Críticas a Reflexo Num Diamante Morto, de Hélène Cattet e Bruno Forzani – Agente Secreto Flash

EquipaAgosto 18, 2026

Instalado num luxuoso hotel da Riviera francesa, John D., um agente secreto reformado, leva uma existência tranquila e solitária. Até que o súbito desaparecimento da mulher que ocupava o quarto ao lado desperta nele a suspeita de que velhos inimigos regressaram para acertar contas com ele. É esta a premissa do filme proposto pela realização de Hélène Cattet e Bruno Forzani, uma espécie de homenagem aos filmes de agentes secretos sob uma nova lente. Reflexo Num Diamante Morto estreou em Portugal no IndieLisboa, na passada edição de 2025, e chega agora mais de um ano depois às salas portuguesas. Carla Rodrigues e David Bernardino deixam as suas críticas.

 

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Quem já viu um filme de Bruno Forzani e Hélène Cattet sabe mais ou menos ao que vai: visual irrepreensível e uma devoção fetichista pelo cinema de género europeu dos anos 60 e 70. Reflexo num Diamante Morto não foge à fórmula. Desta vez, veneram no altar dos pulp comics italianos de onde saíram personagens como Diabolik. O filme pode resumir-se como uma aventura de James Bond meets Diabolik passada por uma espécie de filtro giallo psicadélico. Como os outros filmes desta dupla, Reflexo num Diamante Morto é a definição cinematográfica de eye candy, mas pouco mais. Cattet e Forzani absorveram décadas de cinema e devolvem-nos numa colagem febril de tudo aquilo que adoram. O problema é que, no meio de tanta adoração, também herdaram algumas das piores características dos filmes que estão a homenagear.

Os diálogos são artificiais e as interpretações muito rígidas, o que terá sido uma escolha deliberada, mas faz o filme parecer vazio de substância. A narrativa, construída como uma colagem fragmentada de memórias que nem sempre respeitam cronologia ou realidade, torna-se quase indecifrável. Há certamente intenção nisso, só que intenção e prazer não são sinónimos. Não há problema nenhum em enveredar pela via narrativa abstracta; contudo, convém priorizar o trabalho de personagens para se conseguir espremer algum sumo.

Tarantino, o grande exemplo de mestre dos remixes cinematográficos, percebe que pode encher um filme de referências e influências desde que nos dê personagens que queremos seguir e uma história que nos prenda. Reflexo num Diamante Morto interessa-se mais pela próxima imagem do que pelas pessoas que coloca dentro dela, acreditando que a própria referência é recompensa suficiente. Durante algum tempo, até é. Só que noventa minutos de “olha que plano incrível” começam a exigir uma resposta à pergunta: sim, mas eu quero saber alguma coisa sobre estas pessoas? E a conclusão é que não, nem por isso.

Reflexo num Diamante Morto é um objeto de culto já embalado e pronto a consumir, estiloso, estranho, tecnicamente fascinante, mas emocionalmente inerte. Um videoclip de hora e meia feito por duas pessoas com um conhecimento enciclopédico sobre os filmes que adoram, excepto talvez sobre aquilo que nos fazia querer continuar a vê-los.

Carla Rodrigues

 

 

O filme da dupla francesa Hélène Cattet e Bruno Forzani, que se assume como um neo-giallo, perde-se desde o início com as suas ideias ambiciosas mas pouco interessantes sobre um ex-agente secreto obcecado por uma mulher assassina do seu passado. Longe já devia ir o tempo em que para fazer um giallo bastaria um título descritivo como O Perfume da Senhora de Negro, A Morte Acontece às Seis da Tarde ou As Lágrimas de Sangue da Virgem, mas Reflexo num Diamante Morto parece focado em executar o seu pastiche performativo de forma máxima, colocando no centro de acção as memórias estilosas de um velho agente secreto e suas peripécias. No papel parece muito bem, mas as ideias são arruinadas por uma execução desgovernada sem qualquer rigor formal. Uma montagem (à falta de melhor palavra) patética, cheia de efeitos estéticos para encher o olho, imagem e cores forçadamente “arrojadas” e, acima de tudo, um dos guiões mais pretensiosos e insuportáveis de que há memória, desesperado por ser original a todo o custo, mas incapaz de oferecer alguma palpabilidade ou inteligibilidade na construção de personagens ou qualquer outra coisa. É como se um adolescente de 16 anos tivesse recebido algum dinheiro para executar de forma imberbe aquilo que considera ser cinema excitante, mas que é apenas superficial e plástico. É raro, mas Reflexo num Diamante Morto é um bom exemplo para aquelas experiências dolorosas e aborrecidas que se podem ter numa sala de cinema, e que põe à prova a boa vontade do cinéfilo médio em não abandonar a sessão a meio.

David Bernardino