Críticas a Send Help, de Sam Raimi

EquipaFevereiro 4, 2026

Um dos grandes nomes do cinema de série B dos anos 80, pai de Evil Dead, Sam Raimi regressa ao registo de terror e comédia negra que tão bem o caracteriza, pela primeira vez desde Drag Me to Hell (2009). Terminadas as incursões pelo universo dos blockbusters (Doctor Strange and the Multiverse of Madness), voltamos, com Send Help, ao camp onde o realizador claramente se sente mais confortável. Rachel McAdams interpreta uma executiva empresarial que se vê presa numa ilha deserta com o seu chefe — um detestável Dylan O’Brien. Sonho ou pesadelo de muitos, a mescla de terror gore e comédia tem gerado entusiasmo. Raquel Sampaio e Pedro Bastos Oliveira assinam as duas críticas.

 

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Send Held é um filme que estreia com uma década de atraso; tanto a premissa – duas pessoas presas numa ilha deserta, cenário de Perdidos (2004-2010) –, como o elenco (alguém se lembra de Dylan O’Brien, The Maze Runner?), parecem-nos datados. Provavelmente, o novo filme de Sam Raimi – realizador das trilogias de género “Evil Dead” (1981-1992) e “Homem-Aranha” (2002-2007) – seria aguardado, visto e acarinhado pelo grande público de 2010, arrastando grupos de amigos da escola ao cinema. Hoje, não é bem assim. A história é sobre Linda Liddle (Rachel McAdams, outra atriz dos 2010s), funcionária dedicada de uma empresa de sucesso, mas negligenciada pelos seus colegas, nomeadamente pelo seu novo chefe, Bradley (Dylan O’Brien) – jovem, desmerecedor e arrogante. Depois de um acidente de avião, os dois são obrigados a sobreviver numa ilha despovoada, longe da relação – hierárquica – que os regia. Embora a situação seja conhecida, a novidade está na narrativa. Perante uma situação calamitosa, Linda não reage com pânico ou urgência (ao contrário de Dylan O’Brien), mas sim como uma possibilidade de viver o seu sonho (sendo ela uma fã incondicional de Survivor). Na verdade, o título do filme profundamente é irónico, pois não se refere ao pedido de ajuda de sobreviventes de um acidente de avião, mas a um grito de socorro de uma mulher que prefere, a todo o custo, abandonar o mundo que conhece e detesta. Embora a sua habilidade de sobrevivência seja pouco credível de uma perspetiva realista, esse não é o olhar de Raimi. Num toque hitchcockiano, o filme materializa, mostrando, as fantasias mais profundas e negras da protagonista –, mesmo, e especialmente, que isso signifique algumas baixas humanas – uma resposta ao pensamento intrusivo e perverso “e se este avião caísse?…”.

Send Help é nitidamente um filme Sam Raimi, contendo o seu estilo comédia-terror – mostrando que os dois géneros não são tão distantes como pensamos –, com a sua amplificação de sentidos, através da utilização de extreme close-ups, intercalados com planos mais abertos, para demonstrar os pormenores hilariantes como um resto de pasta de atum no canto da boca. Raimi é um realizador de storyboards marcados, que, como o cinema de Park Chan-Wook ou Bong Joon-ho, poderiam ser vendidos em banda desenhada. Contudo, por vezes temos a sensação que estamos perante uma paródia de um Raimi – têm sempre de haver cenas exageradamente sangrentas, personagens habilidosos a construir coisas ou personagens em posições morais diametralmente opostas. Podemos dizer que os grandes realizadores fazem sempre o mesmo filme, porém, quando a estética, situações e temas recorrentes são demasiado evidentes, o realizador parece fazer um pastiche – ou um sketch – de si mesmo. Seja como for – e se calhar por ser  não ser um produto do seu tempo – Send Help é uma experiência cativante e divertida, com o desfecho que, não surpreendendo, serve, e que nos relembra o encanto de ver cinema de série B em sala.

Pedro Bastos Olivera

 

Sam Raimi nunca foi de meias medidas e Send Help é prova disso. Aqui regressa ao registo que melhor lhe assenta: terror, temperado com humor negro e uma violência tão exagerada que se torna catártica. O filme é um cruzamento entre sobrevivência numa ilha deserta e comédia negra de escritório, retratando a dinâmica (mutável) entre chefe tóxico e inferior hierárquica maltratada. Há algo de perversamente satisfatório em ver Raimi aplicar a mesma lógica visceral de Evil Dead a uma sátira corporativa onde o verdadeiro horror é perceber que a hierarquia empresarial sobrevive mesmo quando já não há empresa. Rachel McAdams regressa aos ecrãs com uma personagem que merece mais atenção do que provavelmente terá: Linda Liddle. McAdams constrói Linda através de pequenos gestos desajustados: a forma como ocupa demasiado espaço nas conversas, o entusiasmo excessivo que incomoda em vez de cativar, o guarda-roupa e o corte de cabelo de quem parou de tentar. No escritório é invisível (apesar de competente) – o tipo de colega que todos evitam na sala do café. Na ilha algo muda, não de repente, mas gradualmente, como quem descobre músculos que nunca soube que tinha. McAdams transforma essa descoberta numa coisa simultaneamente libertadora e inquietante.

Dylan O’Brien, que já provou saber fazer comédia (e drama, e ação, conforme necessário) encontra aqui o registo certo para Bradley – tipo cuja confiança vem toda do cargo e do dinheiro do pai. A cena em que fica sozinho, ferido, à espera de Linda, é das mais engraçadas do filme à la filme mudo: basta-lhe a cara, elástica, a mudar de expressão enquanto percebe, hora após hora, que está completamente perdido. O argumento de Damian Shannon e Mark Swift funciona porque nunca simplifica. Seria fácil inverter papéis e ficar por aí: a trabalhadora humilhada que se vinga do patrão. Mas o filme interessa-se mais pelas zonas cinzentas. Linda não é a vítima inocente que finalmente se liberta; é alguém que descobre, talvez pela primeira vez, o que é ter poder sobre outra pessoa e gosta disso mais do que devia. Bradley continua detestável, mas também fica vulnerável de formas que complicam a equação moral. No final, nenhum deles sai bem na fotografia e é precisamente isso que torna o filme mais interessante.

Raimi filma tudo com um prazer visual evidente. Há muito sangue, vómito amarelo, um animal claramente feito em CGI tão barato que até parece propositado (provavelmente é) e easter eggs que nos transportam para outros filmes dele. A cena de susto que apanha toda a gente desprevenida está filmada com a precisão cirúrgica de quem sabe exatamente onde colocar a câmara e quando cortar. É menos virtuoso do que era nos anos 80 ou nos Spider-Man, mas continua a ser Raimi: sabe transformar excesso em linguagem. O filme não é irrepreensível. A estrutura range ocasionalmente, como se certas cenas estivessem ali porque o manual do género assim o exige. E há momentos em que se adivinha o golpe antes de ele chegar, o que retira algum impacto. Mas isso importa menos do que devia. Send Help sabe que não precisa de reinventar a roda: basta fazê-la rodar bem, com sangue suficiente para deixar marcas. No fundo, é um filme sobre poder – quem o tem, quem o quer, o que se está disposto a fazer para o manter. E sobre como, quando as estruturas sociais colapsam, o que fica não é necessariamente melhor ou pior: é só diferente, e talvez mais honesto na sua crueldade.

Raquel Sampaio