Críticas a Shelby Oaks, de Chris Stuckmann

EquipaFevereiro 17, 2026

Chris Stuckman, youtuber entusiasta de cinema com mais de dois milhões de seguidores, conseguiu reunir as condições para saltar para trás da câmara e estrear-se na realização com Shelby Oaks, filme de terror found footage que vai buscar inspiração a pioneiros de virar do século como Blair Witch Project. O resultado comprova que nem todos os teóricos conseguem passar as suas ideias para a prática. Carla Rodrigues e Paulo Ventura assistiram ao filme, deixando-nos as suas críticas.

Shelby Oaks é uma cidade fantasma, abandonada e misteriosa. Um grupo de YouTubers que investiga fenómenos paranormais desaparece ao explorar a prisão local. Três deles surgem mortos, enquanto duas câmaras ficam para trás, mostrando uma quarta integrante da equipa, assustada. Passados doze anos, a sua irmã é entrevistada para um documentário e, após a visita de um estranho, decide descobrir a verdade.

 

*

 

Durante anos, Chris Stuckmann cultivou uma carreira relativamente bem-sucedida no YouTube como crítico/entusiasta de cinema. Shelby Oaks marca o momento em que decidiu passar da teoria à prática e provar que, depois de tanto tempo a explicar como os outros deviam fazer, também consegue fazer ele próprio. O crowdfunding que financiou o projeto ultrapassou o milhão de dólares, um valor que qualquer realizador estreante invejaria. A expectativa seria, portanto, a de encontrar aqui uma ideia forte, algo que justificasse tamanha confiança. Só é pena que, ao ver o filme, não seja de todo possível perceber de onde veio o apelo. A premissa chega já cansada. Numa abertura em registo de mockumentary, conhecemos Mia, obcecada com o desaparecimento da irmã durante uma investigação paranormal anos antes. Por sorte ou por azar, esta abertura é a parte mais funcional do filme. Não é original (toda ela é inspirada pelos found footage do início do século) mas pelo menos tem alguma atmosfera e captura bem o espírito dos documentários true crime tão populares por estes dias. O problema agrava-se quando Shelby Oaks abandona esse formato e tenta transformar-se num filme narrativo convencional.

A partir daí, instala-se uma catadupa de lugares-comuns, diálogos paupérrimos tornados ainda piores por interpretações fracas, e uma ausência assustadora de tensão e criatividade (estética, narrativa ou sequer conceptual). Existe uma mitologia por trás dos acontecimentos, mas surge tarde e mal articulada. O filme demora tanto tempo a arrancar que, quando finalmente revela alguma coisa, já não tem espaço para desenvolver (nem parece ter grande vontade de o fazer). Ficamos com uma mitologia destrambelhada e um final sem coerência nem sentido a coroar um dos piores terceiros atos da memória recente.

O mais amargo é concluir que, para lá de todos os problemas de construção, Shelby Oaks falha onde menos podia falhar: é um filme de terror onde nunca se sente o medo. Apesar de durar menos de uma hora e meia, o ritmo pastoso faz com que cada minuto seja aflitivo (e não da maneira que se gostaria). Em vez de desenvolver tensão, Stuckmann atira referências em barda contra a parede numa tentativa de tocar os hits dos filmes que admira, como uma jukebox cinematográfica. Mas referências não substituem uma ideia, e reconhecer filmes não é o mesmo que fazer um. O mais inquietante ao ver Shelby Oaks é a sensação de estar perante cinema feito por imitação mecânica. Um conjunto de clichés organizados numa forma reconhecível, mas sem vida própria. Desejo o melhor a Stuckmann, mas vai ser preciso muito para apagar esta primeira impressão.

Carla Rodrigues

 

Se se tentasse denunciar a principal falha que arruína por completo Shelby Oaks, aquela que origina e salienta todas as suas restantes problemáticas, provavelmente apontar-se-ia para a sua falta de coesão, foco ou até mesmo identidade, o que resulta numa incapacidade de facilitar – ou até mesmo de permitir – a suspensão da descrença do espectador. Na sua abertura, a primeira longa-metragem de Chris Stuckmann apresenta-se num registo de found footage e mockumentary, no esforço de criar uma relação narrativa e estrutural entre estas duas vertentes. Um início que se revela, sem sombra de dúvidas, o momento mais fraco e autodestrutivo do filme. Enquanto a estética característica de imagens VHS – semelhante à de The Blair Witch Project, por exemplo – tenta criar uma atmosfera misteriosa e lutar no sentido de dar à narrativa uma entrada imersiva, a simulação do estilo documental de entrevista é fraca e chama demasiado a atenção para si mesma e para o meio que está a tentar mimetizar.

Não existe um empenho verdadeiramente intenso na simulação de uma documentação genuína, e a ficcionalidade – o “fazer de conta” – é denunciada e evidenciada pela cinematografia e pela performance dos atores. Esta fraca relação retira todo o peso da clara homenagem ao found footage, que se torna apenas um aparato visual e não se mostra capaz de alavancar a narrativa nem de suportar o tom da introdução do filme, manchando-o durante toda a sua restante duração como herança de um início mal resolvido. Após estes primeiros momentos, Shelby Oaks abandona o registo de mockumentary e avança o seu enredo num sentido de ficção convencional. Passa pelo suspense e pelo thriller, utiliza-se do terror psicológico, marca alguns pontinhos no body horror, cria um pouco de mistério e arrasta-se, por fim, até ao sobrenatural (com pontuais regressos às imagens de cassete). Este passeio pelos subgéneros do terror é até (tecnicamente) bem executado: bem iluminado, bem realizado, bem filmado e bem montado; mas acaba por se limitar a recursos já conhecidos e explorados no panorama do terror genérico comercial de Hollywood, bem como a uma narrativa pouco interessante, que se desloca do subtil e abstrato para o explicito e concreto, à medida em que os segredos são revelados, o mistério é apagado, e toda a mitologia é assumida como verdade.

O desempenho do elenco é questionável e nunca chega a ser capaz de transmitir a carga emocional pretendida. Suspeito, no entanto, que tal incompetência seja destacada e sublinhada como consequência da já evidente falta de imersão, e não por uma total incapacidade dos atores escolhidos. Há um certo enquadramento do tom das performances no contexto do que popularmente se chama terror de “categoria B”, sem que os restantes elementos técnicos do filme, por se levarem demasiado a sério, se permitam a uma coerência dentro dessa mesma categoria. Nota-se uma tentativa de esconder limitações e de polir superfícies, o que, em teoria, tornaria o aspeto do filme mais profissional, mas que, na prática, impede que uma identidade coerente se forme, tornando Shelby Oaks numa experiência que quase funciona de forma técnica quando se aprisiona dentro da zona de conforto do cinema de terror comercial cliché, mas que falha criativamente sempre que procura o seu próprio caminho.

Paulo Ventura