Críticas a Project Hail Mary, de Phil Lord e Christopher Miller

EquipaMarço 25, 2026

Mais de uma década depois de 22 Jump Street, o duo de Phil Lord e Christopher Miller volta a reunir-se, desta feita para mais uma adaptação ao cinema de um livro de ficção científica de Andy Weir (The Martian). Em Project Hail Mary, Ryan Gosling protagoniza um herói involuntário e bem humorado, apostado em salvar o planeta da ameaça de extinção solar. O filme vem cimentar a posição de Gosling como um dos mais fiáveis sucessos de bilheteira em Hollywood e um dos poucos que o fazem com aclamação crítica generalizada. Os tribunos Raquel Sampaio e Hugo Dinis foram conferir se assim continua e dizem de sua justiça.

Ryland Grace acorda sozinho numa nave espacial a anos-luz da Terra. À medida que a sua memória regressa, descobre uma missão para travar uma substância misteriosa que está a matar o Sol e salvar a Terra. Uma amizade inesperada pode ser a chave.

 

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Em muitos aspectos, Project Hail Mary corresponde ao regresso a um passado relativamente recente de uma Hollywood marcada por uma visão risonha da vida em comum. Deliberadamente a evocar os clássicos de Spielberg, o filme é uma adaptação do romance de ficção científica de Andy Weir, que já havia escrito o livro que tinha servido de inspiração a The Martian (2015, Ridley Scott), do mesmo nome. De resto, as semelhanças narrativas entre ambos são muito evidentes. Ambos se focam num retrato de um isolamento bem disposto de um astronauta num ambiente inóspito. Ryan Gosling assume, desta feita, o papel de Matt Damon em The Martian, e faz da componente humorística a marca de tom essencial de Project Hail Mary. Nesse aspecto, e chegados até aqui, a criação de Phil Lord e Christopher Miller não diverge de forma significativa do tipo de blockbuster que Marvel e DC têm vindo a promover nos últimos tempos. Contudo, tal como em The Martian, Lord e Miller conseguem canalizar a contradição entre a leveza do seu material e a gravidade da parada e dos acontecimentos. Gosling viaja em busca de salvar a Terra e toda a vida humana nela. Sem pressão no que toca a isso, portanto. Mas Project Hail Mary não deixa transparecer isso em praticamente nenhum momento.

Gosling, de facto, encarna um cientista com pouca vida pessoal e nenhuns amigos ou pessoas chegadas. A sua descoberta de reprodução de um composto que parece estar a consumir a luz do Sol empurra-o para o desconfortável papel de salvador indesejado, e o conto de Weir sublinha isso mesmo ao realçar a redescoberta das memórias perdidas por parte de Gosling no seguimento da brutal viagem a um planeta que aparenta estar a passar incólume neste desaparecimento solar. Lord e Miller socorrem-se da fotografia de Greig Fraser (Dune, The Batman) para recriar uma fantasia de pouca imaginação visual mas de imposição da solidão de Gosling no espaço. Este foco singular acaba por conferir a Project Hail Mary uma narrativa enxuta e escorreita no que diz respeito à comunicação da sua premissa, não obstante. Grande parte das virtudes do trabalho de Lord e Miller está intimamente ligada a esta simplificação máxima e spielbergiana do seu ideal. Não somos convidados a ver novos mundos mas antes a redescobrir o nosso no espaço mais além.

O principal mecanismo de acompanhamento de Gosling no seu esforço existencial passa pela relação com Rocky, um extraterrestre que procura salvar o seu próprio planeta à semelhança de Gosling. A evocação de E.T. the Extra-Terrestrial (1982) coloca Gosling e a simpática pedra com que tenta resolver o dilema solar num caminho que eventualmente culmina no melodrama que leva Lord e Miller a colocar vários finais na narrativa de Project Hail Mary. Do ponto de vista da afectação dramática que normalmente surge associada a este tipo de blockbuster, contudo, a evolução do argumento para esse ponto não deixa de ser eficaz. As curvas e contracurvas finais levam a passar uma sensação de manipulação emocional junto do espectador, ainda assim. Para Gosling, Hail Mary acaba por consagrar a sua posição como actor de serviço para papéis de protagonismo despreparado e humorístico, à semelhança dos de Tom Hanks no passado. Essa é, verdade seja dita, a virtude maior de um filme apostado em agradar: a celebração do herói contrariado, cuja coragem se esconde por detrás da capa de cobardia de todos nós.

Hugo Dinis

 

Project Hail Mary recorda-nos que havia um tipo de cinema que aprendemos a dar por garantido e que, sem darmos conta, desapareceu. Não o blockbuster de super-heróis, mas aquele território intermédio: o filme de aventura com coração, feito para toda a gente, capaz de ser simultaneamente espetacular e íntimo. Phil Lord e Christopher Miller filmam com uma generosidade que já não é comum, e o resultado é algo que nos faz falta há mais tempo do que suspeitávamos. A comparação mais imediata seria com Gravity ou com Cast Away, filmes que apostam tudo na solidão de uma personagem num espaço hostil e que encontram nessa clausura uma forma de falar sobre o que é ser humano. Project Hail Mary pertence a essa linhagem, mas recusa o dramatismo de ambos. É mais leve, mais divertido, mais despretensioso. Não quer ser importante, quer ser bom. E consegue.

O ponto de partida mais surpreendente (e mais acertado) do filme está numa decisão que é também uma declaração de intenções: Rocky, o alienígena que se torna o centro emocional de tudo, não é CGI. É uma marioneta. Tal como o ET de Spielberg. Tal como o Grogu de The Mandalorian. Há qualquer coisa de paradoxal nisto: a presença física, o seu peso tangível de no espaço, tornam estas criaturas mais críveis e mais comoventes do que qualquer efeito especial. Rocky existe no mesmo espaço que Ryan Gosling, e isso muda tudo. A relação entre os dois é o verdadeiro motor do filme. Gosling está no seu modo estrela de cinema: carismático sem esforço aparente, capaz de sustentar cenas inteiras sozinho com um olhar ou uma hesitação. Ryland Grace é um homem que acorda sem memória, no espaço, e que vai reconstruindo quem é ao mesmo tempo que tenta perceber o que está ali a fazer. Há comédia física, há silêncio, há terror contido. É uma performance de equilíbrio. Sandra Hüller surge em contracampo, em flashbacks que vão ganhando peso à medida que a missão se clarifica. Há uma cena em que, baixando a guarda perante os colegas, interpreta uma versão de “Sign of the Times” de Harry Styles, um momento aparentemente menor que se transforma em revelação emocional pura, e que convoca inevitavelmente a cena de karaoke em Toni Erdmann (2016), onde Hüller já demonstrara essa capacidade única de tornar o banal em sublime. Faz o que faz sempre: transforma cada cena em algo inevitável, como se as palavras que diz fossem as únicas possíveis.

Lord e Miller, trabalhando com o director de fotografia Greig Fraser, recusam deliberadamente a linguagem visual do épico espacial convencional, as superfícies estéreis, os planos em gravidade zero que tanto abundam no género. É uma escolha que define o tom: este é um filme fisicamente presente, nervoso, habitado, muito longe da frieza asséptica a que Hollywood nos habituou quando aponta para o espaço. Não é um filme perfeito. O ritmo ressente-se no segundo acto, e há uma ou duas decisões narrativas que apostam em segurança quando podiam arriscar mais. Mas seria desonesto punir Project Hail Mary por aquilo que não é, quando aquilo que é representa já uma raridade: um filme de ficção científica para toda a família, sem ironia defensiva, sem espectáculo vazio, com personagens em quem acreditamos e uma história que nos importa.

E há os créditos finais que merecem ser vistos até ao fim. As imagens de nebulosas que os preenchem não são ilustração nem artifício: são fotografias reais do céu profundo, captadas pelo astrofotógrafo amador Rod Prazeres, cuja visão a produção teve a inteligência de licenciar. Project Hail Mary é também o primeiro verdadeiro blockbuster da Amazon MGM: numa única semana de estreia, arrecadou 140 milhões de dólares contra um orçamento de 200. Num ano em que o cinema continua à procura de fórmulas, este filme lembra que a mais eficaz nunca deixou de existir — apenas parou de ser usada. Amaze, amaze, amaze.

 

Raquel Sampaio