Um thriller romântico em seis capítulos, com estrutura não-linear, que brinca com os papéis de género no cinema – Strange Darling (“Um Encontro Mortal“) é a segunda longa-metragem de J.T. Mollner. O filme, que teve ante-estreia no MOTELx do ano passado (e estreia no contexto do ciclo de Verão “Filmes para não dormir” dos Cinemas NOS), centra-se num homem e numa mulher cujo encontro romântico de uma noite se transforma num jogo mortal de «gato e rato». Carla Rodrigues, David Bernardino e Hugo Dinis falam-nos deste seu estranho passeio pela zona rural do Oregon, nos Estados Unidos.

Strange Darling ostenta com orgulho a sua natureza subversiva, virando as convenções do género de pernas para o ar com uma confiança que roça a rebeldia. Num mundo de aparente tranquilidade, desenrola-se um jogo de gato e rato por florestas, estradas desertas, casas isoladas e motéis perdidos na berma da estrada. Mas classificar Strange Darling como um simples thriller ou a uma longa sobre um assassino em série seria subestimar a arquitectura cuidadosa da sua narrativa (que é, no fundo, o que o faz sobressair). A narrativa não linear é a chave para a tensão que vai crescendo ao longo dos seus tensos 96 minutos. O Christopher Nolan ficaria com inveja. Dizer mais do que isto seria comprometer a experiência.
Strange Darling transforma a sua paisagem minimalista numa tela de desassossego. É evidente que cada plano foi pensado e filmado com uma precisão quase pictórica, e o resultado é um filme cativante para o olhar, inquietante para o coração. JT Mollner, que assina a realização, transforma até os momentos mais simples (e mais brutais) em composições de uma estranha delicadeza, graças ao uso cuidadoso da cor, da luz e da composição. A banda sonora é mais um elemento a favor do todo, com a música a funcionar como uma espécie de batimento cardíaco. Ora lenta e contida, ora numa correria que acelera a pulsação, mas sabendo sempre quando se calar para deixar o silêncio falar mais alto.
O elenco é mínimo, mas eficaz. Os dois protagonistas constroem uma química excelente, que sustenta grande parte da tensão do filme. A forma como se aproximam, se afastam, se vigiam, é o cerne de uma dança perigosa, tão íntima quanto ameaçadora. Com apenas um par de personagens centrais, Strange Darling consegue dizer mais sobre dinâmicas de poder, manipulação e vulnerabilidade do que muitas produções com elencos recheados.
Por vezes, e pelas melhores razões, Strange Darling evoca o cinema de género dos anos 70 (e não é só por causa do bigode de Kyle Gallner ou da cena de abertura que faz lembrar o final de Texas Chainsaw Massacre). Violento, tortuoso, mas estilizado, granulado, belo e cheio de personalidade. Diria que estamos perante um clássico de culto em gestação, não só pela ousadia narrativa, mas pela forma como consegue casar estilo e conteúdo de maneira tão eficaz. É uma obra que compreende o poder de um plano bem composto e o prazer de uma história que não entrega os seus segredos de bandeja. Apesar da violência e do caos, há uma elegância em Strange Darling que o distingue, uma atenção cuidadosa, quase amorosa, aos detalhes que transformam um bom thriller num grande thriller. Não se trata apenas de uma perseguição, mas da forma como essa perseguição é enquadrada, sonorizada, e, no fim de contas, do que revela sobre quem está preso dentro dela.
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Carla Rodrigues

JT Mollner constrói este thriller acerca de um serial killer e a sua vítima em 6 capítulos apresentados de forma não linear, isto é, em ordem narrativa não cronológica. Esse mero artifício, sendo bem executado, é suficiente para fazer de Strange Darling um filme “engraçado”, mas é muito mais que isso. O cenário de um Oregon rural, florestal e montanhoso, as suas personagens tipicamente americanas ao olho europeu que revelam uma certa sujidade pulp dos anos 90, a sedução, a emboscada, tudo isso constrói, passo a passo, um filme de forte personalidade e com todos os ingredientes para se tornar um filme de culto por direito próprio. A cinematografia e banda sonora hipnóticas fazem deste Strange Darling um belíssimo representante da chamada estética americana, isto é, o tecido cultural e estético (pessoas, conceitos, ritos) que compõe a identidade cultural daquele país, invocando uma nostalgia cinematográfica difícil de traduzir em palavras. O seu subtexto acerca dos papéis de género também tem muito que se lhe diga, tão assertivo quanto polémico, com decisões argumentativas corajosamente contra corrente. Duas interpretações simbólicas com potencial de originar o salto para maiores produções, num filme imaculadamente executado em estilo série B filmado em 35mm.
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David Bernardino

Strange Darling faz do jogo do gato e do rato um exercício formal de estilo. Não existe aqui propriamente um argumento forte ou sequer interessante, contudo é a desconstrução narrativa em capítulos e a cinematografia intoxicante que faz a produção funcionar. Willa Fitzgerald é a protagonista de um cenário de perseguição que acaba por se tornar em jogo de espelhos não pela sua narrativa, mas pela disrupção formal com que esta vai sendo coligida ao público. Apresentando desde logo uma voz-off explicitamente criada para ludibriar as expectativas do espectador, Strange Darling torna o artifício narrativo a principal força da simples história de um serial killer. Essa subversão, ainda assim, é sempre formal e nunca substancial, pelo menos no que toca a ir para lá da simples inversão de papéis de género que imagino que tornarão Strange Darling um tanto problemático. Não é, contudo, um recurso utilizado em vão pela mão de JT Mollner, que acaba por construir um cenário eficaz de atração mútua entre Fitzgerald e as suas presas. Não obstante, a construção de diálogos entre predador e presas consegue dosear quantidades certas de tensão, desespero, comédia e plausibilidade num mundo bucólico com personagens sabujas ao estilo Coen.
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Hugo Dinis



