Críticas a Sentimental Value, de Joachim Trier

EquipaJaneiro 30, 2026

Após a aclamação mundial com The Worst Person in the World, Joachim Trier regressa com Sentimental Value. Vencedor do Grande Prémio no último Festival de Cannes e com nove nomeações para os Óscares, o filme conta-nos um mal de amor entre duas irmãs e um pai genial. Entre memória colectiva e herança emocional, o “valor sentimental”. Seis críticas.

 

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um filme histórico para a Noruega, com pouca história para contar

Joachim Trier já está a fazer história ao colocar dois filmes consecutivos na corrida ao Oscar de Melhor filme internacional. Em 2022, apresentou A Pior Pessoa do Mundo e agora volta a entrar na corrida com Valor Sentimental. Só que desta vez, o filme reúne um total de nove nomeações, incluindo para melhor melhor filme. Joachim Trier deixa de pertencer ao filão de cineasta à margem e passa a ser uma espécie de tesouro nacional do país.

As nomeações do maior evento da indústria de cinema, obviamente não chegam para aferir da qualidade de qualquer obra artística, mas também não é possível desconsiderar o impacto que os prémios acabam por significar, no cada vez mais difícil empreendimento de levar público às salas e garantir financiamento para o próximo projeto. Nesse capítulo, Valor Sentimental já pode representar uma garantia de futuro para o cineasta, tendo em conta que vai chegar à cerimónia dos Oscares com uma coleção de prémios muito considerável. No festival de Cannes, o filme recebeu o Grande Prémio e nos prémios do Cinema Europeu venceu seis categorias, incluindo a de melhor filme. Embora os galardões não sejam à partida sinónimo de excelência, mas apenas fruto de escolhas e preferências por determinados júris e contextos, é legítimo pensar que estamos perante um dos filmes do ano 2025. Há quem concorde, mas há também quem ainda esteja a tentar perceber porquê tanto entusiasmo à volta de Valor Sentimental.

Nos primeiros minutos do filme, Renate Reinsve (que também foi protagonista do filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo) aparece no papel de uma atriz, prestes a subir ao palco, quando é acometida de um ataque de pânico. Ela acaba por recompor-se, mas estão lançados desde logo os contornos emocionais e muito particulares desta personagem. Nora é uma das filhas de um realizador de cinema, interpretado por Stellan Skarsgård, que foi um pai ausente, mas que volta a reencontrá-las após a morte da mãe e ex-mulher dele. Para compensar o passado em que falhou e porque o financiamento do cinema está cada vez mais difícil, o cineasta convida a filha atriz para ser protagonista do próximo filme, admitindo que foi escrito a pensar nela. Nora recusa e o realizador preenche a escolha, que devia ser do foro emocional, por uma atriz norte americana, interpretada por Elle Fanning. A partir daqui, Joachim Trier explora os traumas e feridas abertas que parecem não ter solução.

Há uma certa melancolia no cinema de Joachim Trier, na forma como tem conseguido abordar ao pormenor as inquietações humanas e familiares mais íntimas e profundas. Já foi assim no filme anterior, A Pior Pessoa do Mundo, no qual uma jovem mulher faz um percurso de autodescoberta num registo sempre pautado por humor, pertinência e inteligência. Em Valor Sentimental, o cineasta volta a mostrar a sensibilidade do seu olhar, ambientando a história de reconciliação do pai com as filhas na casa de família, apresentada como uma personagem, como uma metáfora óbvia da rutura familiar, através de um plano de uma racha na parede, que se mantém de geração em geração, sublinhando os ressentimentos inultrapassáveis. Há ainda uma outra premissa, por vezes forçada, de que nesta tentativa de reconciliação familiar, as personagens poderão ser salvas pela arte, e em especial pelo Cinema. Pelo meio, Trier ainda pisca o olho ao atual estado do cinema, com passagens sobre financiamento de filmes ou o modo de produção Netflix. Talvez sejam demasiadas camadas para a história de um pai que tenta aproximar-se das filhas. Trier imprime uma determinada cadência e vinca uma tristeza e melancolia que começam a ser, cada vez mais, as marcas fundamentais do seu cinema. Capaz de converter cada silêncio e pequeno gesto numa força maior, Valor Sentimental distingue-se pela elegância e a forma como recusa dramatizar em excesso as rupturas e impasses desta família, mas talvez esses sejam os contornos que o tornam frágil e demasiado simples para tanta corrida a prémios.

Lara Marques Pereira

 

Facilmente se evidencia como o melhor filme de Trier – mais maduro e sobretudo mais coerente -, mas passa uma longa primeira metade a, ainda assim, retomar as faltas de outros filmes seus. Um gesto inconstante, onde a boas ideias não é, muitas vezes, dado espaço para respirar, enquanto se investe tempo supérfluo para contar a “história” do filme de um modo mais legível (Deauville, a Netfilx, o encontro com o velho director de fotografia…). Existe ali um cinema criativo, interessante, mas formalmente incerto, assumidamente diegético, que não parece (saber) encontrar uma identidade sua. Trier fala-nos de Bergman, mas fá-lo como se o tivesse apreendido por Woody Allen – referência bem mais vincada na sua obra, aqui com Another Woman.

É, então, para relativa surpresa nossa que, do sentimento transportado (espaço e tempo) ao longo dessa primeira metade, somos confrontados com a sobriedade da última hora do filme. Conta-se aqui a família Borg, cujo edifício é tanto belíssimo quanto intimamente frágil. Fala-se das fendas, perenizadas pela fundação instável daquela construção, com as quais se aprendeu a viver, na inexistência de uma reparação possível. Um pai ausente, “genial”, e as suas duas filhas. Sonatina de Outono, se a Nora de Renate Reinsve, a filha mais velha e emocionalmente mais frágil, é o centro de tudo no filme, será pela Agnes de Inga Ibsdotter Lilleaas, essa “boa filha”, que se desenhará a chave daquele mal de amor.

Trier sempre se interessou pela História das suas histórias, e nomeadamente pela História da cidade de Oslo, que acolhe os seus filmes. Agnes, a historiadora, é aqui quem, figurando o realizador na própria trama, nos explica então a dita “fissura”, hereditária que serve de motivo ao filme, ancorando-a no contexto mais abrangente da identidade norueguesa no século XX. Como se ensaiara, por exemplo, na introdução de Oslo, 31. august, o relato pessoal, particular, das figuras do filme servirá de voz participante a um enredo comunitário, mais alargado, eco de uma ferida oculta nacional.

Em três ou quatro sequências, despedimo-nos da americana Rachel (Elle Fanning) – que, no seu desajuste com tudo no filme, na sua “inferioridade” emocional face às restantes personagens, sempre fora uma figura bastante comovente – e o laço entre as duas irmãs e seu pai será enfim desvelado através de duas cenas essenciais : primeiro no teatro, com uma actriz enquanto espelho pobre de outra actriz, e depois no apartamento de Nora. Reinsve relê o texto “do pai”, que ouviramos já por outra voz, e será no norueguês original que se revela finalmente a beleza e o alcance daquelas palavras – existe um valor especial no compreendermos um texto através de uma língua que desconhecemos. O desfecho, depois de uma última visita, (cruel e um tanto supérflua) à casa de família, sendo expectável, guarda a sua força pela simplicidade do gesto de Trier, pela sua teatralidade. A imitação de uma vida encenada, esse valor sentimental pelas nossas ficções.

Miguel Allen

 

Sentimental Value começa com uma casa a falar. O que pode soar a truque literário acaba por ser uma boa pista para tudo o que se segue. Esta é uma história sobre espaços carregados de memória, sobre o que fica entranhado mesmo quando as pessoas já não estão lá. No fundo, uma casa nunca é só uma casa. É um recipiente de memórias. Nora e Agnes cresceram ali, filhas de um casamento problemático entre Gustav, um realizador carismático mas ausente, e uma psicoterapeuta que nunca chegamos a conhecer. Nora, a filha mais velha, ficou com a parte mais pesada dessa herança: a ausência do pai transformou-se num ressentimento difícil de metabolizar, colado a uma tristeza crónica que não desaparece por muito que os seus olhos pareçam brilhar. Agnes, a irmã mais nova, aprendeu outro truque de sobrevivência. Manter a paz, custe o que custar. Quando a mãe morre, ninguém espera ver Gustav no funeral. Mas ele aparece, para alívio de alguns, para desconforto de outros. Para Nora, é uma ferida a reabrir; para Agnes, mais uma oportunidade para tentar segurar as coisas com fita-cola emocional. Gustav continua fiel à sua lógica interna: não confronta, contorna. Em vez de reconhecer a dor da filha, convida-a para protagonizar o seu novo filme. A arte surge como atalho emocional, e também como escudo. É a única língua que Gustav sabe falar. O filme usa esta premissa para refletir sobre trauma geracional, mas também sobre a possibilidade de esse trauma ser exorcizado através da arte. Entre Gustav e Nora, contar histórias tanto pode servir para encrespar o confronto como para enfim lhe dar resolução.

O filme regressa às dinâmicas interpessoais que têm vindo a definir o cinema de Joachim Trier, observando, desta vez, a família como um organismo cheio de falhas e mal-entendidos acumulados. O argumento, coescrito com Eskil Vogt, constrói personagens com uma amplitude emocional tal que quase conseguem esconder aquilo que as está a beliscar por dentro. Com um elenco destes, o argumento cai em mãos muito seguras. Renate Reinsve volta a provar que tem um talento raro para tornar visível aquilo que não sabe bem onde pousar. A empatia que sentimos por Nora não vem de a compreendermos a 100%, mas de reconhecermos o tipo de exaustão emocional que surge quando a amargura é contida por demasiado tempo. Skarsgård está no melhor registo dos últimos anos, como um pai incapaz de se expressar fora do seu trabalho, perplexo perante a frustração acumulada das filhas após uma vida inteira de distância emocional. Inga Ibsdotter Lilleaas e Elle Fanning também têm espaço para brilhar, e aproveitam-no.

O filme não avança aos saltos nem vive de grandes reviravoltas de guião. Vai juntando pequenas tensões, coisas por dizer. A forma acompanha esse movimento de acumulação, com poucas explicações, até que um momento simples de personagem acaba por nos bater mais forte do que qualquer cena mais ambiciosa alguma vez poderia. Sentimental Value evita, e bem, qualquer tipo de sentimentalismo xaroposo. É um filme comovente de uma forma quotidiana, reconhecível, sustentado por diálogos tão incisivos quanto espirituosos que já esperamos de Trier e Vogt. Não atinge o pico emocional de The Worst Person in the World, mas convenhamos que essa fasquia é injustamente alta. Apesar disso, a relação entre Nora e Agnes, moldada por anos de uma vida familiar espinhosa, é um dos retratos mais tocantes do amor entre irmãs no cinema recente. No fim, a ideia não é que a arte salve. É que às vezes ela só dá forma ao que era informe: dor, rancor, saudade, aquele nó sem nome na garganta. Trier ainda se permite brincar um pouco com o “filme dentro do filme”, mas a última palavra continua a ser, passando a redundância, sentimental.

Carla Rodrigues

 

Desde cedo, Sentimental Value coloca-nos num lugar emocional difícil de abandonar. A relação com o pai (Stellan Skarsgård) atravessa o filme e define o tom. Não surge como conflito isolado, mas sim como um historial de ausências, regressos mal colocados e promessas implícitas que nunca chegam a cumprir-se. É uma presença instável, sempre determinante, mesmo quando parece lateral. As filhas (Renate Reinsve e Inga Ibsdotter Lilleaas) vivem com as consequências dessa relação. Há uma forma de contenção aprendida, uma atenção constante ao que pode falhar. O filme observa essa dinâmica com algum cuidado, sem dramatizar nem procurar culpados claros. O dano existe, é reconhecível, e não precisa de ser sublinhado. A casa concentra esse peso. Voltar ali não é um gesto neutro. O espaço guarda tensões antigas e obriga as personagens a ocupar posições que nunca desapareceram por completo. Cada encontro acontece sob essa carga acumulada, tornando impossível qualquer aproximação simples.

A arte atravessa o filme como tentativa de contacto. Para o pai, parece ser um modo de organizar o passado e de justificar escolhas. Para as filhas, é um território ambíguo, a aproximação convive com a resistência. O filme não resolve essa tensão e ganha força precisamente por a deixar em aberto. A realização é discreta e nunca se impõe sobre o que está em cena. O filme vive sobretudo nas interpretações, todas muito expostas e contidas, sem gestos em falso. Existe uma escuta constante entre as personagens que sustenta o impacto emocional. Sentimental Value termina sem promessas, reconhecendo que certos laços não se reparam e que a lucidez, por vezes, é a única forma possível de permanência.

Rita Costa

 

A complexidade emocional, já explorada em A Pior Pessoa do Mundo, regressa ao centro das preocupações de Joachim Trier, desta vez de forma mais madura e multifacetada. O retrato pessoal, comum em filmes de estudo de personagem, é substituído por uma exploração de relações partilhadas, complexas e instáveis, que se entrelaçam através de espaços e tempos distintos. Ao acompanhar Nora Borg (Renate Reinsve), uma atriz de teatro, e o seu pai, Gustav (Stellan Skarsgård), um realizador de cinema que procura reconectar-se com as filhas através da sua obra, Sentimental Value não parece estar interessado numa vida em específico, mas na história de gerações, nas problemáticas familiares e nos sofrimentos herdados ao longo dos tempos.

Utilizando a própria casa da família Borg como metáfora para o enredo, este organiza-se em divisões distintas, mas interconectadas, marcadas por memórias deixadas para trás, e por objetos carregados de… valor sentimental. O filme esforça-se por funcionar como um lar, não só para os personagens, mas para as suas vivências, emoções e lembranças, que se entrelaçam e constroem o esqueleto narrativo de forma heterogénea. As diferentes texturas de cada fragmento dramático são palpáveis e variam tanto na estética quanto na sua função: o passado, assumidamente narrado de forma literária, mistura-se com o presente mais subtil e discreto, pontualmente interrompido por momentos abstratos e formalistas, e por excertos dos filmes do próprio Gustav. Esta fusão entre registos e épocas, que se misturam ainda com elementos meta-cinematográficos, permite um fluxo de sequências, de tempos e realidades distintas, que dão corpo, estrutura e ritmo ao filme, mantendo-o entusiasmante no seu caminho para uma finalização concreta. No entanto, na tentativa de manter a sua obra inteligível, Trier acaba por torná-la ligeiramente autoexplicativa e segura, sacrificando parte do seu espírito de ousadia.

O desempenho do elenco não fica aquém do esperado, e Skarsgård consegue ser agridoce e sedutor, com o seu charme arrogante de artista-galã desajustado; porém, nenhum dos personagens é propriamente profundo na sua essência, sendo a complexidade da estrutura fílmica que dá a ilusão de o serem. O protagonismo de Nora é bastante evidente desde o início e permite a empatia e a preocupação do espectador, mas tende a perder a sua importância sempre que outros personagens se apoderam da tela. Esta espécie de protagonismo partilhado, que se espalha pelo filme, tem a vantagem de complexificar a narrativa e tornar mais realistas as relações interpessoais, mas acaba por limitar o poder de exploração de cada personagem individual, nunca deixando o seu eu interno – o seu estado mental e psicológico – se tornar no núcleo do filme.

Sentimental Value funciona de forma bastante eficiente, algures entre a estética do cadáver esquisito e a acessibilidade da narrativa clássica, e destaca-se como um avanço maduro na filmografia de Trier, mostrando-se mais consciente, tanto da complexidade humana quanto da técnica cinematográfica. Deixa, no entanto, uma sensação fria de que, apesar de tanta estrutura, métrica e rima, nunca chega de facto a surgir poesia.

Paulo Ventura

 

Mesmo nos seus momentos mais esclarecedores, Sentimental Value vive daquilo que não diz. Daquilo que é impossível transmitir. E mesmo assim arranja maneira. O filme sabe bem do que são feitas as relações familiares— de imagens do outro que raramente encaixam fora das nossas mentes, de memórias do passado sempre díspares, de raiva, ternura; sobretudo, da inevitável insuficiência da comunicação — e consegue, com esta sabedoria sem pretensão, criar um retrato verdadeiramente universal do amor entre seres inextricavelmente ligados.

Sentimental Value vem redefinir aquilo que é o filme de família, ao ponto de nos poder fazer questionar se alguma vez poderiam ter sido feitos de outra maneira. É claro, no entanto, que temos nas mãos um produto de um realizador com uma intuição emocional sobre-humana que coloca nos seus atores (destacando-se aqui a sensibilidade contida de Renata Reinsve, em choque com a boa-fé alheada de Stellan Skåsgard), no diálogo esparso, e na forma discretamente experimental da sua obra todas as ferramentas para o desenrolar de um transe emocional meditativo no espetador. Esta meditação sucede porque nada nos é pouco familiar; até os abruptos cortes a negro seguidos de cenas que não sabemos ser realidade ou fição induzem uma incredulidade embalada de quem acorda de um sonho, de quem sente sem entender, mas aprende, lentamente, a reconhecer a luz de um novo dia.

Clara Mendes Pereira