Críticas a Romería, de Carla Simón

EquipaAbril 10, 2026

Roteiro sentimental pelo território íntimo da memória e identidade, terceira longa-metragem de Carla Simón, após Estiu 93 (2017) e Alcarràs (2022). Em Romería, Marina, uma jovem estudante de cinema, viaja até Vigo em busca de informações sobre o pai. Desenha-se um percurso emocional, onde passado e presente se entrelaçam através de fragmentos de uma história familiar marcada por ausências. O filme foi apresentado em competição oficial no Festival de Cannes de 2025. Três críticos deixam agora a sua opinião.

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Romería, o trabalho de Carla Simón que se segue ao Urso de Ouro conquistado em Berlim por Alcarrás (2022), é um corta-e-cose de fragmentos de memória. Do ponto de vista narrativo, conta a história de uma adolescente (Llúcia Garcia) que segue em busca da pista dos pais, falecidos na sua infância, com o intuito de obter um documento notariado da parte dos seus avós que ateste a sua progenia para efeitos de obtenção de uma bolsa de escolaridade. Esta procura, que Simón infunde de um cariz aventureiro em paralelo com as memórias evocadas pelos diários da mãe de García, faz com que Romería tenha um significado cuja profissão de fé do seu título deixa antever. Garcia atravessa o país em busca de algo que aparenta estar escondido na costa da Galiza, descrita nas palavras da mãe de Garcia como tão volátil e imprevisível quanto magnética. A sua jornada é, desde cedo, marcada pela sucessão de tios e primos que se desfilam, matando saudades, oferecendo copos e cigarros, mas sempre a aludirem a algo que Garcia não viveu. Espelhando a abordagem de um filme como Yi Yi (2000, Edward Yang), muitos destes encontros permitem à personagem à descoberta da sua própria identidade o contacto com inúmeras peças de um puzzle que se torna cada vez menos equívoco à medida que Garcia se vai debruçando sobre ele. Garcia descobre-se do ponto de vista identitário à mesma medida em que, paradoxalmente, se dissolve perante o seu passado.

A evasividade de alguns dos membros desta família explica-se pelo impacto da morte dos pais de Garcia, vítimas de complicações motivadas pelo vírus da SIDA, numa comunidade tão tradicional quando conservadora, apostada a deixar o passado nele permanecer. Na tradição de um cinema focado em explorar a questão da memória de forma cíclica, é difícil não mencionar trabalhos que procuram lidar com a epidemia de forma retroactiva, como All The Beauty And The Bloodshed (2022, Laura Poitras) ou Alpha (2025, Julia Ducournau). Ao passo que o registo de Ducournau, por exemplo, opta por exercer uma estilização baseada na forma como as questões de dependência são usadas em prol de metaforizações de curto alcance, os instintos realistas de Simón deixam-na à mercê da sua própria criatividade na exploração da memória. A forma expansiva com que Simón filma o mar e todos os seus estados de humor liga-nos à finalidade da aventura de Garcia pelos escombros da sua família, evidentemente fadada ao confronto.

De forma mais ambiciosa, Simón procura colocar a questão no âmbito de uma recriação mágica da relação entre os pais de Garcia. Esta escolha recolhe da narrativa qualquer tipo de mistério, deixando-a à mercê, não apenas da cosmética do passado de Ducournau, mas sobretudo da simplicidade de uma tragédia simultaneamente dramática e comum. A história destas pessoas é a de uma geração inteira que se perdeu perante culturas que as empurraram para debaixo do tapete. Pelo menos foi assim que Nan Goldin, a protagonista de All The Beauty And The Bloodshed, colocou o legado da SIDA. Simón entrega-nos a uma catarse geracional que não se revê apenas no relembrar do passado, mas também no que as suas consequências foram para quem veio depois. De forma mais consequente ainda, também se entrega à sua total e gráfica desmistificação. Garcia encarna a mãe por entre aventuras e agulhas, encontros e predições, magias e desvendares. Também por esse impulso demonstrativo, o risco de Simón remove o mistério de um insondável passado, mas coloca-nos a pensar se não teria sido preferível o inverso.

Hugo Dinis

 

Se existe um conselho que Carla Simón parece ter seguido à risca, na base da sua carreira cinematográfica, é sem dúvida o de que devemos escrever sobre aquilo que conhecemos. E, se há história que a realizadora catalã conhece, esta é, sem dúvida, a da sua própria vida. Assim, como já havia feito na sua primeira longa-metragem, Verão 1993, Simón utiliza a sua biografia como matéria-prima da criação artística e, para o bem e para o mal, coloca-se a si mesma diante do olhar do espectador, não de forma física, mas emocional. Romería constrói-se como um filme definitivamente fechado no seu próprio umbigo e, inspirado num conjunto de cartas da mãe de Simón, explora o passado da realizadora enquanto se apresenta como o registo concreto da experiência subjetiva da sua protagonista — Marina (Llúcia Garcia) — naquilo que se poderia chamar de tentativa de fixação do passado no presente, através do cinema.

O enredo, caracteristicamente biográfico, centra-se numa jovem órfã que nunca conheceu a sua família paterna e que busca agora rastrear o passado dos seus falecidos pais, enquanto procura obter um documento oficial que comprove a sua identidade, para que se possa candidatar a uma bolsa de estudos que a permita formar-se em cinema. O principal catalisador narrativo assenta nesta complexidade dinâmica das relações familiares, que impulsiona o avançar da trama através de depoimentos, comentários e revelações, por parte dos familiares distantes de Marina, sendo que, a cada interação, o que originalmente se pretende desvendar vai-se moldando como uma massa heterogénea composta por versões distintas dos mesmos eventos, histórias mal contadas, mentiras e ocultações, que constroem um passado não observável nem concreto, mas abstrato, racionalizado e processado individualmente, ao longo do tempo, numa busca por identidade que revela distância no lugar da pertença.

Marina navega assim, de forma por vezes metafórica, por vezes literal, pelas marés ambíguas da sua própria origem, enquanto, pelo caminho, se aproveita da sua veia artística e da sua própria câmara de filmar, como ferramentas de fixação e contemplação do momento presente. Há em Romería uma vontade quase meta-cinematográfica de captar a realidade através da câmara da protagonista — um apego ao tempo presente como material — que se aproveita da capacidade de registo concreto da imagem e do som, como um mecanismo que torna o tempo e, por consequência, a realidade, numa matéria menos abstrata e volátil. Conjugada com o registo textual do diário da mãe de Marina (baseado nas cartas da mãe de Carla Simón), esta captação objetiva da experiência subjetiva da protagonista contrasta com a distorção narrativa do passado da sua mãe e enraíza-nos no presente, junto de Marina, em busca das suas respostas.

Para além deste paralelismo entre o diário da mãe de Marina e os registos de vídeo da jovem, há também em Romería uma construção cíclica de situações e símbolos que fundem o presente e o passado numa única matéria visual e narrativa e que dão a Carla Simón a segurança e o poder de domar e dominar a sua própria biografia. Numa escolha ousada, Llúcia Garcia e Mitch Martín, os atores que interpretam Marina e Nuno, claramente marcados por uma tensão sexual desconfortante, apesar do seu grau de parentesco, são também responsáveis pela interpretação dos papéis da mãe e do pai da própria Marina, como se a imaginação da protagonista apenas lhe permitisse caminhar até aos limites do visível e do reconhecível, e como se a história de mãe e filha se tratasse de um único filamento cronológico, linear e contínuo, existente apenas na imaginação (ou na memória) da protagonista.

Romería é um filme que demora a arrancar, pois não vive de energia nem de impacto, mas sim de subtileza e conexão emocional, o que por vezes demora um pouco mais a ganhar ritmo, mas que, em contrapartida, nos acompanha bem para lá das portas da sala de cinema. O seu final, marcado por uma transposição da subjetividade e do protagonismo entre mãe e filha — como um diário que passa de geração em geração — permite a imposição da decisão final da realizadora no que toca à sua visão do seu próprio contexto familiar. Claramente marcada pela imaginação, esta conclusão revela não a verdade definitiva dos acontecimentos, mas a resposta de Simón quanto às diferentes versões ambíguas da sua biografia. Romería apresenta-se como a concretização de um passado outrora ambíguo, e torna-se a versão da realizadora desta história — a versão que ela decidiu acreditar, contar e imortalizar.

Paulo Ventura

 

A estreia de Romería em Cannes acrescenta uma estrela a galões que já não precisam de ser puxados. Depois de ver dois dos seus filmes selecionados para representar Espanha nos Óscares e de conquistar o Urso de Ouro em Berlim, com Alcarràs, Carla Simón chega à terceira longa-metragem com o estatuto de coqueluche plenamente assegurado no circuito dos festivais europeus — uma posição privilegiada que poucos alcançam, a de percorrerem a volta da vitória antes mesmo de enfrentarem a maratona. Talvez seja esta aura a causa do ligeiro odor a recorrência que se instala logo nos primeiros momentos do filme.

Inspirando-se novamente na própria biografia, Simón regressa — como em Verão 1993 — à figura de uma jovem que perdeu os pais para a SIDA e tenta adaptar-se a um contexto familiar desconhecido. Assim conhecemos Marina (Llúcia Garcia), uma jovem catalã que viaja para Vigo sob o pretexto burocrático de obter o reconhecimento legal dos avós biológicos e garantir uma bolsa universitária. Acredita que ali poderá finalmente encontrar as peças que faltam no puzzle deixado inacabado pelo diário da mãe — diário esse que constitui, aliás, praticamente a única perceção que Marina tem dos seus pais.

Acusada por alguns críticos de fazer um cinema ensimesmado e pouco disposto a humanizar as figuras que rodeiam o seu “avatar” narrativo, Simón retrata aqui uma família desagradável, pouco afetuosa e materialista — mas não assim tão distante de muitas outras que conhecemos. Será legítimo condenar um olhar narcísico quando ele parte, na narrativa, de uma adolescente largada num ambiente desconhecido e, em vários sentidos, hostil? A nosso ver, a pergunta é pertinente; iremos mesmo mais longe afirmando que é precisamente aí que o filme revela uma das suas maiores forças: é esse olhar subjetivo, doloroso, que amplifica tensões que, de outra forma, seriam banais. Nos intervalos em que a narrativa abranda — e até meio do filme são vários — as dinâmicas familiares respiram sem vigilância, e Romería encontra a sua luz. A cena em que uma canção ordinária irrompe na sala após a saída da matriarca, com a câmara a desenquadrar deliberadamente os rostos alegres e o ambiente festivo para se fixar no estranhamento de Marina, sublinha uma sensibilidade autoral difícil de desconsiderar. De forma menos singular, mas igualmente eficaz, destaca-se o olho de Simón para os olhares trocados entre jovens, que adensam e tornam mais mordente o veneno destilado pelos diálogos acesos dos adultos. São momentos breves, quase furtivos, mas neles o filme encontra uma verdade emocional indiscutível.

Infelizmente, a destreza de Simón nem sempre acompanha a sua ambição. O que resulta com naturalidade nos gestos mínimos desfaz-se quando a realizadora procura grandiloquência, tanto no plano temático como no formal. Os rasgos de ambição visual chocam com um guião ansioso por declarar aquilo que poderia apenas insinuar e de se afirmar “sobre” eventos sociais que “marcaram um tempo”, sem deles retirar grande sumo. Lembremos a sequência (potencialmente a mais arrojada do filme) em que Marina fantasia com os pais. Antes de percebermos ao certo onde irá desembocar, já não restam dúvidas que se trata da forma que a filha arranjou de “redimir” os progenitores da família desnaturada. O enredo já revelara demasiado…

Romería avança, assim, entre a vontade de ser leve como uma pluma e pesado como uma bigorna. Sempre que se afasta da confidência subtil para procurar solenidade, diminui tudo aquilo que já possuía para ser grande: o olhar atento, a força dos fantasmas e o mistério das suas palavras. Há cenas de uma intimidade luminosa e uma direção de atores delicada que sustentam a verdade das relações e recordam o melhor de Carla Simón, mas não podemos deixar de sentir que este é um passo atrás face ao que já nos mostrou.

Gil Gonçalves