Críticas a Shelter, de Ric Roman Waugh

EquipaMarço 5, 2026

Jason Statham regressa com o seu filme anual, desta vez no papel de um homem misterioso que vive isolado numa pequena ilha escocesa. Como seria de esperar, essa aparente tranquilidade não passa de uma ilusão e a acção não tarda a surgir. Durante uma violenta tempestade, uma equipa de elite chega à ilha com ordens para o eliminar, obrigando Statham a recorrer a todas as tácticas e técnicas do seu treino para os enfrentar. Protagonizado também pela jovem Bodhi Rae Breathnach, Bill Nighy e Naomie Ackie, Shelter é já considerado como um dos melhores filmes recentes do astro britânico. David Bernardino e Hugo Dinis concordam.

 

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Jason Statham parece ter entrado numa fase mais rotineira da sua carreira. Este terceiro filme encaixa numa espécie de trilogia informal do “antigo herói de acção que vive isolado até que a sua paz é perturbada”, iniciada com Beekeeper, continuada com Working Man e agora com Shelter. Numa era de execução repetitiva, frequentemente desprovida de alma, refém de regras de género e de evocações temáticas dos “nossos dias” — leia-se inteligência artificial, tecnocracia e afins —, Shelter tem a surpreendente audácia de dedicar o seu primeiro terço, quase metade, à vida isolada deste homem que, por razões pouco claras, vive numa inóspita ilha escocesa.

Entre o vento ensurdecedor e a maré revolta, um cão cheio de personalidade e uma jovem rapariga de quem se vê obrigado a cuidar, a estranha ausência de um “inimigo” definido e de diálogos expositivos, aliadas a uma realização minimalista, conferem ao filme um peso inesperado, quase deslocado do seu tempo. Não haja equívocos: quando o antagonista finalmente se revela, regressam à mesa as conspirações governamentais e o controlo populacional encarnados por um tecnocrata patriótico interpretado pelo veterano Bill Nighy. Ainda assim, a forma como estes elementos são integrados na narrativa remete para o cinema de acção americano dos anos 80 e 90, onde o inimigo era frequentemente simbólico, muitas vezes associado à ex-URSS. Em Shelter, a tecnocracia assume essa função abstracta: um adversário rotineiro, arrumado, quase desproblematizado, libertando espaço para o que realmente importa — as personagens, a acção, a imagem.

A jovem irlandesa Bodhi Rae Breathnach — já revelada em Hamnet — é uma verdadeira revelação. Aos 15 anos demonstra um magnetismo raro e uma presença notável que, em contraste com o brutamontes carismático de Statham, acrescenta uma dimensão de interesse invulgar a um filme de acção “deste tipo”. Este espírito concede margem de manobra ao realizador Ric Roman Waugh, habitualmente irregular, para se soltar. As cenas de acção são poucas, mas cirúrgicas e ponderadas. A certa altura, um assassino implacável é lançado no encalço de Statham e da jovem Jesse, dando origem a um tiroteio e a uma perseguição automóvel que evocam Children of Men, de Alfonso Cuarón, com uma sonoplastia contida e uma câmara que insiste na lama, nas lombas e no metal de uma estrada rural.

Há ainda espaço para outra set piece popularizada por John Wick: a inevitável confusão numa discoteca, filmada sob as mesmas regras estilísticas da perseguição anterior. Tudo culmina num desfecho simples e directo, sem contemplações, à imagem do que Stallone ou Schwarzenegger faziam nos seus melhores momentos. Há esperança para o cinema de acção, e Statham continua a ser um dos seus mais sólidos embaixadores, interpretando o seu próprio estereótipo com a precisão de um relógio suíço. Uma maravilha.

David Bernardino

 

Há um lore específico, quase fordiano, que Jason Statham cumpre em todos estes filmes recentes. A fórmula é quase sempre a mesma e parece assumir um papel de ritual. Uma personagem isolada, que apenas quer que o deixem sozinho, trava conhecimento com uma pessoa inocente que imediatamente é alvo de algum tipo de injustiça. Statham, o homem solitário, não tarda a demonstrar que detém um conjunto de capacidades que o tornam um homem extremamente letal e cedo trata de corrigir as ditas injustiças por força de uma enorme torrente de violência. Há um estoicismo John Wayniano na face crescentemente enrugada de Statham enquanto cumpre este guião. Em Shelther, Statham faz de pescador que há anos se encontra radicado numa ilha remota na Escócia e que testemunha a morte de um companheiro de pesca que deixa a sobrinha órfã de figura paternal.

A invasão da ilha por parte de uma equipa de comandos especializados, hábil e facilmente despachados por Statham, provoca uma cavalgada do nosso herói rumo ao pérfido e corrupto responsável pela desfeita (Bill Nighy). Algures nesta equação Bourniana há algo de profundamente satisfatório, claro, mas Ric Roman Waugh consegue elevar a simplicidade da premissa com sequências de acção habilmente orquestradas e um sentido de passada rítmica colocada ao serviço de um anticlímax peculiar em Shelter. É óbvio que Statham arrepia caminho até ao inevitável estraçalhar de todos com quem se atravessa, mas há uma arte em tornar esse desfecho natural. Shelter alia esta falta de cerimónia de Statham a uma seriedade auto-imposta que se coloca ao serviço de uma justiça a ser servida sem grande fanfarra mas de sobremaneira elegância.

Hugo Dinis