Críticas a Teenage Sex and Death at Camp Miasma, de Jane Schoenbrun – Acto Cinematográfico Total

EquipaSetembro 28, 2026

Nos últimos cinco anos, Jane Shoenbrun tem-se vindo a tornar uma cineasta de notável alcance. Uma das vozes da sua geração no que ao replicar da experiência cultural moderna mediada por imagens diz respeito, Shoenbrun conquista agora um merecido espaço na cinefilia mainstream: o seu mais recente trabalho, Teenage Sex and Death at Camp Miasma, traz consigo duas celebradas estrelas do mundo da televisão (Gillian Anderson e Hannah Einbinder) e uma abordagem arrojada ao mundo dos slashers dos anos 80. O filme conta a história da relação entre as duas mulheres, a primeira enquanto estrela de um franchise slasher defunto e a segunda enquanto realizadora encarregada de o reavivar. Após We’re All Going To The World’s Fair e I Saw The TV Glow, a Tribuna foi à sala conferir a nova estreia de Jane Shoenbrun e saiu agradavelmente surpreendida. Seguem-se as críticas.

 

*

 

À terceira é de vez! Depois de, nos idos de janeiro, ter escolhido três filmes para a minha lista dos filmes mais aguardados de 2026 aqui na Tribuna e de ter visto os outros dois (The Moment e Mother Mary) serem decepcionantes, cada um à sua maneira, fico radiante por ver que o terceiro me encheu as medidas.

Adolescência, Sexo e Morte no Acampamento Miasma é a terceira longa de Jane Schoenbrun, um olhar satírico e desconstrutor sobre as sagas slasher que povoaram o cinema de terror nos anos 80. A bem da transparência, convém dizer que essas sagas, aqui homenageadas e esventradas com igual entusiasmo, formam grande parte da minha educação cinematográfica e pavimentaram o caminho, quando eu era miúda, para explorar cinema mais marginal e, mais tarde, manter a mente aberta a géneros e abordagens diferentes pela pura possibilidade de ser surpreendida. Não é fácil ser objetiva, confesso; Jane está a brincar no meu parque.

Felizmente, Jane gosta tanto do meu parque como eu. Ambas lhe reconhecemos problemas que Schoenbrun vai trespassando, com amor e muita piada, no Acampamento Miasma. Poder-se-á detetar uma pontinha de didatismo quando se fala da forma como os slashers dos anos 80 lidavam com homofobia, misoginia ou transfobia, embora nunca pareça que Schoenbrun está a dar uma reprimenda a filmes antigos com a vantagem moral de quem chegou quarenta anos depois. Claramente é um filme informado pela sua experiência pessoal, mas há demasiado carinho por eles para pura e simplesmente os enxovalhar. Conhece-lhes os podres mas continua a querer brincar com eles.

Para o fazer, seguimos Kris (Hannah Einbinder), uma jovem prodígio da realização encarregue de ressuscitar o franchise Camp Miasma (cujas várias versões e infinitas sequelas são recriadas numa sequência de créditos perfeita) com uma mão mais sensível e uma perspetiva queer. Antes sequer de definir a história, Kris quer convencer Billy Presley (Gillian Anderson), atriz do primeiro Camp Miasma, que há 35 anos vive isolada e sem dar entrevistas, a entrar no seu reboot/remake/reimagining/spin off (nem ela sabe ao certo). Billy carrega de tal forma o que o filme original fez dela que acabou a viver literalmente dentro dele, no acampamento que lhe serviu de cenário. O lugar é uma pequena maravilha de miniaturas e pinturas matte, ao mesmo tempo viagem ao passado e primeira pista de que não vale a pena perder grande tempo a tentar perceber onde acaba a realidade e começa a fantasia. O acampamento existe algures entre um lugar físico e a memória que ficou dele, numa abordagem visual que permite ao filme mergulhar de cabeça na iconografia dos seus antepassados sem acabar reduzido a pastiche.

Acampamento Miasma entrega-se ao metacomentário com deleite. Desde o name-dropping de sagas reais à evidente excitação de Kris com as técnicas usadas nas obras originais, há material suficiente para nos fazer querer recriar o meme do Leonardo DiCaprio a apontar para a televisão em Once Upon a Time in Hollywood. Kris é, nesse aspeto, a personificação de todos nós, geeks cinematográficos que achamos razoável atazanar quem nos rodeia com referências a crash zooms ou split diopters. Só que, para Kris, gostar de Camp Miasma vai além de reconhecer a técnica com que os filmes foram feitos. Schoenbrun usa Kris para olhar para a forma como a cultura pop participa na construção de quem somos. Para uma jovem queer como Kris, a mítica saga tão cheia dos vícios da sua época também foi um espaço onde pôde procurar-se. A sua tentativa de reinventar Camp Miasma passa por pegar numa linguagem que durante décadas castigou mulheres e personagens queer pelo desejo e descobrir se ela pode servir para fazer o contrário. Schoenbrun transforma o velho território slasher do sexo seguido de morte num espaço onde desejo e identidade podem ser explorados sem que a libertação tenha de acabar com alguém espetado numa árvore.

Falando de espetar em árvores, é óbvio que um slasher também precisa do seu assassino. O de Camp Miasma chama-se Pequena Morte, tem uma grelha de ventilação de ar condicionado como cabeça e um arpão gigantesco como arma. É uma criação 50% ridícula e 50% ameaçadora que concentra muita da simbologia do filme (o seu nome não é coincidência), embora Schoenbrun tenha a sensatez de também o deixar ser aquilo que um monstro de slasher deve ser: muito divertido de ver em ação.

Pesadas as coisas, só tenho pena que a relação entre Kris e Billy nem sempre tenha a mesma força das ideias que carrega. Einbinder e Anderson são excelentes, mas a intimidade entre as duas dá alguns saltos que o argumento não consegue preencher e, quando essa ligação ganha peso no final, senti falta de ter feito um pouco mais do caminho com elas.

Acampamento Miasma não olha para o género slasher como algo a desprezar. Pode gozar com as suas falhas, desmontar o que envelheceu mal e ao mesmo tempo perceber por que é que algumas pessoas continuam a adorá-lo. No fundo, é uma carta de amor quase perfeita a um género muitíssimo imperfeito, capaz de pegar nas identidades sexuais que os velhos slashers tantas vezes tratavam como motivo de vergonha ou castigo e olhar para elas com liberdade. Desembrulhar todas as camadas do metacomentário vai precisar de mais umas quantas visualizações e espero que saia em suporte físico para rever em casa. Preferencialmente em VHS.

Carla Rodrigues

 

Só tenho uma coisa a apontar a Teenage Sex and Death at Camp Miasma. Antes de ir aí, dizer que a realizadora fez um grande trabalho: a coerência interna, os tempos na montagem e na acção, o número de voos médios e altos que consegue aterrar e a amplitude de emoção e pensamento a que aponta são todos aspectos de uma grande qualidade. O que lhe teremos a apontar, a meu ver, que é filosófico, vem com esse território: é em edifícios high-concept como o deste filme que a força das vigas é mais testada — e é bom sinal que assim seja: o filme é muito inteligente, e é um gosto vê-lo em tantas salas e até, diria, a ser tão popular — Schoenbrun enquanto autora está aqui num campeonato, o dos projectos “fortes”, onde fazer algo desta envergadura e pô-lo nas salas já é ganhar. Sentemo-nos então à mesa com ele — vou deixar para alguma das outras críticas o exercício da sinopse. 

Como refere o Diogo, é a falta de uma linha para fora de um certo solipsismo simbiótico com a indústria cultural (eu e o televisor, eu e os filmes) que torna o filme mais limitado no final, ou então simplesmente mais pessimista. Tudo em Teenage Sex (…) é sobre um universo privado. A personagem de Gillian Anderson, Billy, parou de responder às ofertas de Hollywood e do “mundo” no geral, um processo pelo qual a personagem de Hannah Einbinder, Kris, também terá que passar, sempre terá querido, inclusive, passar. Os executivos encarregados da longa-metragem que Kris está a produzir (o remake de Camp Miasma) serão finalmente afugentados numa chamada Zoom onde esta refaz o seu pitch para reenquadrar Camp Miasma e o serial killer que protagonizou mais de uma dezena de filmes como “mais reais que vocês, mais reais que esta chamada”. É o seu momento “leave society”, num sentido mais contemporâneo do que o que Billy fez antes, quando começou a viver no acampamento abandonado que deu palco a um dos filmes.

Há por isso algo de perturbador no desenlace que Schoenbrun encontrou para estas personagens, o de um fechamento delas em Camp Miasma, um fechamento recursivo — sempre estiveram lá, tudo nelas remete para lá. Um dos mais incríveis momentos do filme, numa sequência pesada, cheia de THC, é Kris a explicar a Billy como, ao longo da vida, durante o sexo se pareceu encontrar mentalmente e psicologicamente noutro lugar — em Camp Miasma, mais especificamente; e mais perto ainda — no olhar da jovem Billy no filme, e no reflexo junto dessa pupila que nos mostra a chegada do assassino mascarado e injustiçado chamado Little Death, condenado às profundezas e à ressureição.

Este fechamento de Kris e Billy neste momento, nas iminências deste orgasmo que só consegue avançar mediante uma compreensão de si próprio e de uma juventude e de uma sexualidade postas em relação com o objecto cultural, impedidas/permitidas por este, este fechamento que se completa com o filme, não deixa de as e nos enclausurar numa espécie de “valor inerente” deste objecto – o cinema de culto – e de uma superioridade sua em relação ao mundo. Pensemos na sequência onde Kris tira alguma roupa antes de começar a fugir de Little Death, cumprindo a sua fantasia. Little Death, à medida que a persegue, vai apanhando e esfaqueando a sua namorada, o parceiro desta, a sua agente, os seus patrões. Sim, este objecto cultural permite a Kris uma fuga, primeiro, uma identificação, depois, porventura a felicidade junto de Billy — mas e o mundo real? Ou qual é o custo desta conexão mediada por Camp Miasma para o restante mundo das personagens?

“Se ficar demasiado real, podes simplesmente desligá-lo” é um dos mantras do filme — há algo de pernicioso na proposta: sejamos felizes juntos no media, para sempre. Ver Kris interagir com o empregado da bomba de gasolina, transportado do filme (Camp Miasma), a saber de cor o que ele vai dizer, não deixa de poder balizar um certo tipo de desespero, por mais entusiasmada que ela esteja: aquele em que vivemos para os filmes.

Surgiu há dias em Nova Iorque uma nova aplicação de encontros dos criadores da multifunções astrológica Co-Star, focado na linguagem, na literatura e nas obras que utilizadores poderão ter em comum com outros. Banu Guler, uma das criadoras da aplicação, diz-nos: “It’s that feeling of falling in love over a book, over a poem, and scouring eachother’s bookshelves. (…) Our own experiences of love are the opposite of the flattened, performative, clichéd dating-app type of love. (…) [My spouse says] that they manifested our relationship, because before we got together, they dreamed of someone they could read with in bed every night before going to sleep”. É uma definição de amor que parece tão simpática quanto perigosa: a vida num globo de neve, cheio de livros ou de cinema que ambos gostamos, como neste acampamento de cenários pintados onde Billy vive, onde há um buraco no fundo do lago de onde vêm os filmes. 

A paixão de Kris por Billy tem o seu paroxismo no atravessamento da lança de Little Death pelas duas, enchendo-as de sangue e deixando-as num sono ledo até à manhã seguinte, onde vão à mercearia comprar doces. É relevante notar, por mais “feliz” que seja finalmente o encontro, que passam toda a noite assim, como que mortas. Bedrotting together, foi o que me ocorreu na escrita deste texto, expressão usada em fóruns de lamentos e desideratos amorosos em comunidades “cronicamente online”, por exemplo, como actividade a almejar no cumprimento de uma ligação com outra pessoa.

Mas Teenage Sex and Death at Camp Miasma é um filme cheio de admirável risco, cheio de ideias à pele. É um filme sobre um reflexo numa íris — é incrível, isso. Reparem como, do Camp Miasma original, o filme-dentro-do-filme, nunca vemos além desse frame, alvo de interrupção por duas vezes exactamente no mesmo sítio. A sequência de Gillian Anderson a preparar o quarto com Sade a tocar; a sequência musical de Little Death a matar pessoas, que se torna incrível no momento em que a vemos parar a respirar um pouco por estar sem fôlego. O sublinhado em tudo (close-up de molhos de frango…) que é um dos “traços” do filme: Billy a grafitar furiosamente espirais quadradas em cadernos sempre que assiste ao filme onde entrou. E para mim a imagem mais incrível de todas, Kris ao espelho a ver-se durante um instante a si própria a gritar dentro do espelho, e mais tarde no tecto de Billy, dentro de uma máscara gigante e quadrada de mergulho…

Rafael Fonseca

 

Como sucede com o próprio título, em Teenage Sex and Death at Camp Miasma, um filme de binários, procura-se sistematicamente fazer corresponder imagens intencionalmente crípticas a uma noção (demasiado?) inteligível. Para o espectador mais incauto, a quem escape a alusão directa ao “tema” central desta história, feita através do nome do seu assassino (e herói…), nada aqui ficará exactamente por explicar. Jane Schoenbrun trabalha um emaranhado de “universos” em diferentes graus (ou camadas) de ficção meta que, partindo das duas personagens centrais, se vão reflectindo mutuamente até interpelarem o próprio propósito do filme.

Kris (Hannah Einbinder), jovem realizadora indie em ascensão, fascinada por slashers e sexualmente inibida, é convidada a revitalizar Camp Miasma, uma série defunta de filmes de horror. Em visita ao refúgio de Billy Presley (Gillian Anderson), a final girl do primeiro Miasma (de 1980), Kris alonga-se sobre a indignação que sente ao ser utilizada como ferramenta woke para o renascimento daquilo que diz tratar-se de uma “zombie IP” de Hollywood. Mas Billy, agastada e algo perdida perante os termos e conceitos “contemporâneos” utilizados por Kris, prontamente a corrige. Flesh and fluids. It’s all just play.

Diálogo aberto com a sua própria cinefilia, um pretenso auto-retrato fabulado enquanto comentário à indústria do cinema contemporâneo. Para Schoenbrun, que cedo se identifica com a sua protagonista (veja-se, no genérico, o seu nome sobre o rosto de Kris), este é um exercício de carregado romantismo. Mas, em contraponto à fatalidade que pesava sobre o seu filme anterior, arrisca-se aqui uma nuance humorística, particularmente relevante para preservar o tom de uma certa futilidade nas passagens mais expressivas do filme. Se nos podemos aborrecer perante algumas das deixas cinematográficas mais atávicas de Camp Miasma (uma Norma Desmond empoeirada), não deixaremos de suspirar pela sua estrela cadente (Lady with the Braid elevada por misticismo pop, sempre bem temperada por Anderson), como não poderemos deixar de nos comover com este reconto de um despertar sexual perante imagens gravadas em película (e observadas transgressivamente).

No centro de Miasma, a longa incursão pelo falso slasher de Schoenbrun articula de forma mais intensa o cruzamento de vontades de ficção e projecção que aqui se ensaia. Pena, contudo, que se insista paralelamente na evocação de uma realidade presente tão próxima da nossa. Partidas de squash, relações poliamorosas e reuniões pelo Zoom. Schoenbrun obstina-se em posicionar, um tanto atrapalhadamente, a sua ficção mágica, pintada sobre cartão, enquanto refúgio imaginário de um mundo contemporâneo carregado de discurso, cuja constante evocação acaba por prejudicar o próprio impulso ficcional e estético do filme. Em desequilíbrio, uma realização por vezes demasiado distraída com as suas próprias ideias para chegar a um ponto justo, onde Schoenbrun parece não confiar inteiramente na capacidade do espectador para acompanhar o filme sem que lhe sejam prontamente clarificadas as suas intenções.

Mas, se a acção abre com a versão infeliz de Okay Kaya da assombrosa Nightswimming (de R.E.M. – “deserves a quiet night“), será na longa peça central, o massacre ao som de A Long December (de Counting Crows) – uma visão do filme dentro do filme, em plano subjectivo do assassino, projecção directa do próprio autor dentro da obra – que encontraremos o fundamento para nos deixarmos levar por Teenage Sex and Death at Camp Miasma. Do sangue que se projecta daqueles corpos penetrados, duas mulheres que renascem pelo acto cinematográfico total.

Miguel Allen