Após a apresentação no Leffest deste ano, estreia progressivamente em sala (um filme por semana) a Trilogia de Oslo, de Dag Johan Haugerud. A Tribuna reúne as críticas curtas aos três filmes, procurando assim reconstruir o percurso que nos parece ser o mais interessante, tanto no interior da trilogia como na sua abordagem da cidade. Sex foi apresentado na Berlinale de 2024 (em Fevereiro), Kjærlighet (“Love“) estreou na Mostra de Veneza desse mesmo ano (Setembro), e Drømmer (“Dreams“) viria a ganhar o Urso de Ouro na Berlinale de 2025. Comecemos talvez pelo fim, embora… :
Acho que, se dissermos apenas uma palavra de cada vez – apenas “sexo”, apenas “sonhos”, apenas “amor” – , é (…) muito arquetípico, um cliché. São palavras importantes que não significam grande coisa. Quando as juntamos, revelam um aspecto diferente, ecoam umas nas outras. Acho que o sexo faz parte do amor e que os sonhos fazem parte do sexo, obviamente, e que funciona melhor assim. Mas sabe, na Noruega, era suposto ser Sexo (…), depois Sonhos, depois Amor.
Dag Johan Haugerud (tradução Tribuna)
*

Drømmer (“Dreams“) de Dag Johan Haugerud
De uma impressão muito afectuosa, interior a Johanne (Ella Øverbye), Drømmer transporta, na abordagem daquela sua história de amor, a força poética da adolescência e das descobertas desse tempo. Enquanto obra de “um lugar” (o tal desta trilogia), parece interessar-se sinceramente pela cidade que envolve a narrativa – divertindo-se pelo roteiro das ruas de Oslo enquanto promenade sentimental. Necessariamente um filme um tanto gentrificado, parece compensar as suas tendências sociais pela leitura empática e sempre terna das palavras e gestos amorosos da protagonista. Mas nesse mesmo sentido, Haugerud mostra alguma dificuldade ao tocar o mundo “para além” de Johanne, como é evidente, desde logo, nas primeiras cenas entre a mãe e a avó. No seu último terço, e sobretudo em torno da publicação do livro de Johanne e da subsequente recusa cínica daquele relato por Johanna (Selome Emnetu – imagem e forma do seu “amor”), o filme perde o pé, tropeçando por ideias menos valorosas e menos interessantes, seja o egoísmo daquela avó afinal invejosa ou, sobretudo, o seu “pesadelo” patético em pijama pelas escadas metálicas (metáfora fácil e arquitectura feia, com a qual o realizador tanto parece fantasiar). Aqui, na verdade, sonha-se sempre mais alto com a cabeça nas nuvens, ou quando escondido na cama e sob as palavras doces de Johanne.
![]()

Sex de Dag Johan Haugerud
É também de sonhos que se fala neste filme, afinal o primeiro capítulo de uma trilogia de ordem livre. Numa Oslo periférica, as arquitecturas “calculadas” dos bairros novos recobrem a paisagem industrial, entre vias rápidas e espaços verdes. De sonhar com David Bowie a ler Hannah Arendt, tudo aqui redunda no confronto entre a nossa projecção exterior – uma construção social – e essa vontade interior que nem sempre sabemos assumir. Amor e desejo, o mundo “entre eles”. Dois colegas de trabalho partilham uma curiosa crise de meia-idade. Equilibristas solitários sobre os telhados da cidade, ambos confrontados com uma inesperada interrogação amorosa. Para ambos, e sem que o assumam frontalmente, a resposta será procurar o calor de um abraço generoso do seu desejo, sem dele esperar retribuição. Sex é um filme onde muito se fala do corpo de cada um, da sua “razão”, do seu valor aos olhos “do outro”. Sonhos de transfiguração, se a premissa do filme, e seu título, nos parecem abertamente frontais, o exercício aqui será fundamentalmente falado. Um longo debate por entre as diferentes personagens da trama – o que é, cada um, nessa vulnerabilidade de se “ser amado”. Se a beleza existe muito para além das convenientes convenções sociais, será na pele de cada um que se traça o seu percurso individual à felicidade. A busca de um prazer para si, ou o amor como uma submissão voluntária (e prazeirosa) ao outro – a fronteira é por vezes pouco clara.
![]()

Kjærlighet (“Love“) de Dag Johan Haugerud
Se Sex nos fala, afinal, de sonhos, e em Drømmer se fala sobretudo de amor, é neste Kjaerlighet que muito se trata o sexo. Oslo, dizem-nos, é uma cidade que celebra todas as formas de amor. E, daquele belíssimo Oslo rådhus, sempre ao centro do percurso de cada personagem, é uma figura feminina, maternal e lendária que vela sobre os habitantes da cidade. Filme pendular, muito se passará, então, a bordo de um curioso “barco do amor”, onde todos seguem para (ou regressam de) uma ilha vizinha à cidade, sempre com vontades de romance. Entre a capital – com o grande edifício em tijolo, sempre ao centro – e aquele lugar algo desligado dos compromissos de uma vida profissional; entre uma necessidade sexual de tocar o outro e esse passo, enfim em amor, que será o aceitar o outro. Em Kjaerlighet, Haugerud liberta-se a um realismo mais solto dos constrangimentos (chamemos-lhe) “funcionais” de Sex, e do onirismo literário de Drømmer, para se interessar mais francamente pela banalidade daquela cidade. Um filme que se ritma, efectivamente, por esse encanto surpreendente que o coração “apaixonado” encontra na simplicidade de um quadro corrente. A generosidade do seu reconto será afinal tanto o gosto que se expressa pelas “coisas da vida”, como a liberdade que aqui se evoca (e defende) no contacto com o outro – sem enredar, em demasia, as escolhas de cada um. No final, é com alguma naturalidade que ouvimos assim Oslo, a cidade e uma mulher, a partir desse seu “farol”, chamar-nos para celebrar a simples existência do amor debaixo do sol de fim de Verão.
![]()



