

 

O corpo que Imogen Poots dá à visceral Lidia Yuknavich é frenético e penoso, marcado por um trauma, num cru tornado cruel de uma pessoa que tenta não se deixar marcar por algo que lhe aconteceu. A sua impulsividade é absolutamente persuasiva. É a melhor parte deste filme, que vive desta personagem-pessoa. Nela, sente-se a presença da realizadora, em escolhas que a própria faria, ainda que distantes. Poots é Lidia em várias fases da sua vida e é-a devidamente sem que o público o questione e sem artifícios banais de imagem.

Kristen Stewart faz Lidia acompanhar-se da narrativa que vai abandonando a sua estrutura fragmentária à medida que a nadadora cresce de modo subtil, mas eficaz. O filme alimenta-se de uma verdade não dita e do assombro que esta causa. Apoia-se exageradamente na narração, naquilo que parece ser um pacto com a obra original, ainda que seja notória uma identidade visual marcada pela água e fragmentos. Cronologia da Água torna Stewart numa realizadora a observar, pela sensibilidade e honestidade de uma atriz que teve o privilégio de se afastar dos lugares-comuns, de cultivar a sua filmografia e cinefilia, aplicando-a a histórias pouco contadas.

Maria Inês Opinião