Maggie Gyllenhaal regressa à realização com a sua segunda longa-metragem, depois do bem recebido The Lost Daughter. The Bride! tem suscitado curiosidade nos últimos anos, com um elenco de peso encabeçado por Christian Bale e Jessie Buckley. Trata-se de mais uma interpretação de Frankenstein, de Mary Shelley, inspirado por The Bride of Frankenstein (1935), de James Whale. Um filme de um estilo difícil de decifrar, marcado por várias refilmagens. Raquel Sampaio e Hugo Dinis foram perceber, afinal, do que se trata The Bride!.
Frankenstein viaja até à Chicago da década de 1930 para pedir ao cientista Dr. Euphronious que lhe crie uma companheira. Juntos reanimam uma jovem mulher assassinada, e nasce assim A Noiva.
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The Bride! é o tipo de filme que custa ver, não pelo que é, mas pelo que poderia ter sido. Com The Lost Daughter, Maggie Gyllenhaal tinha surpreendido numa estreia tão segura atrás das câmaras, que parecia obra de alguém com décadas de experiência. Este regresso trai essa confiança com uma abundância desconcertante. Em plena Chicago dos anos 30, uma cientista (Annette Bening) e Frank(enstein) (Christian Bale) trazem de volta à vida uma mulher assassinada (Jessie Buckley), com passado no crime organizado e uma ligação improvável a Mary Shelley. A ideia tem nervura. O problema é que Gyllenhaal não consegue decidir o que quer fazer com ela e trata essa indecisão como virtude.
O filme acumula géneros como quem não quer desperdiçar nenhuma ideia: há perseguições, há números de dança, há romance, há crítica policial, há vingança, há referências cinéfilas em catadupa. O resultado não é riqueza, é dispersão. Cada vez que uma linha narrativa começa a ganhar tracção, outra interrompe-a. O que devia ser acumulação dramática torna-se ruído. E quando os géneros não se fundem mas se atropelam, o que fica é mera incoerência. Jessie Buckley entrega-se ao papel com uma fisicalidade que o argumento não merece. Bale faz o que Bale sabe fazer – desaparecer dentro de uma figura – e Bening sustenta cada cena em que aparece com autoridade, coisa que o filme precisava ainda mais. O elenco salva-se. A realização e o argumento, por seu turno, não. Há qualquer coisa de frustrante em ver três intérpretes desta dimensão a remar com tanta energia num barco que mete água por todo o lado.
Os números musicais são o sintoma mais evidente do problema central: Gyllenhaal não domina o espetáculo. Há uma diferença entre filmar uma personagem a cantar e filmar e um musical. A câmara hesita onde devia comprometer-se, o corte chega tarde onde devia antecipar. O musical tem uma lógica própria, uma entrega ao artifício que tem de ser total para funcionar. Há também um problema de coerência interna que vai além da montagem. Figurinos surgem fora de contexto, a cronologia interna vacila, e certas escolhas visuais contradizem o que o argumento acabou de estabelecer. O resultado é um filme que parece ter passado por demasiadas mãos em demasiados momentos distintos (o que rumores de refilmagens extensas, a confirmarem-se, ajudariam a explicar, mas não a desculpar). Ficam o guarda-roupa e a direção de arte que têm uma exuberância genuína e uma coerência visual que o resto do filme inveja. É uma ironia pesada: o que se vê à superfície é cuidado, o que estrutura tudo por baixo, não. Gyllenhaal merecia outra oportunidade. Os atores mereciam um filme melhor. E nós, que ficámos à espera da realizadora de The Lost Daughter, merecíamos que ela tivesse chegado.
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Raquel Sampaio

Escrevo este pequeno texto à medida que vejo a visita da realizadora Maggie Gyllenhaal ao chamado armário da Criterion Collection, onde gente do meio se desloca para revelar influências e gostos. O seu gosto em particular não podia ser mais imaculado – desfilam os Godards e os Bergmans acompanhados por Fassbinders e Denis(es). The Bride!, o seu segundo registo atrás da câmara, também não deixa de nos relembrar das suas influências cinematográficas. Fred Astaire, Bonnie and Clyde, Romeu e Julieta. As referências são inúmeras e para todos os gostos. Gyllenhaal fez questão que esta sua reinterpretação do clássico de James Whale fosse o mais bombástica possível, pelo menos do ponto de vista da sua ambição formal. Mas é por detrás das frestas que The Bride! se revela insuportavelmente convencional e previsivelmente chato. Desde logo, é no prólogo que somos confrontados com a hiperactividade representativa de Jessie Buckley, votada a um isolamento permanente entre si e a câmara. The Bride! evita, pois, qualquer distracção que possa retirar o foco à performance dos seus actores, não fosse este, de facto, um elenco de excelência. É, por exemplo, muito bem vindo o regresso de Annette Benning ao grande ecrã num papel de franca projecção, mas o seu manto de cicerone para as tendências pretensamente ambiciosas de Gyllenhaal é apenas um de muitos enganos em The Bride!.
A narrativa acompanha-nos quase que como por obrigação. O monstro de Frankenstein, representado por Christian Bale, procura companhia para combater uma solidão que diz, mas raramente mostra, ser debilitante para si. Rapidamente se abreviam as reservas de Benning, a “mad scientist” encarregada de lhe colmatar o buraco no coração, e cedo estamos novamente perante a verborragia de Buckley. O seu discurso alude, desde logo, a um complot criminal de imediato deslindar que nunca convoca qualquer tipo de tensão ou fascínio, mas seria na relação entre si e o monstro, bem como entre Buckley e um público aterrorizado, que Gyllenhaal poderia trabalhar o que Whale deixou em legado. Esta abordagem, contudo, não deixa de ser profundamente tímida e de tender sempre a ancorar Gyllenhaal aos temas seguros do momento: a emancipação feminina a cargo da personagem de detective ignorada por parte de Penélope Cruz, bem como no inexplicável magnetismo cultural entre o monstro representado por Buckley e uma sociedade pós-Grande Depressão.
Ao passo que esta faria sentido no aqui e agora, não existe qualquer identificação entre o tempo de Gyllenhaal e o tempo do filme em si. Não fosse a necessária homenagem ao material de origem e The Bride! poder-se-ia desenrolar na contemporaneidade. O que impede Gyllenhaal de o fazer é o mesmo que impede The Bride! de ser um registo verdadeiramente iconoclástico, e é o mesmo que faz com que este seja (mais) um filme inteiramente filmado com uma profundidade de campo risível e uma mise en scène grotescamente composta: é de um conservadorismo e de um desinteresse tremendos.
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Hugo Dinis



