Com antestreia portuguesa no LEFFEST 2025, Rental Family traz de volta Brendan Fraser ao papel de protagonista, para um filme rodado no Japão pela mão da realizadora Hikari. Fraser interpreta um actor americano a viver no Japão que aceita o inesperado trabalho de representar pessoas em situações reais, tal como ser pai de alguém ou jornalista que se prepara para entrevistar um icónico actor japonês, criando assim laços com essas pessoas.
Um filme de conforto, familiar como o nome indica, mas nunca simplório. Um subgénero a que estranhamente Hollywood parece ter criado aversão. Estreia agora em sala e já foi visto por David Bernardino e Hugo Dinis, cujas opiniões se assemelham, mas as notas nem por isso.
*
Seguindo o caminho deste seu comeback pós The Whale, Brendan Fraser regressa ao lugar de protagonista para interpretar um actor americano no Japão há sete anos em busca de oportunidades. Essa oportunidade surge na forma de uma agência “rental family” cujos actores/funcionários assumem papéis na vida real dos clientes, tais como assumir o de pai, amante ou jornalista. Fraser é esse bom gigante num filme de sentimentos positivos, por vezes infantil e tolo, mas nunca estúpido, estilo que voltou a ganhar força com Perfect Days, curiosamente igualmente rodado em Tóquio. O seu argumento linear, por vezes previsível, nunca deixa de ter a solidez necessária para cimentar as suas personagens. Enquanto interpreta o papel do pai perdido da pequena Mia, sem que a criança saiba a verdade da mentira orquestrada pela sua mãe, Fraser, de cujo passado pouco sabemos, vai apalpando as pequenas emoções da vida num país conservador de forte identidade cultural que nunca conseguirá compreender ou integrar. Hikari, realizadora japonesa, deixará ainda assim o estofo emocional para uma segunda interação do actor com Kikuo, igualmente um actor octogenário cuja memória está prestes a desaparecer. É nessas pequenas peripécias, urbanas, mas também campestres, percorridas pela memória referencial, que o filme funciona. O tom de comédia familiar e o drama de superação e boas emoções, com um Brendan Fraser bobo estranhamente carismático e eficaz, fazem desta uma experiência sorridente de lágrima no canto do olho que era tão comum há 20 anos atrás, quando o cinema talvez não se levasse tão a sério nas suas temáticas. A nota que sai daqui é talvez inflacionada, mas Rental Family é nada mais, nada menos, que um alívio.
![]()
David Bernardino

Parece impossível, mas há hoje em Hollywood uma aversão a este tipo de filme inerentemente populista. Rental Family é um filme perfeitamente satisfatório, que não se leva demasiamente a sério, e que procura estabelecer uma conexão emocional imediata com o seu espectador. Nada disto quer propriamente dizer nada quanto aos méritos artísticos. Hikari leva ao grande ecrã uma proposta que está inteiramente a cargo da direcção do seu público: Rental Family é simplesmente previsível e ausente de sobressaltos ou dúvidas existenciais e o cinema também precisa deste tipo de filme. Brendan Fraser é um americano radicado no Japão a quem cedo lhe dizem que mesmo “com cem anos de Japão” ainda teria mais perguntas que respostas. O tema da solidão é a trave mestra de tudo o que Hikari aqui coloca em movimento. O ingresso de Fraser, ele próprio um actor à procura de afirmação em pequenos papéis e spots publicitários, na empresa que dá o nome ao filme responde a essa necessidade de combate ao seu próprio isolamento. A empresa fornece figurantes para situações sociais da mais variada espécie. O seu fundador (Takehiro Hira) convence-se dos méritos do seu negócio pelo altruísmo da sua missão, mas os desígnios das complicações interrelacionais impõem-se naturalmente à sua visão.
Fraser é, de resto, o elemento desestabilizador do equilíbrio interno da agência. A sua formação de actor convoca um desligamento que simplesmente não se torna exequível em situações de vida real. Também por aí, Hikari não deixa nenhuma porta aberta pela forma como acaba por conduzir a trama para um registo melodramático marcado. Em particular, Fraser vê-se as linhas entre trabalho e vida pessoal esbater-se quando se envolve na vida de uma pequena criança a quem temporariamente serve de pai e de um actor em fim de vida à procura de descobrir o seu sentido. A câmara de Hikari prefere sempre caras a ambientes, fazendo esbater fundos para convocar expressões e olhares. Fraser, nesse aspecto, é um actor algo particular no circuito de Hollywood. O seu portefólio expressivo e corporal presta-se a performances feitas de pequenas emotividades tornadas grandes pela força dos seus gestos. A sua singularidade vai contra a ideia de descobrimento de algo que possa estar escondido em torno do que aparece no ecrã.
Mas Rental Family vê nisso uma necessária vantagem para se posicionar como reservatório emocional de um final feliz mas forte. Quer a menina quer o velho actor celebram a vida em diferentes estádios: a juventude procura prosseguir, processar e perdoar; a velhice tenta encontrar significados nas lembranças, propósito naquilo que foi feito, e aceitação para aquilo que aí vem. Hikari não deixa nem surpresas nem nada por descascar fora da tela, a intencionalidade é total e deixada a nu. Não faz falta emotividade, mas não deixa de subsistir uma sensação de desenlace imerecido face ao que cada personagem viveu. O melodrama vive das personagens com quem Fraser e a sua empresa lida, e raramente da própria condição pouco convencional de alguém que é pago para manter um certo nível de intimidade. Hikari, de resto, refere isso num diálogo entre Fraser e uma prostituta com quem mantém uma relação. Na verdade, as similaridades do trabalho dos dois esbarram na utilização do corpo, mas esta intimidade transaccional raramente serve de interesse para Hikari. As coisas fluem com naturalidade em direcção a um desfecho feliz. Já diria Roger Ebert: não se critique um filme por aquilo que não procura ser.
![]()
Hugo Dinis



