Críticas a Scream 7, de Kevin Williamson

EquipaMarço 4, 2026

Apesar de ter sido lançada apenas em 1996 pelo mestre do terror Wes Craven, a saga Scream já se consolidou como uma das franquias mais marcantes e duradouras do terror moderno. Impulsionado pelo sucesso do quinto e sexto capítulos, Scream 7 estreia nas salas, também em IMAX, trazendo de volta Neve Campbell e Courteney Cox, além de um novo assassino por trás da icónica máscara. Décadas após a primeira vaga de homicídios em Woodsboro, Sidney Prescott leva uma vida tranquila na cidade de Pine Grove, no Indiana, mas o terror regressa quando Ghostface ressurge… Resultado de uma produção conturbada, o filme tem sido recebido com alguma frieza, apesar do sucesso de bilheteira. As críticas são de Raquel Sampaio, Maria Inês Opinião e David Bernardino.

 

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O que é que fazes quando pões napalm no reboot da tua franchise? Voltas ao início. Scream 7 chega aos ecrãs carregado de drama. Primeiro, saiu do projeto a dupla de realizadores de Scream (2022) e Scream 6 (2023) Matt Bettinelli-Olpin e Tyler Gillett. Uns meses mais tarde, Melissa Barrera – que encarnou Sam nesses filmes e estava claramente posicionada como a nova protagonista da saga -, foi despedida após declarações públicas sobre a Palestina. No dia seguinte, Jenna Ortega abandonou o projeto. Com o núcleo central desfeito, a produção entrou em modo pânico e foi repescar Kevin Williamson (argumentista do primeiro filme da saga, agora também realizador) e Neve Campbell que volta ao papel de Sidney Prescott, agora Sidney Evans, casada com um polícia (Joel McHale) e mãe de Tatum (Isabel May). Voltamos também à small town USA em Pine Grove, Indiana, uma Woodsboro de substituição com ruas vazias e uma paleta visual deliberadamente outonal.

Há uma frase que Gale Weathers (Courteney Cox) diz a Sidney logo no início: “You’re lucky you sat that one out. It was brutal.” É um piscar de olho ao público que conhece o historial conturbado desta produção, mas funciona também como diagnóstico deste filme. O regresso de Campbell é, em si mesmo, um dos argumentos mais sólidos do filme. A atriz não precisa de se reinventar: Sidney é uma personagem que carrega décadas de sobrevivência e ela sabe exatamente quanto peso colocar em cada gesto. A sequência de abertura, na Macher House do Scream original de 1996 (agora transformada em atração turística também na vida real), é tensa e bem executada, recordando por que razão esta saga sobreviveu tanto tempo. Outros momentos sustêm bem a ameaça: uma evisceração original, o papel duma fonte de cerveja à pressão traz um humor negro que assenta ao universo. Ninguém fará jamais o que Wes Craven fazia, mas estas sequências cumprem o básico com competência.

Não obstante, o resto do filme não acompanha essa solidez. A relação mãe-filha, que devia ser o motor emocional, nunca ganha a espessura necessária para justificar o tempo de ecrã que lhe é dedicado. E a tentativa de enxertar uma reflexão sobre trauma geracional resulta numa narrativa que oscila sem nunca se decidir pelo que quer ser. Há ainda a velha máxima de que uma história é tão boa quanto o seu vilão…que evitamos desenvolver sob pena de spoilers. Quando os créditos finais surgem, fica a sensação de um filme que escolheu regressar ao passado porque o presente se desmoronou e que depois descobriu, da pior maneira, que não se deve voltar onde se foi feliz. Nem nós, nem Sidney Prescott.

Raquel Sampaio

 

Neste sétimo capítulo, seria sempre difícil captar o mesmo fôlego renovador dos dois filmes anteriores. A linguagem meta do slasher já não é novidade e, talvez, a única forma de fazer resultar um sétimo filme passasse por um regresso às origens, sem ironia nem piscadelas de olho, assumindo um slasher adolescente mais nostálgico, com menos liberdades mas executado com solidez. No primeiro terço, Scream 7 segue precisamente esse caminho, conseguindo criar uma atmosfera juvenil que remete para os anos 1990 através da filha da protagonista Sidney. O namorado que sobe pela janela do quarto, a peça de teatro da escola secundária e, claro, a cena de abertura apresentada como prólogo — que prometia com toda a legitimidade um grande slasher — ajudam a construir essa expectativa. Contudo, após esse primeiro terço, em que o filme consegue manter alguma autonomia face aos capítulos anteriores, o argumento decide abandonar o espaço de Sidney e introduzir Gale, outra personagem recorrente dos filmes originais, bem como outras figuras que acabam por desequilibrar, ou mesmo destruir, a base sólida construída até então.

Regressa o diálogo presunçoso: já não se fala de reboots, mas de inteligência artificial e deepfakes. As sequências de tensão sucedem-se de forma genérica e algo enfadonha, e Kevin Williamson — que não realizava uma longa-metragem desde o seu filme de estreia em 1999, Teaching Mrs. Tingle, o que talvez explique a estética noventista deste Scream 7, aliado ao facto de ter sido o argumentista do Scream original – parece perder o controlo de um filme que até aí revelava segurança. Os sustos dependem mais do som do que da imagem, Neve Campbell oferece uma prestação medíocre, com uma Sidney que imita as recentes encarnações de Laurie por Jamie Lee Curtis em Halloween, a revelação do assassino não tem qualquer peso dramático e a ausência evidente de identidade transforma a última hora numa experiência penosa, evocando as sequelas genéricas dos anos 1980 que só funcionam entre amigos e com boa dose de indulgência. É verdadeiramente imperdoável depois de um primeiro terço tão promissor.

David Bernardino

 

Já sabemos não nos afeiçoar às primeiras personagens no ecrã, mas Scott (Jimmy Tatro) e Madison (Michelle Randolph) são absolutamente cativantes neste regresso à casa de Stu Macher, numa introdução comparável àquela de 1996, com uma intenção absolutamente clara e bem concretizada, distanciando-se do restante filme. Tatum Evans (Isabel May), com o seu sólido trio de amigas, namorado insistente e mãe insuportável, passa a aproximar-se mais de um coming-of-age sádico. A sua relação com Sidney (Neve Campbell) move todo o filme de modo instintivo, um retrato completamente refrescante no recente cinema materno, tornando toda esta tragédia um pouco mais enternecedora. A química entre elas é inegável, mas parece injusto que a escolha de reencarnação loira de Sidney Prescott recaia sobre alguém que não consegue gritar, mesmo que tente.

Se as novas personagens, como Mark Evans (Joel McHale), Chloe Parker (Celeste O’Connor) ou Ben Brown (Sam Rechner), se impõem naturalmente naquilo que lhes pertence, o mesmo não poderá ser dito das recorrentes. Os irmãos Mindy Meeks-Martin (Jasmin Savoy Brown) e Chad Meeks-Martin (Mason Gooding) são reduzidos a meros side-kicks de Gale Weathers (Courteney Cox). Mindy empenha-se numa constrangedora ambição de superar a jornalista-escritora, sem abandonar o conhecimento do cinema terror; enquanto Chad, deixando de ser um interesse amoroso, pouco é. Já Gale dificilmente seria escrita de forma mais genérica. A própria Sidney perde alguma da sua presença, escondendo-se atrás de um novo nome, de um marido polícia e de uma bandeira americana exibida no seu quintal. A família suburbana não é, certamente, o que esperávamos de Sidney Prescott que sempre soube renascer perante o mal que lhe ditavam.

Scream 7 teria sido a oportunidade ideal para terminar o franchise. Não só celebra os 30 anos do original, como fecha uma trilogia atribulada e controversa. O receio em terminar esta meta-narrativa que se completa e justifica a si mesma mantém-no aquém de quaisquer expectativas que ainda pudessem existir. O filme parece enfrentar o caminho da homenagem, principalmente com o uso de deepfakes, num comentário social que costuma estar presente, mas acaba por voltar atrás por, provavelmente, se lembrar da sua própria lucratividade, culminando numa palermice de um realizador que, pouco tendo a provar, pouco prova.

Maria Inês Opinião